O que é sabedoria?
É o que de melhor
existe
na pessoa. É o
capital espiritual.
Sonhamos ser sábios
e acabamos vivendo
como mágicos.
Se o conhecimento é
insuficiente,
a força de vontade
supre com a
criatividade.
Se o estudo é caro,
a simpatia abre
portas
que a inteligência
não consegue.
Gostaríamos de viver
como pensamos,
mas acabamos vivendo
como podemos.
A inteligência não é
sinônimo
de sabedoria.
Esperteza é desvio,
é procurar um caminho
mais curto,
não, porém, o caminho
certo.
Oportunismo
é saber aproveitar-se
de ocasiões
e das pessoas, para
obter lucros ou vantagens,
mas não é virtude
não.
Correria, afobação,
ansiedade,
agitação é
desequilíbrio.
Não é digno de
imitação.
Riqueza, poder e
orgulho
levam muito para
cima,
onde o ar é mais raro
e mais difícil
respirar.
Afastam da
normalidade,
da realidade
habitual.
Perder tempo é desperdício.
É jogar fora a matéria
prima
com a qual é
construída
a estrutura
e o edifício da
sabedoria.
Olhar a natureza,
aprender com ela,
é a porta de entrada
para aquisição da
sabedoria.
Quatro humores
ou quatro estações
diferentes
revelam a natureza da
criação.
A Terra, nossa casa,
nossa mãe
revela quatro tipos
de humor
durante o ano.
No inverso,
fria e fechada,
reflexiva,
interiorizada,
mantendo a vida mais
quieta,
avaliando-se,
economizando energias.
Na primavera,
abrindo-se,
florescendo, alegrando,
explodindo a vida
guardada,
protegida do frio do
inverno.
No verão,
entusiasmo, vibração,
ação sem descanso,
aproveitando o calor,
o sol, os dias mais
longos.
Agora é a hora das
festas,
sorrisos, encontros,
amizades
fortalecendo-se.
No outono,
pé no freio, hora de
limpar,
preparar-se para
tirar toxinas,
desobstruir artérias,
renovar as vias e as
veias
por onde corre o
sangue da vida.
Momento e tempo para
a reflexão.
Percepção das ilusões
das correrias.
Avaliar
aproveitamentos.
Desistir das ilusões.
Redefinir o jeitão
que estamos levando a
vida.
Hora de fazer
revisões,
momento de refazer
sínteses,
inventários
de como gastar menos
energia
e produzir mais.
Momento de
preparar-se
para o inverno,
para os tempos e
momentos difíceis.
Também nós, humanos,
estamos ali,
vivendo as quatro
estações,
às vezes, no mesmo
dia:
alegres como o verão,
macambuzos, quietos e
pensativos
como o outono,
frios e fechados como
o inverno,
entusiasmados e
cantarolantes,
como a primavera.
Criaturas versáteis
somos nós,
suscetíveis,
sentimentais, reflexivos,
participativos,
pacatos e ativos,
otimistas e
pessimistas.
E assim nos
compreendemos
e nos surpreendemos.
Aproximar-se,
viver e conviver com
os anciãos
é aprender
como a sabedoria é
adquirida
lenta e arduamente.
Os anos vividos,
o andar desengonçado,
as rugas delineadas,
a cor dos cabelos, a
fala mansa,
o espaçamento das
palavras,
tudo isso revela
sabedoria encarnada.
Teimosia compensada,
recompensada
pela busca e pelo
encontro
com a serenidade.
Tempos vividos,
lições aprendidas.
Trinta, cinquenta ou
oitenta anos,
tantas aulas, tantas
provas,
nenhuma reprovação.
Tudo serviu de
professor
ao rebelde aluno
que demorou aprender.
Diploma,
nem sempre na mão;
na maioria das vezes,
na cabeça,
no coração, nas
marcas do corpo,
no conceito dos vizinhos
e familiares.
Sabedoria
não se mede pela
altura conquistada,
mas no íntimo de si
mesmo,
no invisível do
olhar.
Olha-se para mais longe,
para a eternidade
para a qual fomos criados.
A compreensão estende,
amplifica o olhar
que é lá de cima.
Não há resistências,
não há rebeldia.
Aceita-se,
suavemente,
como o sereno que na
noite cai
e pelo menos umedece
a memória quase
ressequida.
A sabedoria
vem como companheira,
disposta a caminhar
só no fim da estrada,
depois de muitos
caminhos andados,
atalhos traiçoeiros,
pousadas mal-assombradas.
Sobrevivemos.
Mais do que as lições
dos sábios,
aprendemos e ganhamos
sabedoria
com os erros
cometidos pelos professores,
e com a madre
ignorância,
insistindo que nunca
é o bastante,
que jamais se coloca
o infinito
conhecimento
dentro da nossa tão
curta vida.
Entre o passado que
se foi,
e o futuro que ainda não
veio,
encontramo-nos com a
senhora sabedoria
palestrando, que é
aqui, no presente
que ela se assenta,
nas praças, na
natureza,
nas crianças e nos
idosos,
nos livros de
história.
E só quem anda
devagar,
quase parando,
que a percebe ali, em
silêncio,
contemplando,
ensinando,
sem nada dizer,
mostrando, o
conhecimento oculto.
A rapidez,
buscada avidamente,
querendo depressa
chegar,
perdida, sem
perceber,
a mensagens à beira
da estrada,
‘devagar se vai longe’.
Chegando, viajando,
lá no exterior,
com a mente aqui,
no outro lado do
Atlântico,
pensando em voltar
logo
e de novo se envolver
nos princípios de
eficiência e eficácia.
Foi sem ir.
Voltou sem ter ido a
lugar algum.
Comeu, bebeu e
curtiu, mas não viveu.
Se não se tem paz,
não se tem sabedoria.
Pode ir a qualquer
lugar
e se leva a sua
própria má companhia.
Não saber viver o
momento presente,
como presente,
não se sente que a
vida é quente.
A sabedoria quer
ensinar,
que a vida é vivida,
momento após momento,
no presente, no agora.
Um passo após o
outro,
degustando o que
somos.
Ouvindo os sons que
harmonizam.
Vendo e comungando
com o que está
acontecendo à nossa volta.
Neste tempo que nos
foi dado
para respirar,
devagar,
sentindo-nos viver.
Eneas Paulo
Budel Bogucheski
Atualizado em
02/02/2017
Publicado no
Blog Heipo World e no FACE em 31/01/2017.
Atualizado em
12/07/2024.
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