terça-feira, 31 de janeiro de 2017

378.- Sabedoria. Vivendo e aprendendo com a professora Sabedoria.


O que é sabedoria?

 

É o que de melhor existe

na pessoa. É o capital espiritual.

 

Sonhamos ser sábios

e acabamos vivendo

como mágicos.

 

Se o conhecimento é insuficiente,

a força de vontade

supre com a criatividade.

 

Se o estudo é caro,

a simpatia abre portas

que a inteligência não consegue.

 

Gostaríamos de viver como pensamos,

mas acabamos vivendo como podemos.

 

A inteligência não é sinônimo

de sabedoria.

 

Esperteza é desvio,

é procurar um caminho mais curto,

não, porém, o caminho certo.

 

Oportunismo

é saber aproveitar-se de ocasiões

e das pessoas, para obter lucros ou vantagens,

mas não é virtude não.

 

Correria, afobação, ansiedade,

agitação é desequilíbrio.

Não é digno de imitação.

 

Riqueza, poder e orgulho

levam muito para cima,

onde o ar é mais raro

e mais difícil respirar.

Afastam da normalidade,

da realidade habitual.

 

Perder tempo é desperdício.

É jogar fora a matéria prima

com a qual é construída

a estrutura

e o edifício da sabedoria.

 

Olhar a natureza,

aprender com ela,

é a porta de entrada

para aquisição da sabedoria.

 

Quatro humores

ou quatro estações diferentes

revelam a natureza da criação.

 

A Terra, nossa casa, nossa mãe

revela quatro tipos de humor

durante o ano.

 

No inverso,

fria e fechada,

reflexiva, interiorizada,

mantendo a vida mais quieta,

avaliando-se, economizando energias.

 

Na primavera,

abrindo-se, florescendo, alegrando,

explodindo a vida guardada,

protegida do frio do inverno.

 

No verão,

entusiasmo, vibração,

ação sem descanso, aproveitando o calor,

o sol, os dias mais longos.

Agora é a hora das festas,

sorrisos, encontros,

amizades fortalecendo-se.

 

No outono,

pé no freio, hora de limpar,

preparar-se para tirar toxinas,

desobstruir artérias,

renovar as vias e as veias

por onde corre o sangue da vida.

 

Momento e tempo para a reflexão.

 

Percepção das ilusões das correrias.

 

Avaliar aproveitamentos.

 

Desistir das ilusões.

 

Redefinir o jeitão

que estamos levando a vida.

 

Hora de fazer revisões,

momento de refazer sínteses,

inventários

de como gastar menos energia

e produzir mais.

 

Momento de preparar-se

para o inverno,

para os tempos e momentos difíceis.

 

Também nós, humanos,

estamos ali,

vivendo as quatro estações,

às vezes, no mesmo dia:

alegres como o verão,

macambuzos, quietos e pensativos

como o outono, 

frios e fechados como o inverno,

entusiasmados e cantarolantes,

como a primavera.

 

Criaturas versáteis somos nós,

suscetíveis, sentimentais, reflexivos,

participativos, pacatos e ativos,

otimistas e pessimistas.

 

E assim nos compreendemos

e nos surpreendemos.

 

Aproximar-se,

viver e conviver com os anciãos

é aprender

como a sabedoria é adquirida

lenta e arduamente.

 

Os anos vividos,

o andar desengonçado,

as rugas delineadas,

a cor dos cabelos, a fala mansa,

o espaçamento das palavras,

tudo isso revela sabedoria encarnada.

 

Teimosia compensada,

recompensada

pela busca e pelo encontro

com a serenidade.

 

Tempos vividos, lições aprendidas.

Trinta, cinquenta ou oitenta anos,

tantas aulas, tantas provas,

nenhuma reprovação.

Tudo serviu de professor

ao rebelde aluno

que demorou aprender.

 

Diploma,

nem sempre na mão;

na maioria das vezes, na cabeça,

no coração, nas marcas do corpo,

no conceito dos vizinhos e familiares.

 

Sabedoria

não se mede pela altura conquistada,

mas no íntimo de si mesmo,

no invisível do olhar.

 

Olha-se para mais longe,

para a eternidade

para a qual fomos criados.

 

A compreensão estende,

amplifica o olhar

que é lá de cima.


Não há resistências, 

não há rebeldia.


Aceita-se, suavemente,

como o sereno que na noite cai

e pelo menos umedece

a memória quase ressequida.

 

A sabedoria

vem como companheira,

disposta a caminhar só no fim da estrada,

depois de muitos caminhos andados,

atalhos traiçoeiros,

pousadas mal-assombradas.

 

Sobrevivemos.

 

Mais do que as lições dos sábios,

aprendemos e ganhamos sabedoria

com os erros cometidos pelos professores,

e com a madre ignorância,

insistindo que nunca é o bastante,

que jamais se coloca

o infinito conhecimento

dentro da nossa tão curta vida.

 

Entre o passado que se foi,

e o futuro que ainda não veio,

encontramo-nos com a senhora sabedoria

palestrando, que é aqui, no presente

que ela se assenta,

nas praças, na natureza,

nas crianças e nos idosos,

nos livros de história.

 

E só quem anda devagar,

quase parando,

que a percebe ali, em silêncio,

contemplando, ensinando,

sem nada dizer,

mostrando, o conhecimento oculto.

 

A rapidez,

buscada avidamente,

querendo depressa chegar,

perdida, sem perceber,

a mensagens à beira da estrada,

‘devagar se vai longe’.

 

Chegando, viajando, lá no exterior,

com a mente aqui,

no outro lado do Atlântico,

pensando em voltar logo

e de novo se envolver

nos princípios de eficiência e eficácia.

 

Foi sem ir.

 

Voltou sem ter ido a lugar algum.

 

Comeu, bebeu e curtiu, mas não viveu.

 

Se não se tem paz, não se tem sabedoria.

 

Pode ir a qualquer lugar

e se leva a sua própria má companhia.

 

Não saber viver o momento presente,

como presente,

não se sente que a vida é quente.

 

A sabedoria quer ensinar,

que a vida é vivida,

momento após momento,

no presente, no agora.

 

Um passo após o outro,

degustando o que somos.

 

Ouvindo os sons que harmonizam.

 

Vendo e comungando

com o que está acontecendo à nossa volta.

 

Neste tempo que nos foi dado

para respirar, devagar,

sentindo-nos viver.


 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 02/02/2017

eneaspb@gmail.com

Publicado no Blog Heipo World e no FACE em 31/01/2017.

Atualizado em 12/07/2024.

 

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