Antes de submeter-se
a
qualquer cirurgia
de
alta complexidade,
o
paciente, ou impaciente,
assina
um termo hospitalar
no
qual confirma
que
está consciente
dos
riscos que corre
ao
submeter-se à cirurgia.
A
medicina é uma ciência exata.
O
nosso corpo é um motor.
O
médico é engenheiro.
O
ser humano é gente,
e
medo se sente.
A
recuperação é lenta.
Exige
obediência
e
paciência.
Se
em algum momento
o
milagre acontece,
é
depois, quando a fé
aparece.
Neste
ano de 2017
fiz
duas cirurgias:
prótese
total do quadril.
Dia
22 de fevereiro,
no
quadril esquerdo
e
dia 31 de maio,
no
quadril do lado direito.
Não
havia mais cartilagem
nas
articulações dos fêmures.
As
dificuldades
para
andar,
sentar,
dirigir,
movimentar-me
ocasionavam-me
dores
cada vez mais fortes.
Este
problema
vinha
se agravando desde 2011.
Fui
atrás de muitos remédios
e
nenhum restaurava
a
cartilagem.
Remédios
não
adiantavam mais nada.
Cada
radiografia
constatava
maior gravidade
e
urgência cirúrgica.
Orações
fazia continuamente.
Sei que ajudavam
de
alguma forma,
mas
não a restauração
da
cartilagem.
Lá
ia eu, mancando,
rezando,
lamentando
e
brigando com Deus,
implorando
milagre
para
que não fosse necessário
fazer
as cirurgias.
Tenho
medo de cirurgia.
Tenho
medo.
Argumentava
com Deus
mostrando-lhe
a minha conduta,
meu
comportamento na família,
minha
vida de cristão,
minhas
atividades
dentro
da Igreja
e
dentro do Movimento
das
Equipes de Nossa Senhora.
Todo
dia,
todas
as horas eu rezava:
“Senhor, meu Deus,
afasta
de mim este cálice.
Se
tu me curas
não
sairás perdendo comigo.
Não
vais ganhar nada
me
mantendo nesta angústia.
Vede
meu comportamento,
meu
testemunho,
os
serviços que te presto
na
Igreja, vês minha fé
e
não escuta minhas orações”.
Não
adiantou nada
minhas
lamentações.
O
Deus, meu Pai, se mantinha calado.
Apenas
permitia
que
as circunstâncias
fossem
se encaminhando
para
que minha decisão
fosse
pela cirurgia.
Alguns
meses antes
conversava
frequentemente
com
o então padre Ailton
e
ele insistia
que
eu tentasse descobrir
o
porquê dessa situação,
e
frequentemente
me
enviava mensagens
sobre
a origem
e
administração do medo.
E,
dia 22 de fevereiro de 2017
aconteceu
a primeira cirurgia,
no
fêmur esquerdo.
Dois
dias depois
estava
de alta hospitalar.
Nos primeiros dias
as
dores eram insuportáveis.
Nas
duas primeiras noites
não
consegui dormir
nenhum
minuto sequer.
Tentava
me mexer na cama
e
não havia posição agradável
nem
que fosse apenas por alguns minutos.
Na
segunda noite,
no
auge da dor,
pedi
para o Deus Pai me ajudar
a
ter paciência
e
suportar aquelas dores,
mas
insistia e pedia
o
milagre da cura
rápida
e sem dores.
De
madrugada,
exausto,
consegui
dormir
e
tive um sonho:
Sonhei
que o síndico do prédio
apertou
a campainha e avisou
que
um caminhão basculante
descarregou
uma carga de produtos
na
frente do nosso prédio,
destinada ao morador
do
apartamento 202.
A
carga
estava
toda esparramada lá,
na
frente do prédio,
interrompendo
o trânsito,
e
que eu era o responsável
e
deveria dar um jeito
para
recolher tudo
ou
dar destinação apropriada.
E
agora, que faço?
Lembrei-me
que antes da cirurgia
coloquei
uma mensagem no Facebook
pedindo
para meus amigos
rezarem
pelo êxito da cirurgia.
Em
sonho,
imediatamente
solicitei aos amigos
que
cada um pegasse um carrinho de mão
e
trouxessem para o meu apartamento
a
carga toda.
No
sonho tudo aconteceu direitinho
e
rapidinho,
e
tudo o que havia
esparramado
pela rua,
foi
recolhido e colocado
dentro
do meu apartamento,
na
sala, cozinha, banheiro, quarto.
E
agora?
Para
que tudo isso?
Para
que serve?
Quando
acordei
procurei
interpretar o sonho.
Lembrei
que as últimas palavras
ou
pensamentos que tive,
antes
do sonho,
foram
estas:
“conversando
com Deus,
pedi
o milagre
da
cura rápida
e
sem dores”.
Todo
processo de cura é lento,
respeitando
as orientações médicas,
as
doses dos medicamentos,
o
tempo de cicatrização,
o
tempo da natureza,
do
corpo humano
se
recuperar.
De
quatro em quatro horas
havia
remédios a tomar,
em
pequenas doses.
O
que significava
aquele
monte de coisas?
Significava
uma mensagem:
Deus
não dá
tudo
de uma vez,
porque
se der,
não
saberemos o que fazer.
Nossa
natureza humana
não
aguentaria.
Ao
lado da minha cama,
no
bidê,
havia
apenas dois tipos
de
medicamentos.
Eram
estes,
apenas
estes medicamentos
que
deveriam ser administrados,
no
horário certo,
na
medida certa,
um
dia após o outro.
Então
entendi o sonho
e
chorei,
entendendo
a mensagem
da
paciência e da humildade.
Deus
só nos fala
quando
aceitamos a fragilidade
e
nossa impotência frente a Ele.
Não
somos deuses.
Não
temos vergonha na cara
querendo
brigar,
e
exigir Dele,
que
atenda nossos pedidos.
Nós
é que temos de obedecer,
ou
melhor, aceitar as lições
que
quer nos ensinar.
Deus
é Pai
e
não quer que soframos,
mas
permite o sofrimento
para
ensinar
que
nossas atitudes
devem
ser de filhos obedientes
que
necessitam de aulas
sobre
humildade.
Para
mim,
os
milagres
não
acontecem
antes
das cirurgias,
nem
durante, mas depois.
Meu
corpo ficou perfeito,
e
os movimentos restaurados.
Já
posso andar de novo,
normalmente.
O
filho rebelde aprendeu
mais
uma.
Sofri, mas alcancei
mais
um estágio
de
compreensão.
Eneas
Paulo Budel Bogucheski
Atualizado
em 30/08/2017
Publicado
no blog Heipo World
e
no FACE em 30/08/2017.
Atualizado
em 09/02/2024.

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