quarta-feira, 30 de agosto de 2017

424.- Milagres acontecem depois das cirurgias.



Antes de submeter-se

a qualquer cirurgia

de alta complexidade,

o paciente, ou impaciente,

assina um termo hospitalar

no qual confirma

que está consciente

dos riscos que corre

ao submeter-se à cirurgia.

 

A medicina é uma ciência exata.

O nosso corpo é um motor.

O médico é engenheiro.

O ser humano é gente,

e medo se sente.

 

A recuperação é lenta.

Exige obediência

e paciência.

 

Se em algum momento

o milagre acontece,

é depois, quando a fé

aparece.

 

Neste ano de 2017

fiz duas cirurgias:

prótese total do quadril.

 

Dia 22 de fevereiro,

no quadril esquerdo

e dia 31 de maio,

no quadril do lado direito.

 

Não havia mais cartilagem

nas articulações dos fêmures.

 

As dificuldades

para andar,

sentar, dirigir,

movimentar-me

ocasionavam-me dores

 cada vez mais fortes.

 

Este problema

vinha se agravando desde 2011.

 

Fui atrás de muitos remédios

e nenhum restaurava

a cartilagem.

Remédios

não adiantavam mais nada.

 

Cada radiografia

constatava maior gravidade

e urgência cirúrgica.

 

Orações fazia continuamente.

 Sei que ajudavam

de alguma forma,

mas não a restauração

da cartilagem.

 

Lá ia eu, mancando,

rezando, lamentando

e brigando com Deus,

implorando milagre

para que não fosse necessário

fazer as cirurgias.

 

Tenho medo de cirurgia.

Tenho medo.

 

Argumentava com Deus

mostrando-lhe a minha conduta,

meu comportamento na família,

minha vida de cristão,

minhas atividades

dentro da Igreja

e dentro do Movimento

das Equipes de Nossa Senhora.

 

Todo dia,

todas as horas eu rezava:

 “Senhor, meu Deus,

afasta de mim este cálice.

Se tu me curas

não sairás perdendo comigo.

Não vais ganhar nada

me mantendo nesta angústia.

Vede meu comportamento,

meu testemunho,

os serviços que te presto

na Igreja, vês minha fé

e não escuta minhas orações”.

 

Não adiantou nada

minhas lamentações.

 

O Deus, meu Pai, se mantinha calado.

 

Apenas permitia

que as circunstâncias

fossem se encaminhando

para que minha decisão

fosse pela cirurgia.

 

Alguns meses antes

conversava frequentemente

com o então padre Ailton

e ele insistia

que eu tentasse descobrir

o porquê dessa situação,

e frequentemente

me enviava mensagens

sobre a origem

e administração do medo.

 

E, dia 22 de fevereiro de 2017

aconteceu a primeira cirurgia,

no fêmur esquerdo.

 

Dois dias depois

estava de alta hospitalar.

 

Nos primeiros dias

as dores eram insuportáveis.

 

Nas duas primeiras noites

não consegui dormir

nenhum minuto sequer.

 

Tentava me mexer na cama

e não havia posição agradável

nem que fosse apenas por alguns minutos.

 

Na segunda noite,

no auge da dor,

pedi para o Deus Pai me ajudar

a ter paciência

e suportar aquelas dores,

mas insistia e pedia

o milagre da cura

rápida e sem dores.

 

De madrugada,

exausto,

consegui dormir

e tive um sonho:

 

Sonhei que o síndico do prédio

apertou a campainha e avisou

que um caminhão basculante

descarregou uma carga de produtos

na frente do nosso prédio,

destinada ao morador

do apartamento 202.

 

A carga  

estava toda esparramada lá,

na frente do prédio,

interrompendo o trânsito,

e que eu era o responsável

e deveria dar um jeito

para recolher tudo

ou dar destinação apropriada.

 

E agora, que faço?

 

Lembrei-me que antes da cirurgia

coloquei uma mensagem no Facebook

pedindo para meus amigos

rezarem pelo êxito da cirurgia.

 

Em sonho,

imediatamente solicitei aos amigos

que cada um pegasse um carrinho de mão

e trouxessem para o meu apartamento

a carga toda.

 

No sonho tudo aconteceu direitinho

e rapidinho,

e tudo o que havia

esparramado pela rua,

foi recolhido e colocado

dentro do meu apartamento,

na sala, cozinha, banheiro, quarto.

 

E agora?

Para que tudo isso?

Para que serve?

 

Quando acordei

procurei interpretar o sonho.

 

Lembrei que as últimas palavras

ou pensamentos que tive,

antes do sonho,

foram estas:

“conversando com Deus,

pedi o milagre

da cura rápida

e sem dores”.

 

Todo processo de cura é lento,

respeitando as orientações médicas,

as doses dos medicamentos,

o tempo de cicatrização,

o tempo da natureza,

do corpo humano

se recuperar.

 

De quatro em quatro horas

havia remédios a tomar,

em pequenas doses.

 

O que significava

aquele monte de coisas?

 

Significava uma mensagem:

Deus não dá

tudo de uma vez,

porque se der,

não saberemos o que fazer.

 

Nossa natureza humana

não aguentaria.

 

Ao lado da minha cama,

no bidê,

havia apenas dois tipos

de medicamentos.

 

Eram estes,

apenas estes medicamentos

que deveriam ser administrados,

no horário certo,

na medida certa,

um dia após o outro.

 

Então entendi o sonho

e chorei,

entendendo a mensagem

da paciência e da humildade.

 

Deus só nos fala

quando aceitamos a fragilidade

e nossa impotência frente a Ele.

 

Não somos deuses.

 

Não temos vergonha na cara

querendo brigar,

e exigir Dele,

que atenda nossos pedidos.

 

Nós é que temos de obedecer,

ou melhor, aceitar as lições

que quer nos ensinar.

 

Deus é Pai

e não quer que soframos,

mas permite o sofrimento

para ensinar

que nossas atitudes

devem ser de filhos obedientes

que necessitam de aulas

sobre humildade.

Para mim,

os milagres

não acontecem

antes das cirurgias,

nem durante, mas depois.

 

Meu corpo ficou perfeito,

e os movimentos restaurados.

Já posso andar de novo,

normalmente.  

 

O filho rebelde aprendeu

mais uma.

 

Sofri, mas alcancei

mais um estágio

de compreensão.

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 30/08/2017

eneaspb@gmail.com

Publicado no blog Heipo World

e no FACE em 30/08/2017.

Atualizado em 09/02/2024.

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