domingo, 29 de setembro de 2019

675.- Contemplação. Pescaria no Rio Cavernoso, Laranjeiras do Sul



Desta vez,

escolhemos pescar no rio Cavernoso,

em Laranjeiras do Sul, distante de Curitiba,

mais ou menos 440 quilômetros.



É, ... além de meio-escritor,

sou metido a meio-pescador,

e meio aprendiz de contemplador.



A vida

no ambiente agitado das cidades,

barulhento,

poluído de sons e imagens,

prejudica-nos.



Necessito restaurar

minhas fontes

de energia

e inspiração.



O contato com a natureza

devolve o equilíbrio perdido.



Pescarias

são eventos

que proporcionam

o ambiente ideal

para restaurar

o equilíbrio biológico,

psicológico e espiritual.



Pescar é uma atividade de busca:

busca da fonte de rejuvenescimento;

busca de envolvimento

e diálogo com a natureza;

busca por lugares

e situações de silêncio.



Pescar de noite,

envolvido pela escuridão lateral

e pelo tapete de estrelas no céu,

dá a impressão que estamos lá em cima,

fazendo parte do infinito espaço celestial.



Pescamos de noite.

De dia, dormimos,

apenas o suficiente,

para descansar o corpo.



Nas pescarias,

o espírito não cansa,

descansa, rejuvenesce.



O clima quente

convida a sair

e a andar pela mata.



Avistei uma montanha.

Desafiei-me

e criei coragem

para subir até o topo.



Então a visão ampla,

aumentava a satisfação,

brotando pensamentos de admiração,

e sentimentos de gratidão.



Quantas vezes

ouvi ou li em algum lugar

que o Deus da Criação

habita o alto das montanhas.



O sol queimando,

a vista ampliando,

as cores da água,

os contornos do lago,

os campos e matas,

as andorinhas,

quero-quero,

o vento,

tanta companhia.



Estava faltando alguém

para escutar

meus pensamentos.



Em silêncio,

naquela paisagem,

a gente aprende

o quanto é bom ficar sozinho,

aquietar a mente,

apenas contemplar.



A natureza,

as montanhas,

os vales, os rios,

as árvores, os passarinhos,

tiram o foco da atenção

de dentro da gente.



Observar demoradamente

cada paisagem,

cada árvore,

animal, passarinho,

relaxando,

permite que a sensibilidade

desperte a inspiração

para enxergar

as qualidades do objeto

que está sendo focado.



A decisão pela admiração

vai desembocar na contemplação,

que parte da visão externa

e conduz à visão interna,

original,

daquilo que se observa.



Quando nos voltamos

para dentro de nós,

a mente

está fabricando pensamentos

sem parar.



Vivemos muito tempo

dentro de nós mesmos,

e essa dinâmica interna

pode reduzir nossa sensibilidade

com o mundo da realidade.



Vejam como é importante observar,

olhar, contemplar o mundo externo.



A realidade externa

provoca

ou ativa

a consciência interna.



A consciência interna

ativada,

eleva as sensações de vitalidade,

aperfeiçoa o ato reflexivo,

disponibiliza clareza mental,

revelando que estamos interligados

com todos os elementos do universo.



O sentimento maior

que vai resultar

de toda esta dinâmica

é o sentimento

de que somos irmãos

de tudo e de todos.



Somos todos

criaturas

do mesmo Deus Criador.  



No alto de uma montanha,

desperta a gostosa sensação

de que somos filhos privilegiados,

do Pai Criador,

e que tudo o que foi feito por Ele

é para nossa curtição.



Já que estou aqui,

onde falam que Você está,

vou me comportar

como alguém que veio

à sua procura.



Tentei entabular um diálogo com Ele.

E perguntei?

      Você pode me confirmar, me falar,

       aparecer para mim,

       e dizer que meus pensamentos

       não são monólogos,

       mas é oração mesmo?

  

Nós rezemos

ou fazemos monólogo?

Eu rezo de verdade

ou apenas converso

comigo mesmo?



Conversamos com alguém

que está na nossa frente,

perguntamos e recebemos respostas

de quem estamos vendo,

observando os lábios

e os gestos.



E fui falando, falando.

E só eu falava, em voz alta.

Passado um tempinho,

percebi que estava agindo

de forma errada.



Eu não estava dando tempo

para Ele responder.

Não dei chances

para o Silêncio.



Como deixar o silêncio falar

ou expressar-se se minha pressa

não tem paciência

ou minha impaciência

não permite outras formas

de entendimento?



E decidi ficar quieto,

procurando perceber

alguma manifestação,

alguma resposta,

numa forma diferente

de comunicar,

já que Ele não ia aparecer

nem falar nada.



Meus olhos

estavam vendo paisagens

extraordinárias.



Minha pele

sentia o vento

me tocando como caricias.



Meus braços descobertos

esquentavam

com o calor do sol.



Meus ouvidos

ouviam o canto

dos pássaros.



Todo meu corpo

recebia mensagens

e só minha mente

não traduzia,

não decifrava

as mensagens

que Ele estava dando,

há muito tempo.



Aprendi,

nesta pescaria,

que o Silêncio,

usa de muitos outros meios

para se fazer entender.



Na outra pescaria,

irei mais preparado.

Talvez seja eu,

o peixe fisgado.


Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 29/09/2019.

eneaspb@gmail.com

terça-feira, 24 de setembro de 2019

674.- Ser. Ambição para ser.


Experimentamos dificuldades

para aprender

o que é complicado,

mas dominamos a vida,

na sua simples complexidade.

 

Uma única ambição,

verdadeira,

é querer ser.

 

Eis uma ambição justa, digna:

Ser simplesmente simples,

calmo, sereno,

leve de ser carregado,

gostoso de conviver.

 

O único modo de proceder,

esperado, por quem por perto está,

e que satisfaz o vivente,

é que você seja simples.

Assim, você revela quem é,

sem máscaras.

 

Sendo simples, você não provoca,

não humilha ninguém,

não incomoda,

mas, agrada a todos,

livre, desapegado,

leve, descarregado.

 

Ser simples

é uma maneira de ser,

barata,

descongestionante,

despreocupante,

nada artificial.

 

Simplesmente,

ser,

despido,

transparente,

sem nada

de artificialidade.

 

Sendo sábio,

envolvendo-se só,

com o essencial,

eliminando os acessórios.

 

Ser simples é o suficiente.

Só com o suficiente, já sobra,

preenchendo tudo o que somos.

 

Então, a sofisticação,

o supérfluo,

os acessórios,

não são,

necessários.

 

Não convém complicar

o que é simples.

 

Não se preocupar

em buscar, ou revelar

títulos, fama, posses,

bens materiais.

 

Não é necessário suar,

gastar energias,

para usar diversas máscaras,

para ser o que

a sociedade,

esperam que sejamos.

 

Basta ser.

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 15/01/2024

Texto já publicado, desmembrado do n. 492.

eneaspb@gmail.com



domingo, 22 de setembro de 2019

673.- Arte. Um frágil barquinho, com mãos poderosas no leme.




Toda obra de arte,
toda criação
é portadora de mensagem,
visível,
 às vezes,
e outras,
necessita de interpretação,
de perguntas e respostas.

Toda obra de arte
foi criada para um fim,
carrega finalidade,
por sua beleza,
conteúdo e intenção do autor.

Cada objeto,
cada ferramenta,
cada ação,
 serve para alguma razão.

Algumas bem visíveis,
outras bem escondidas,
esperando interpretação.

Eis-me aqui,
fazendo parte
da imensa teia da vida,
a cadeia alimentar,
a fraternidade cósmica,
onde tudo se encaixa
no processo da evolução.

Tenho a impressão
de ter um valor,
uma finalidade.

Serei eu,
uma obra de arte?

Se sim,
estou na fase
do inacabado.

Devo ter alguma importância,
algum conteúdo valioso,
Uma mensagem,
     e finalidade.

- Se fui chamado à existência;

- Se os bens de maior valor
sempre se encontram
nas profundidades.
  
- Se estou capacitado
com as ferramentas necessárias
para cavar, para encontrar, 
para entender;

- Se tenho inteligência,
conhecimento,
capacidade de raciocinar,
conquistar conhecimentos,
pesquisar e encontrar respostas;

- Se devo procurar penetrar
as questões mais insondáveis
e misteriosas, ocultas,
por trás da poeira da rotina,
escondidas sob aparências
ou superfícies,
bem nas profundidades;

         Sinto-me
no dever de retribuir,
não ser indiferente
a tão grande presente
e participar
desta extraordinária aventura.

Uma pintura,
uma obra de arte qualquer,
uma paisagem,
uma pessoa
revela muito mais
do que o observador está vendo.

Existe um Autor,
uma intenção desconhecida,
não mapeável ainda, a ser descoberta.

Além do mundo, de tudo o que é visível,
há outro mundo com dimensão invisível
que também faz parte
do que deve ser procurado,
decifrado e incorporado
em nossas pesquisas e projetos.

Uma pessoa humana,
obra de arte inacabada,
talvez também tenha alguma rica
e extraordinária mensagem
escondida, lá dentro.

Parece-me
que devo viver de forma coerente
com as capacidades que tenho.

Se tenho inteligência,
se tenho perguntas não respondidas,
ser coerente
significa colocar-me a caminho,
ir atrás,
procurar.

A acomodação
não combina
com coerência racional
e ambições de eternidade.

Se tenho capacidades
para sair, explorar,
conhecer além das fronteiras,
convém movimentar-me,
sair, explorar, perguntar.

Sentar-me, desistir antes de começar,
revela fraquezas, curta visão,
permanência no mundo animal,
instintivo e limitante.

Olhando para fora,
vejo muitas pessoas
dentro do barco da vida
guardando moedas
que só valem para este tempo.

Vejo também pessoas enganadas,
desviadas da atenção ao foco,
desatentas do farol que alerta
os perigos na navegação.

Confiaram a outros
o leme
de comando
do próprio navio.

Já que estou aqui,
vivendo,
preciso saber da vida
e de tudo aquilo
que diz respeito à vida,
e o que tem, depois,
na continuidade desta vida.

Não quero passar por aqui
como alguém que está viajando,
navegando como turista,
sentado, irresponsável,
enterrando os talentos recebidos
com o dom da vida.

É incoerente
e desrespeito ao criador,
não colocar em ação os dons
que fizeram de cada um de nós,
 um ser perfeito,
completo, com capacidades
para serem colocadas em ação.

Não é coerente
manter dormindo
ou sufocadas
os bens que temos
à nossa disposição.

Só temos uma saída
que seja digna
da perfeição com que fomos criados:
que nossa maneira de ser,
nosso comportamento
e nossas atividades
respondam SIM
a tudo aquilo
que recebemos de bom.

Já que estamos aqui,
neste grande universo,
com toda essa gente,
com tantas ações
e preocupações,
com a consciência desperta,
digamos: EIS-ME AQUI.

Não podemos fugir de nós mesmos,
fugir dessa responsabilidade,
pois que estamos vivos.

Manter esta postura
nos mantém unidos,
em conexão
com todas as forças vivas
e otimistas do universo.

Qualquer outra postura
nos levará à divisão
e à consequente falência
daquilo que somos,
projetados para a complementação,
e aperfeiçoamento contínuo.

Percebemos sim,
as fraquezas
e limitações humanas,
as alturas e os abismos
e os fracassos desfilando.

Percebemos sim,
as capacidades latentes
em cada pessoa humana,
algumas ainda não liberadas,
ainda dormindo,
esperando a hora de acordar.

É sintoma de sabedoria
concentrar-nos
 nas possibilidades
do que somos e do que temos,
cultivando esperanças,
correndo riscos,
mas procurando sempre
as respostas
que vão abrindo portas,
e desapegando
das obras fechadas,
acabadas.

No mar da vida,
somos como um frágil barquinho,
porém, mãos poderosas
estão no leme.


Eneas Paulo Budel Bogucheski
Criado em 10/08/2015.
Atualizado em 22/09/2019