quinta-feira, 31 de agosto de 2017

425.- Amor. Porque você me ama, amo tudo, amo viver.


Longa distância

nos separa.

 

Você é mulher.

Eu sou homem.

Porém, ambos somos humanos.

 

Ambos

incompletos,

sujeitos e objetos

amados e amantes.

 

Eu sou casado.

E daí,

se você também é casada,

ou solteira,

não deixa de ser humana,

incompleta,

sempre carente de afeto,

ternura e atenção

carinho e compreensão.

 

Você aí, e eu aqui.

 

Às vezes

passamos bem pertinho

um do outro.

 

Outras vezes,

quase nos tocamos,

perto o suficiente

para sentirmos o perfume

de cada um.

 

Porém,

com os outros,

nesse passar perto,

como robôs automáticos

desperdiçamos oportunidades,

de fortalecer, a alegria de compartilhar

o dom da vida.

 

Nesse roçar o corpo,

um no outro,

insensíveis,

esvaziamos nossa existência

daquilo que mais desejamos

que mais necessitamos

como humanos

que somos:

amar.

 

Se nos comportamos como

insensíveis e desumanos

nos transformamos,

despersonalizamos

nossa essência,

nosso viver.

 

Correndo,

sobrevivendo,

somente existindo,

passamos, um ao lado do outro

como se estivéssemos

lá do outro lado da rua,

do outro lado do mundo,

separados por preconceitos,

distantes o suficiente

para apenas um aceno,

um gesto de percepção.

 

É pouco.

Muito pouco.

 

Não fomos feitos

apenas um para o outro.

O amor é para esparramar

pelo mundo. Faz bem a todos.

 

O Pai e a mãe

não são pais e mães

apenas dos filhos legítimos.

 

Existem outros filhos e filhas

para perceber que estão por aí,

pela vida, também para serem

aceitos, acolhidos e amados.

 

Não fomos feitos

apenas um para o outro.

 

O marido, a esposa

não são propriedades exclusivas

um do outro, fechados para os outros.

 

Existem outros e outras para amar,

para demonstrar afeição,

carinho e ternura.

 

Nosso estoque de afeto

não pode estar disponível

apenas para o próximo,

bem próximo.

 

Quem mais precisa de nós

é aquele(a) que não tem ninguém,

que anda por aí, perdido(a),

sem se sentir amado(a).

 

No meu bairro

vive uma pessoa

que passa por mim,

acompanhada,

e me olha,

dá um sorriso

e continua sorrindo

para os outros também.

 

Ela não passa

para o outro lado da rua.

Ela não muda de pensamento.

 

Ela prepara sua face,

esboça um sorriso,

olha em meus olhos

e sem dizer nada,

me cumprimenta

com um leve movimento

em seu pescoço.

 

Não perde o passo,

nem o charme feminino. 

 

Não se torna infiel

nem desperta o ciúme

em seu companheiro de jornada.

 

Mas não é só ela,

que assim procede.

 

Ainda são poucas as pessoas,

que vivem e convivem

com outras pessoas, vivas,

alegres e entusiasmadas,

desapegadas, abertas e afetivas,

expressando a mais autêntica

natureza de seres humanos,

acolhedores, amáveis, amantes

e não preconceituosas.

 

Outra pessoa viva,  

passa por mim

e diz “oi” ou um “alô”

bastante quente,

aperta minha mão,

dá um tapinha

nas minhas costas,

e pelo olhar, transmite,

 mais algumas palavras

impronunciáveis.

 

Escuto, apaixonado,

traduzidas as expressões:

 

“Você faz parte da vida,

que partilhamos”.

 

“Eu te conheço.

Já te vi antes,

andando por aqui”.

 

Pode haver barulho,

movimento, veículos,

buzinas, sirenes,

mas, parece-me,

só nós dois estamos vivos,

neste mundão de insensíveis

e preconceituosos.

 

Existe sim, um mundo diferente,

de quem sente, e ama tudo e todos

que se move, que está vivo,

palpitando, explodindo

o amor de poeta

que em si carrega.

 

Quando se passa

ao lado de alguém,

com atenção, com admiração, 

o calor e a energia que transmitimos,

funciona como uma declaração de amor:

 

“Você olhou para mim”.

 

“Você percebeu que

passei ao seu lado”.

 

“Pelo mais, você

sabe que eu existo”.

 

Obrigado

por demonstrar amor,

para minha pessoa,

e para tantas outras

que necessitam receber,

perceber esse seu olhar,

de atenção, acolhimento e valorização.

 

Quando você passar por alguém,

olhe-o, contemple-o, admire-o

para que ele se sinta amado(a)

e pense assim:

“Porque você olha para mim,

sinto-me vivo(a) e importante”.

 

“Porque você me ama,

amo tudo, amo viver”.

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 31/08/2017

eneaspb@gmail.com

Publicado no Blog Heipo World

e no FACE em 31/08/2017.

Atualizado em 09/02/2024.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

424.- Milagres acontecem depois das cirurgias.



Antes de submeter-se

a qualquer cirurgia

de alta complexidade,

o paciente, ou impaciente,

assina um termo hospitalar

no qual confirma

que está consciente

dos riscos que corre

ao submeter-se à cirurgia.

 

A medicina é uma ciência exata.

O nosso corpo é um motor.

O médico é engenheiro.

O ser humano é gente,

e medo se sente.

 

A recuperação é lenta.

Exige obediência

e paciência.

 

Se em algum momento

o milagre acontece,

é depois, quando a fé

aparece.

 

Neste ano de 2017

fiz duas cirurgias:

prótese total do quadril.

 

Dia 22 de fevereiro,

no quadril esquerdo

e dia 31 de maio,

no quadril do lado direito.

 

Não havia mais cartilagem

nas articulações dos fêmures.

 

As dificuldades

para andar,

sentar, dirigir,

movimentar-me

ocasionavam-me dores

 cada vez mais fortes.

 

Este problema

vinha se agravando desde 2011.

 

Fui atrás de muitos remédios

e nenhum restaurava

a cartilagem.

Remédios

não adiantavam mais nada.

 

Cada radiografia

constatava maior gravidade

e urgência cirúrgica.

 

Orações fazia continuamente.

 Sei que ajudavam

de alguma forma,

mas não a restauração

da cartilagem.

 

Lá ia eu, mancando,

rezando, lamentando

e brigando com Deus,

implorando milagre

para que não fosse necessário

fazer as cirurgias.

 

Tenho medo de cirurgia.

Tenho medo.

 

Argumentava com Deus

mostrando-lhe a minha conduta,

meu comportamento na família,

minha vida de cristão,

minhas atividades

dentro da Igreja

e dentro do Movimento

das Equipes de Nossa Senhora.

 

Todo dia,

todas as horas eu rezava:

 “Senhor, meu Deus,

afasta de mim este cálice.

Se tu me curas

não sairás perdendo comigo.

Não vais ganhar nada

me mantendo nesta angústia.

Vede meu comportamento,

meu testemunho,

os serviços que te presto

na Igreja, vês minha fé

e não escuta minhas orações”.

 

Não adiantou nada

minhas lamentações.

 

O Deus, meu Pai, se mantinha calado.

 

Apenas permitia

que as circunstâncias

fossem se encaminhando

para que minha decisão

fosse pela cirurgia.

 

Alguns meses antes

conversava frequentemente

com o então padre Ailton

e ele insistia

que eu tentasse descobrir

o porquê dessa situação,

e frequentemente

me enviava mensagens

sobre a origem

e administração do medo.

 

E, dia 22 de fevereiro de 2017

aconteceu a primeira cirurgia,

no fêmur esquerdo.

 

Dois dias depois

estava de alta hospitalar.

 

Nos primeiros dias

as dores eram insuportáveis.

 

Nas duas primeiras noites

não consegui dormir

nenhum minuto sequer.

 

Tentava me mexer na cama

e não havia posição agradável

nem que fosse apenas por alguns minutos.

 

Na segunda noite,

no auge da dor,

pedi para o Deus Pai me ajudar

a ter paciência

e suportar aquelas dores,

mas insistia e pedia

o milagre da cura

rápida e sem dores.

 

De madrugada,

exausto,

consegui dormir

e tive um sonho:

 

Sonhei que o síndico do prédio

apertou a campainha e avisou

que um caminhão basculante

descarregou uma carga de produtos

na frente do nosso prédio,

destinada ao morador

do apartamento 202.

 

A carga  

estava toda esparramada lá,

na frente do prédio,

interrompendo o trânsito,

e que eu era o responsável

e deveria dar um jeito

para recolher tudo

ou dar destinação apropriada.

 

E agora, que faço?

 

Lembrei-me que antes da cirurgia

coloquei uma mensagem no Facebook

pedindo para meus amigos

rezarem pelo êxito da cirurgia.

 

Em sonho,

imediatamente solicitei aos amigos

que cada um pegasse um carrinho de mão

e trouxessem para o meu apartamento

a carga toda.

 

No sonho tudo aconteceu direitinho

e rapidinho,

e tudo o que havia

esparramado pela rua,

foi recolhido e colocado

dentro do meu apartamento,

na sala, cozinha, banheiro, quarto.

 

E agora?

Para que tudo isso?

Para que serve?

 

Quando acordei

procurei interpretar o sonho.

 

Lembrei que as últimas palavras

ou pensamentos que tive,

antes do sonho,

foram estas:

“conversando com Deus,

pedi o milagre

da cura rápida

e sem dores”.

 

Todo processo de cura é lento,

respeitando as orientações médicas,

as doses dos medicamentos,

o tempo de cicatrização,

o tempo da natureza,

do corpo humano

se recuperar.

 

De quatro em quatro horas

havia remédios a tomar,

em pequenas doses.

 

O que significava

aquele monte de coisas?

 

Significava uma mensagem:

Deus não dá

tudo de uma vez,

porque se der,

não saberemos o que fazer.

 

Nossa natureza humana

não aguentaria.

 

Ao lado da minha cama,

no bidê,

havia apenas dois tipos

de medicamentos.

 

Eram estes,

apenas estes medicamentos

que deveriam ser administrados,

no horário certo,

na medida certa,

um dia após o outro.

 

Então entendi o sonho

e chorei,

entendendo a mensagem

da paciência e da humildade.

 

Deus só nos fala

quando aceitamos a fragilidade

e nossa impotência frente a Ele.

 

Não somos deuses.

 

Não temos vergonha na cara

querendo brigar,

e exigir Dele,

que atenda nossos pedidos.

 

Nós é que temos de obedecer,

ou melhor, aceitar as lições

que quer nos ensinar.

 

Deus é Pai

e não quer que soframos,

mas permite o sofrimento

para ensinar

que nossas atitudes

devem ser de filhos obedientes

que necessitam de aulas

sobre humildade.

Para mim,

os milagres

não acontecem

antes das cirurgias,

nem durante, mas depois.

 

Meu corpo ficou perfeito,

e os movimentos restaurados.

Já posso andar de novo,

normalmente.  

 

O filho rebelde aprendeu

mais uma.

 

Sofri, mas alcancei

mais um estágio

de compreensão.

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 30/08/2017

eneaspb@gmail.com

Publicado no blog Heipo World

e no FACE em 30/08/2017.

Atualizado em 09/02/2024.

domingo, 27 de agosto de 2017

423.- Poeta. Vai poeta, vai na frente, abrindo caminhos.



"Poetas não nascem para ter,

nascem para sentir falta".

Dalton Menezes

 

Os poetas voam, sem ter asas,

são livres, como os pássaros.

Experimentam liberdade,

mas morrem de desgosto,

porque poucos os acompanham

em seus passeios pelas nuvens,

ou pelas estradinhas

dos arredores da vida.

 

Assim é o poeta, sofredor,

acolhedor das mensagens,

sofridas e incompletas

 

Assim também é o poeta,

 um degustador, através dos sentidos,

das riquezas ofertadas e disponibilizadas

pela vida.

 

É sofredor porque deseja

que todos participem

do banquete para os olhos,

para os ouvidos, para o paladar,

para o andar e o dançar.

 

Alerta, para andar devagar,

perceber mais detalhes,

gozar mais da vida.

 

Parece-me

que é a uma nobre profissão,

ferido, mantendo os pés no chão,

sentindo as exigências da realidade.

 

Mas, o poeta é quase completo,

como abelha, procura o mel,

aquilo que acaricia e delicia.

 

Com poesia,

vemos o ideal,

como deveria ser,

como sonhamos que seja.

 

Sem poesia

permanecemos no país do ilusório,

no mundo do faz de conta,

que não sacia, só esvazia.

 

Alguns dos meus amigos dormiram,

conformaram-se com o que é,

como aparece, e desvanece.

 

Se viver a vida humana real,

é angustiante e sofrível,

descobrir o que há de divino,

pode ser confortante,

atraente e ideal.

 

Se a filosofia divaga,  

fica só no campo humano,

a teologia e a poesia, vê o ideal a cultivar.

 

A poesia

quer ver a realidade,

quer ver beleza,

a verdade, a bondade,

a unidade, a fraternidade

e a paz como elas devem ser.

 

O poeta não quer ver conflitos,

violência, sofrimento, separações e dores,

mas não se afasta dos espinhos.

 

Se não existem mais profetas,

poetas estão a substitui-los,

a fotografar, sensibilizar,

incentivar e trabalhar

 mudanças necessárias.

 

Quantas vezes quis o profeta

sensível às carências,

alertar, acordar,

ressuscitar os mortos.

 

Se a razão enxerga, mas não muda,

sentimentos convencem,

não se omitem,

não fogem

da dor.

 

Quando os profetas faziam profecias

e diziam o que o Deus Pai não queria,

matavam eles, porque incomodavam.

 

Hoje, quando os poetas fazem poesia,

fotografando a realidade exigente,

muita gente não gosta, 

não degusta

              os sabores dos remédios.  

 

Além das fronteiras,

muito além dos limites geográficos e culturais,

para lá das diferenças complementares,

está a espiritualidade dos poetas,

a sensibilidade para a beleza,

para a bondade e para

a fraternidade universal.

 

Se há algo mais,

além do mundo visível,

no invisível real e aceitável,

vamos entrar e almoçar com os poetas.

 

Profetas e poetas,

do reino humano saturados,

abrem as portas, às promessas,

às esperanças no mundo do além.

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 27/08/2017

eneaspb@gmail.com

Publicado no blog Heipo World

e no FACE em 27/08/2017.

Atualizado em 10/02/2024.