sexta-feira, 27 de março de 2020

721.- Alma. Tecnologia da alma.



 

Não é momento só para rezar,
mas é um momento especial,
para parar, e pensar,
e procurar,
onde está
a alma.

Ouviu-se um grito:
“Façam o trem parar”.
Alguém escutou,
e o trem parou. 

Em algum momento,
em alguma estação,
no meio da viagem,
esquecemos da alma.

Perdemos o contato com o céu,
o objetivo da nossa viagem.

Se perdemos a alma
ou se não soubermos manusear
a tecnologia da alma,
nosso futuro
estará comprometido.

Não saberemos
como chegar ao destino.

Alguém escutou
a oração de alguém.

E o trem da vida parou.

E qual é a mensagem
que este momento,
que esta crise
quer transmitir?

Primeiro. É preciso parar.

Segundo: repensar, rever.

Terceiro: perguntar-se.


Quanta perguntas
viajam em nossa mente,
sem respostas?

Viajamos
pelos quatro cantos da terra,
como turistas insaciáveis,
e nunca chegamos ao destino,
ao centro de nós mesmos,
à nossa alma.

E é por isso
que temos de parar o trem
e perceber
que uma fome e uma sede,
de uma paternidade-materna,
celestial,
se faz necessária
para não vivermos
carentes, como órfãos,
perdidos, desorientados,
longe dos Pais e da pátria.

É esse o momento oportuno,
de se perguntar
como estabelecer contato vivencial
com este Pai-Mãe, celestial.

Nossa alma não aceita viver
como se o Deus Pai não existisse.

Se Ele existe,
minha alma tem sede dele,
da fonte, do criador.

A primeira pergunta,
entre tantas
é a de se perguntar
se sabemos rezar
como convém.

Não sabemos rezar,
se não sabemos como dialogar,
como conversar,
como andar na companhia
e na presença do nosso Pai.

É um momento especial, necessário,
para avaliar nossa vida de oração,
e de relacionamento com a divindade,
pois, pelo que parece,
não sabemos rezar,
porque rezar, na minha opinião,
é estabelecer um relacionamento
entre pessoas, eu pessoa, e o tu divino,
também pessoal, substantivo invisível.

Não falamos de Deus.
Não falamos de Jesus Cristo.
Falamos do Deu Pai, substantivo.
Falamos do Jesus Cristo, substantivo.
Não falamos nunca, de Espírito Santo.
Falamos sempre, do Espírito Santo.

Rezar é estabelecer sintonia, contato,
diálogo com uma pessoa concreta,
substantiva,
mesmo que esteja invisível.

Aí sim, a oração
não será repetição de palavras,
mas uma conversa entre pessoas,
e a conversa, a oração
será sempre atualizada,
com palavras diferentes,
retratando
a situação do momento.

Se em nossas orações,
só sabemos pedir,
estamos demonstrando infantilismo,
falta de reconhecimento da personalidade
que está ali, invisível na nossa frente,
e, como crianças,
pedimos tudo aquilo
que a nossa própria responsabilidade
deve providenciar.

Veja como não somos
personalidades em interação,
em oração, em relação,
em diálogo.

Avaliemos
a forma tradicional
de rezar:
- Só nós falamos,
como máquinas,
mecanicamente,
como disco, automaticamente,
sem nenhum timbre emotivo,
envolvente, diante de uma presença,
real, porém, invisível.

Avaliando mais um pouco:
- Não prestamos atenção
nas respostas.
E nem temos tempo
para esperar, se vai ter
uma resposta.

Na sua sabedoria
ou na sua pedagogia,
o Deus Pai, nunca fala,
ou responde, diretamente.
A fala, a sua vontade,
e seus ensinamentos
estão nas Igrejas,
na Bíblia, nas homilias,
nos testemunhos das pessoas
que já vivenciam
seus ensinamentos.

- Não temos paciência
para fazer silêncio
e escutar
as vozes silenciosas
da divindade,
interagindo,
em relacionamento
quando rezamos.

Este é um sintoma
de que não sabemos usar
da nossa própria alma.

Veja e pense mais um pouco,
como não sabemos rezar:
- Visto que nem sabemos administrar
nossa própria alma,
expressando as vozes
da dimensão espiritual,
as zonas profundas
da nossa personalidade.

Continuemos meditando, avaliando,
como não sabemos mesmo, rezar.

- Não rezamos,
se não pararmos,
para pensar,
meditar,
avaliar,
rever nossa vida,
sob as luzes do Evangelho,
das boas notícias,
ensinadas e vividas
pelo homem-Deus,
Jesus Cristo.

Rezar, pedir socorro,
não é transferir
para o Deus dos céus
os problemas que nós criamos,
aqui na Terra.

Rezar
não é procurar alguém poderoso
que nos ajude
a fazer
aquilo
que está ao alcance
das nossas mãos
e das nossas capacidades,

Rezar
é tomar consciência
das responsabilidades
não assumidas.

Rezar
é consequência,
vem depois,
de uma atitude de omissão,
diante dos outros.

E daí sim,
ir até o Pai
e pedir perdão
por não ter feito
o que tínhamos condições de fazer,
e não fizemos.

Rezar
é abaixar a cabeça,
ajoelhar-se,
reconhecendo-se frágil,
fraco, omisso.

Rezar
é um ato consciente,
que nasce,
não só das nossas falhas
diante do nosso Pai,
mas principalmente,
das nossas falhas e omissões,
diante dos nossos irmãos.

Se você está indo para a igreja,
prestar culto ao Deus invisível,
levar a tua oferta, (que oferta?),
e se te avisarem
ou tua consciência latejar,
que existe alguém
com algum tipo de problema,
deixa para depois
o teu compromisso com teu Deus
e vá primeiro
atender às necessidades
e carências
dos outros teus irmãos.

Rezar
não é transferir
para os poderes do Céu
para os anjos e santos,
a responsabilidade que cabe a nós.

Rezar
é obedecer,
ser fiel,
ser coerente
com as responsabilidades
 que nos cabem,
aqui na terra,
como humanos,
irmãos, fraternos,
e seguidores do Jesus Cristo.

Rezar
está muito mais
na dimensão comportamental
do que na virtual, mental ou nas palavras.

Que tipo de Deus é esse,
que você tem que pedir
para receber?

Se Deus é pai,
Ele cria as pessoas, equipadas,
com ferramentas, com condições de crescer.

Ele deu todos os dons para nós,
que somos suas criaturas,
filhos terrenos.

Pai bondoso,
misericordioso,
não deixa faltar nada
aos seus filhos.

A forma mais correta de oração,
é a de agradecimento ao Pai dos céus,
e aos bons homens e mulheres da terra,
pessoas de boa vontade,
boa formação,
boa educação,
bons profissionais,
bons médicos,
professores,
padres, pastores,
engenheiros, padeiros,
jornalistas, políticos.

A forma mais linda de rezar
é a de louvar,
bendizendo,
agradecendo,
por todas as ferramentas,
instrumentos,
e tecnologias
que usufruímos.

Rezamos,
nas ruas, nas casas,
nos ambientes sociais,
quando visualizamos
atitudes comportamentais,
de heroísmo,
sacrifícios,
dedicação,
doação de si,
e nos comovemos,
choramos ou nos alegramos.

Isso é oração que brota da vida,
que tem origem no testemunho
de pessoas evoluídas na arte
do bem, da bondade,
do amor.

Neste momento também rezamos,
valorizando, reconhecendo
as invenções dos cientistas,
os testemunhos dos santos,
preocupados e ocupados
com as necessidades
e carências dos outros.

Uma só oração é necessária,
aquela que se expressa,
de boca calada,
dando algo,
dando tempo
e atenção
para escutar,
caminhar com alguém
até mais ali na frente.

É momento para pensar,
ver, tomar consciência,
que qualquer lugar é lugar,
para perceber,
de que temos tudo no mundo,
tudo que precisamos
para viver e agir,
como filhos do Deus Pai.

Ainda está faltando
muita gente viver
como filhos,
conscientes,
da Paternidade Divina,
e da fraternidade terrena.

Se Deus é pai,
ele já deu tudo o que é necessário
todos os dons para nós.

Só está faltando colocar em ação,
praticar seus ensinamentos,
de partilha, de amor, doação,
serviço, sendo útil aos outros.

Se Deus é pai,
ele não nos deu tudo pronto,
mas nos deu a capacidade de criar,
pois somos imagem e semelhança com Ele.

Se Deus é Pai,
não mata,
e se castiga, 
é com a finalidade de ensinar.

Pode dar avisos.
Pode chamar atenção.
Pode colocar na frente da gente,
um obstáculo,
para nos perguntarmos
o que é que anda errado,
ou se tomamos caminhos
ou estradas diferentes.

Não é hora só de rezar
mas de parar para perceber
que não estamos sendo coerentes
com nossa tradicional forma de oração.

É hora de parar,
olhar para dentro de si mesmo,
procurar pela alma atrofiada, enferrujada.
É de parar e olhar para dentro de si mesmo.

Olhar para si mesmo
e se perguntar,
onde em mim,
existe semelhança
com o Pai dos céus?


Eneas Paulo Budel Bogucheski
Criado em 27/03/2020