Senhor da cruz mestre e amigo
que me conduz,
o quintal da minha cas
é tão pequeno, só um jardim
onde cabem minhas dores
eu, Você e meus amores.
Se não consigo viver com dores,
sem meus amores,
permita-me então, meu Senhor,
que fiquem as dores, os
espinhos,
mas também meus amores, as
flores.
Deus meu, não pedi uma cruz,
porém, deste-me um corpo
numa cruz.
Não recebi uma cruz de madeira,
como aquela pesada,
que destes ao vosso Filho,
o muito Amado.
Não compreendo como podes amar
e dar uma cruz como prova
e instrumento de amor.
Não me destes uma cruz
mas me destes um corpo
em forma de cruz.
Neste corpo, nesta cruz
carrego, enxertadas,
encravadas em minha mente,
em meu coração e em minha alma,
as pessoas com quem convivo,
e que amo,
a Jandira,
a Beth
o Fernando,
a Fernanda,
o Luiz Gustavo,
o Luiz Felipe.
Deus Pai que és,
não queres glória
nem sacrifícios meus,
por isto só me destes um
corpo,
e neste corpo, através deste
corpo,
em forma de cruz, tenho de
aprender
a conformar o meu viver, meu
sofrer,
com aquele do seu Filho Bem
Amado.
Meu Calvário, minha cruz,
está bem aqui, meu corpo,
minha carne,viva, ainda revoltada,
como árvore verde, resistindo
a se deixar queimar,
em forma de incenso.
Tento compreender
a cruz que eu levo
e a cruz que me leva.
E eu, quantos dias,
quantos anos no vosso caminho,
não percebendo, não vivendo
a cruz que está em mim.
Deus Meu, Meu Pai,
no Teu Plano de Salvação
não me incluíste por acaso,
e por intenção,
não me destes tarefa nenhuma?
Por que Tu me colocaste
neste lugar, neste espaço
neste tempo, nestes anos
nesta família, de amigos e
inimigos?
Tento compreender
a cruz que eu levo
e a cruz que me leva.
Veja como me comporto,
como Pedro, seu discípulo,
como quem te rejeita
e diz que não te conhece,
e como o Tiago, teu amigo
que não acreditou
no que aconteceu
depois da Cruz.
E mesmo assim
a sua Cruz carregou até o fim.
Veja como sou incompetente
na minha missão.
Mesmo assim, a Sua Cruz me
leva,
dando-me forças para levar só
o meu corpo.
Os outros, estes que eu amo,
estão na minha cabeça.
Não estão incorporados
dentro do meu corpo.
Estão fora.
Não deveriam pesar tanto,
pois que estão incluídos
mais na sua Cruz
do que na minha.
Tento compreender
a cruz que eu levo
e a cruz que me leva.
Tento compreender
como pode o amor sobreviver,
quente e forte, silencioso e humilde,
no meio das cruzes dos relacionamentos,
dentro da minha própria família.
Dentro da cruz
não é o nada nem o vazio
que encontro.
É o amor, o sentido,
a força que me leva
a prosseguir na fidelidade
ensinada pelo Filho Muito Amado.
Ninguém tem maior amor
do que aquele que cede
a sua própria Cruz,
seu próprio corpo,
pela vida daqueles que amamos.
Tento compreender
a cruz que eu levo
e a cruz que me leva.
Há ainda outro mistério maior
do que o mistério da vida.
É o mistério do sofrimento
dentro da vida.
Há ainda outro mistério, maior ainda.
É o mistério do amor dentro do sofrimento.
Este é o mistério do Cristianismo,
da Igreja do Jesus Cristo,
comunidade da qual fazemos parte
e na qual estamos envolvidos
no grande Corpo Místico.
O mundo faz propaganda
da felicidade,
mas vive dividido, separado,
ignorando a sabedoria da cruz.
E nós estamos no mundo,
influenciados pela vã felicidade,
fugidia, mentirosa, iludindo-nos,
afastando-nos da Verdade.
O Jesus da cruz
dá testemunho da paz,
da alegria, através do amor sofrido.
Amei sofrendo,
sofri sorrindo,
disse o poeta Frei Eurico de Melo.
Tento compreender
a cruz que eu levo
e a cruz que me leva.
A cruz que eu levo,
me é pesada,
pois que não a compreendo,
e não a aceito com alegria.
A cruz que me leva,
acho eu, não tem peso
pois que sou levado(a)
não sei de que jeito,
mas sinto que estou indo,
carregado(a).
Estou indo, sim, carregado(a)
pois que não se abateu sobre mim,
o peso do desespero, da desistência.
Acho que estou sim,
envolvido(a) no Projeto Redentor
do Jesus Cristo.
Meu sofrer cristificado
produz efeito Redentor,
beneficiando, elevando,
dando significado ao sofrer, ofertado.
Tento compreender
a cruz que eu levo
e a cruz que me leva.
O meu corpo rejeita a cruz.
Não gosto da dor,
nem de sofrer.
O corpo, do velho homem,
da razão, do pensar,
da sensibilidade, do ego,
dos apegos, das minhas preferencias,
quer prazer, bem-estar,
bem sentir e conforto.
O meu espírito aceita a cruz.
Aceita e compreende.
oferece e entrega.
Não resiste,
entrega-se, doa-se,
e vem a paz para compensar.
Tento compreender
a cruz que eu levo
e a cruz que me leva.
A cruz que eu levo
é instrumento de purificação
de todas as imperfeições humanas.
A cruz que me leva
quer preparar-me
para entrar em íntima
e prazerosa comunicação
e convivência com o Deus,
nosso Pai.
O gosto
pela cruz de isopor
leva ao desgosto pela cruz
das responsabilidades cristãs.
E o mau humor, a contrariedade,
e a tristeza, carregam juntos
tamanho e desconfortável peso
da leveza infernal.
O desgosto pela leve cruz de isopor
conduz ao gosto pela cruz
do irmão sofredor.
E o bom humor,
a suavidade e a alegria
andam juntas,
não importando o tamanho
ou o peso da dor.
Tento compreender
a cruz que eu levo
e a cruz que me leva.
A obediência, perseverança,
Humildade e a fidelidade
ao que deve ser feito,
com infinita paciência
é tudo o que é esperado
dos passos que devo dar.
Um passinho atrás do outro,
com paciência, afetuosidade,
carinho, mansidão e amor
no olhar e nas mãos.
Tento compreender
a cruz que eu levo
e a cruz que me leva.
A cruz
que eu carrego
é a mesma
que me leva.
A cruz
que eu arrasto
é a mesma
que me ajuda.
Como eu levo,
assim sou levado.
Se fujo da cruz
sou crucificado.
Se aceito a cruz,
sou libertado.
Como carrego a cruz,
assim sou crucificado
ou assim sou ressuscitado.
Quanto mais fujo da cruz
mais me afasto do Deus,
Pai do Jesus Cristo Redentor
e nosso Pai Salvador.
A cruz é feita
de um pedaço de madeira vertical,
apoiado na terra e ao mesmo tempo
apontando para o céu.
A outra parte é feita de um frágil
pedaço de madeira, horizontal,
enxertada na robusta madeira eterna,
vertical.
Assim somos nós,
natureza humana, horizontal,
enxertada na natureza divina,
vertical.
Nenhum pedaço de madeira é estéril.
Nenhuma cruz é infrutífera.
Toda cruz produz frutos.
Tento compreender
a cruz que eu levo
e a cruz que me leva.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 14/06/2017
Publicado no Blog
Heipo`s World
e no FACEBOOK em
14/06/2017.
Atualizado em 26/02/2024
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