quarta-feira, 10 de agosto de 2022

808.- Espírito. Ver com a alma. Teimosia, loucura ou lucidez?


Levanto-me.

 Lavo meu rosto.

 Olho no espelho.


Eu só vejo no meu rosto,

um pontinho preto,

no meio dos meus olhos.

 

De noite, nós duas,

a pupila dos meus olhos

e a alma do meu espírito,

dormimos e descansamos,

num mesmo cômodo,

na mesma cama.

 

A menina do meu olhar

acorda minha alma,

nos aposentos

do coração.

 

E um silêncio total,

contagiante, toma conta

do infinito universo interior.

 

O salão do universo

é vasto e silencioso.

 

Desaparecem as imagens

que os olhos costumam ver.

 

Quando os olhos

não servem para mais nada

a alma toma seu lugar

e uma nova forma de ver

entra em um cenário

totalmente diferente.

 

Dentro do mundo do espírito,

não há imagens, sons,

cores ou contornos.

 

Tudo é ausência

de tudo o que é daqui,

do mundo visível.

 

Lá, no outro lado,

só há a luz, que sobrevive,

no meio da escuridão

dos olhos fechados,

que já não vê mais nada,

somente uma tela negra ou azul,

transportando estrelinhas

em contínuo movimento,

levando o invisível

para passear

por toda uma imensidão,

inimaginável.  

 

Não há mais nada

de tudo aquilo

que existe aqui.

 

O espírito

não precisa de nada

para existir, mover-se, ser.

 

Não precisa de apoios,

de referências,

de pontos cardeais.

 

Para ir para o mundo

do espírito,

é necessário aprender

a ver com o espírito,

antes de chegar a hora

de perder os olhos físicos.

 

É aqui que convidamos

a menina teimosa,

a teimar, insistir,

não desistir,

até conseguir.

 

Olhar para além,

olhar para dentro da neblina,

onde a luz da alma, ainda fraca,

vai percebendo mais claramente

o mundo invisível,

que dispensa toda forma de contato

ou de conhecimento sensível.

 

Lembre-se.

Não temos mais o corpo

que servia para acumular experiências,

saberes, sabores,

sons, cheiros,

alegrias e dores.

 

Só ficou a alma,

que permaneceu,

sobreviveu,

porque

com o infinito,

se envolveu.

 

         Ir adiante,

         ou desistir?

 

         Ilusão, ficção,

         ou literatura?

 

Teimosia,

loucura

ou lucidez?

 

Algumas linhas,

para encher de tempo,

ou um lugar para a alma

se encher de eternidade?

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

eneaspb@gmail.com

03/08/2022

 

807.- Fome do corpo e sede da alma.


Somos viajantes.


A Terra viaja no espaço,

em volta do sol na velocidade

de trinta quilômetros por segundo.

 

A Terra gira, em volta de si mesma

na velocidade de vinte quilômetros

por segundo.

 

E nem percebemos.

 

Universo

é administrado

por uma Mente Superior

que tudo enxerga e vê

como uma única realidade,

onde tudo está funcionando,

conectado, unido um ao outro.

 

Nós humanos

não conseguimos ter esse tipo de visão,

pois somos parciais, egoístas,

limitados, imperfeitos.

 

Dentro da terra,

a família humana

é um povo cigano.

 

A humanidade caminha.

 

Os homens possuem pés,

o corpo humano possui pernas.

 

Somos caminhantes.

 

O corpo é pesado

mas carrega

uma alma leve. 

 

Não quero separar.

 

Somos unidade de corpo e alma.

 

Mas, para este texto,

separo, para distinguir

o peso do corpo,

da leveza da alma,

separo, para perceber,

o que é do tempo,

e o que é da eternidade.

 

Ambos, corpo e alma,

necessitam de alimentos.

 

Se vou de corpo,

terei fome,

de vez em quando.

 

Se vou de alma,

sentirei sede,

insaciável,

o tempo todo.

 

A alma

está atenta

à fome do corpo

e à sede da alma.

 

Se vou de corpo,

sinto cansaço.

Se vou de alma,

apresso o passo.

 

Se vou de corpo,

a alma vai de carona

numa boa.

 

Se vou de alma,

o corpo resiste,

dificulta,

esperneia, mas,

resmungando,

consegue dizer:

tamo junto.

 

Se vou de corpo

e ele fica doente,

solidária, a alma sofre

de tristeza.

 

Se o corpo sofre,

a alma ameniza,

e logo cicatriza.

 

O corpo, material,

me separa dos outros corpos.

Sua essência é o egocentrismo,

o ego, a individualidade;

a essência da alma é espiritual,

é una, indivisível, altruísta,

me une a tudo e a todos.

 

Se vou de corpo,

gordo e feio,

a alma não se ressente,

mesmo que destituída

de qualquer fisionomia,

é amorosa, meiga e bondosa.

 

Se vou de corpo,

me agito;

se vou de alma,

digo para o corpo;

calma.  

 

Se vou de corpo,

o ego quer o comando;

se vou de alma,

ela, humilde,

aceita obedecer.

 

Se vou de corpo,

as marcas do tempo me ferem,

na chuva, me molho, no frio me fecho;

se vou de alma,

não estou sob a influência do tempo,

mas da eternidade, e nada me afeta.

 

Se vou de corpo, envelheço;

se vou de alma, rejuvenesço.

 

Se vou de corpo,

esqueço de onde vim;

se vou de alma,

tenho um princípio,

que não tem fim.

 

Se vou de corpo,

morro, faleço;

se vou de alma,

permaneço.

 

Se vou de corpo,

o corpo é sagrado,

habita nele

a alma da divindade.

 

Se vou de corpo,

ele leva a alma,

de carona,

por uns tempos.  

 

O corpo fica, estaciona,

volta ao pó, descarrega;

a alma continua viajando,

para outras dimensões,

cada vez mais perfeitas.

 

O que vos parece,

que estou olhando o mundo,

do lado avesso?

 

E assim nos parece,

que tudo o que ao corpo está ligado,

desativa, desliga a alma

do seu destino.

 

Então, um conflito,

na Terra, uma luta

entre dois poderes,

se trava, o tempo todo.

 

A alma tem o poder,

a autoridade

e a responsabilidade

de viver unidos,

pacificamente,

com o corpo,

orientando-o,

conduzindo-o

ao bem maior

que beneficia a ambos,

o corpo e a alma.  

 

Se a alma

cede aos instintos do corpo,

enfraquece, adoece e falece;

se o corpo

aceita o comando da alma,

beneficia-se com a ressurreição

e a vida eterna.

 

Alguns, cientes;

outros, indiferentes.

 

Alguns, se posicionando,

tirando conclusões, decidindo,

escolhendo, evoluindo,

continuam viajando;

outros, na dúvida, indecisos,

ignorando para onde estamos viajando,

acabam desistindo.

 

Estes são apenas alguns pensamentos

do futuro livro que estou escrevendo

sobre a alma.

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

eneaspb@gmail.com

31/07/2022


806. Eu queria ...


Quanta coisa eu queria

e a felicidade insistia,

            e trazia, muito mais

                            do que pedia.


 O que a felicidade ensina

é que ela vem, sempre vem,

dizendo: algo ainda te falta,

sempre faltará.

 

E diz mais: sou uma promessa

que não pode ser cumprida.

 

Jamais descansarás,

de me procurar,

nunca cessarás

de me buscar.

 

Jamais terás

a sensação

de plenitude.

 

Um amigo insatisfeito,

deixou de falar,

para tanta gente,

desconhecida.

 

Largou dos microfones

e hoje fala só

com uma pessoa

de cada vez,

olhando nos olhos,

escutando a respiração,

sentindo a presença,

tocando nas mãos,

ajudando, curando.

 

Tenho agora,

a mesma motivação,

não escrever mais,

para tanta gente,

distante.

 

Mais do que falar,

queremos ser escutados,

entendidos, acolhidos,

receber atenção.

 

A palavra escrita,

não me leva até você,

ou não vai até lá,

onde a tardinha leva.

 

Hoje eu quero,

mais do que queria,

saber o teu nome,

responder à sua pergunta,

pesquisar a sua cura,

entregar-te o que você precisa.

 

Tenho tempo,

vivo entre os livros,

e o silêncio.

 

Leio,

estudo,

escuto,

medito,

e espero 

o teu contato.

 

Quero a sua companhia,

mais do que antes queria.

 

Deixo-te aproximar-se de mim.

 

O que é o que te preocupa?

 

Quero te ajudar

a carregar

o que estiver

te sobrecarregando.

 

Permito-te entrar

no jardim da minha casa,

e na mesinha, sob a árvore,

você, eu, os pássaros, o ar puro,

o espírito de infância,

sem censuras,

compartilhar a vida,

e as perguntas

ainda não nascidas.

 

Eu queria

desfrutar juntos

da tardinha,

permitindo que a noite

deixe de ser só sua

e seja também minha.

 

Só quero descansar

no teu abraço,

acolher o teu cansaço,

ser você em mim.

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

eneaspb@gmail.com

41 98854-5166