segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

779.- Aceitar, acolher, divinizar.

 


Quando faz frio,

gostaríamos de estar

no calor.

 

Quando estamos com calor,

gostaríamos de estar

num clima mais suave.

 

Quando o tempo

está brusco ou chuvoso,

desejamos o sol.

 

Quando estou num lugar,

fico imaginando e desejando

estar num outro.

 

Quando estou sozinho,

gostaria de estar

com um grupo de amigos.

 

Quando estou enturmado,

sinto vontade de estar sozinho.

 

Nunca estou totalmente satisfeito.

 

Perceba como é bem assim

que transcorre a nossa vida.

 

Se estamos insatisfeitos,

significa que não estamos

conformados,

com o ambiente,

com a vida.

 

Se estamos inconformados,

estamos divididos.

 

Sim.

É desequilíbrio.

 

O equilíbrio

é estar conformado(a),

aceitando, acolhendo,

compreendendo.

 

“Tudo que não é aceito,

não é transformado.

Tudo que não é assumido,

não é divinizado”.

Jean-Yves Lelloup*

 

Desiquilíbrio

é não aceitar.

 

Não aceitar,

provoca revolta

críticas, julgamentos,

palavras, gestos, atitudes,

agressividade, enfim,

desequilíbrios.

 

Os sábios orientais

ensinam a sentir-se

totalmente entregue e envolvido

com a situação do ambiente,

da natureza,

e da natureza humana.

 

A compreensão

da natureza humana

nos torna tolerantes,

pois quando criticamos

os defeitos dos outros,

estamos criticando a nós mesmos,

pois somos todos,

da mesma natureza humana. 

 

Os sábios orientais

ensinam a sentir-se

totalmente envolvidos

com o ambiente

e com a situação.

 

Recuperar a saúde, ou o equilíbrio,

 supõe desapegar-se de todo desejo,

ambição ou pensamentos

que geram divisão.

 

Estar onde estamos,

com a mente,

onde o corpo está,

eis o equilíbrio.

 

Estar num lugar

e querer estar em outro,

é ilusão.

É não estar situado,

e, perdendo o foco.

 

É perda de si mesmo,

desperdício de energias.

 

É viver a partir do ego.

 

É sufocar a essência

do ser humano.

 

É não estar satisfeito

consigo mesmo.

 

O ser humano

pode sentir a paz

estando em sintonia,

unificado com a natureza,

com as pessoas, diferentes,

e, com o universo todo.

 

Perceba que a saúde,

o equilíbrio,

está em sentir-se um,

com tudo e com todos.

 

Adaptar-se

é a solução.

 

Estar com a mente,

onde o corpo está,

nos mantém em contato

com a realidade

e com o Real.

 

Adaptado ao ambiente,

valorizo o que há de bom e belo

em cada coisa, em cada pessoa.

 

Valorizo e sinto

a beleza,

a gratuidade

de cada momento.

 

Perceba que nestas atitudes,

de abertura,

aceitação

e acolhimento,

nasce o otimismo,

a alegria e a paz.

 

E a sensação

de estar vivendo,

é mais intensa,

vivida, degustada,

pois que estamos totalmente ali,

com todo o ser, unificado.

 

Aqui,

onde estou vivendo,

é o momento

em que estou recebendo

inúmeras mensagens,

e o que está acontecendo

está me ensinando algo,

de bom.

* Jean-Yves Leloup 24/01/1950. É psicólogo, filósofo, teólogo, antropólogo, escritor, terapeuta e sacerdote ortodoxo francês. Defensor da união entre ciência e espiritualidade. Nasceu em Angers, França. Autor dos livros: Introdução aos verdadeiros filósofos; Uma Arte de Cuidar, A Sabedoria que Cura; Cuidar do Ser, entre outros.


Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 28/12/2020

eneaspb@gmail.com

sábado, 3 de outubro de 2020

778.- Mansidão. Pacotes de mansidão.


Como de costume,

às 17 horas saí

para a costumeira caminhada

na pista lateral

da Avenida Arthur Bernardes.

 

O dia

já tinha dado

o que podia.

 

Nada mais

a esperar dele.

 

Só resta a tarde,

para dar-me,

o que agora necessito.

 

Se o dia,

agitado,

já está indo,

que venha agora,

o entardecer,

e a noite que me acalma

e me prepara

para os meus bens.

 

A tarde

estava enfeitada,

pintada,

com as diferentes cores laranja,

azul e listras brancas no céu.

 

O sol estava se arrumando

para ir trabalhar

no outro continente.

 

Imediatamente

percebi que estava filosofando,

perguntando-me

como pode as pessoas,

andarem indiferentes

a tamanha beleza,

gratuitamente exposta

em cima das nossas cabeças.

 

Que mistério é este,

de gente pobre e feliz,

e gente rica,

pobre de visão?

 

A agitação

provocada

pela ambição

de tudo querer,

tudo conseguir,

tudo conquistar,

de tudo tirar proveito,

levam certas pessoas

para mundos sem cores.

 

Quem não aprendeu

a olhar para fora de si,

meditar, admirar e contemplar,

ler a vida e suas mensagens,

nada aproveita dos espetáculos

que acontecem na natureza.

 

A natureza toda,

proporciona espetáculos,

no céu e na terra.

 

Basta olhar,

e abrir os ouvidos,

e ler, interpretar

o que transmitem.

 

Quem são aqueles

que decifram,

as mensagens

da natureza?

 

Geralmente,

aqueles

que nada tem,

nada querem

e de nada precisam.

 

Tão pouca coisa necessitamos

para fazer a alegria explodir.

 

Basta perceber

o ar que temos para respirar,

colocar os olhos para ver e admirar,

abrir os ouvidos para ouvir,

perceber a natureza,

as pessoas movimentando-se,

tudo em harmonia.

 

A vida está viva.

 

Vivemos

quando nos colocamos

em contato com a vida,

com o movimento.

 

 

Assim é também

com a vida:

ela é bela,

quando entramos em contato

com as belezas.

 

Ela é bondosa,

quando entramos em contato

com a bondade.

 

Ela é sagrada,

quando percebemos

que tudo foi feita por amor,

pelo Paizinho dos Céus,

para nós, seus filhos

e herdeiros.

 

Carros

passam rapidamente

pela esquerda e pela direita.

 

E com que velocidade!

E eu, a pé, andando.

 

O barulho

não incomodava

quando se escolhe

onde colocar a atenção.

 

Parecia

que estava passando

um filme-mudo ao meu lado.

 

Um filme agitadaço.

O som não me atrapalhava.

 

Minha atenção

estava focada

em outra tela.

 

Você já viu

uma pintura viva,

movimentando,

mudando de cores,

de maquiagem,

a cada instante?

 

Todo entardecer

é uma obra de arte.

 

Todo entardecer

é uma exposição

de quadros belíssimos,

que vão se transformando

lentamente,

alterando listras,

rabiscos,

rascunhos de imagens,

ora reforçando cores,

ora apagando ou desaparecendo

cores e tonalidades.

 

Logo ali,

acima das nossas cabeças,

o céu se mostra imenso,

em constante movimento.

 

Nuvens baixas,

escuras, pesadas,

voando rapidamente,

carregadas de cinzas,

ou de poluição,

em constante mudanças

em suas formas.

 

Contrastando

com estas pesadas e escuras nuvens,

bem acima,

como que contemplando

a ilusão da correria,

pequenas nuvens,

pequenos rabiscos

ou rabos de galo,

as pequenas

e delicadas

nuvens brancas.

 

As nuvens grossas,

baixas,

dão a impressão

de que estão correndo

na contramão,

desfazendo-se

ou evaporando-se,

alterando suas formas

muito rapidamente.

 

As nuvens leves,

de cima, calmas e serenas,

com poucas mudanças

em seus contornos,

mantém um desfile

lento e leve,

mas permanecendo inalteradas

por mais tempo.

 

 

Em menos de uma hora

as transformações são muitas.

 

Enquanto este espetáculo

está se apresentando

não há como ficar

indiferente.

 

Achei, achei um tempinho

para a contemplação.

 

Quando estamos envolvidos

por este processo

de admirar

o que está acontecendo

fora de nós,

é o momento

em que ocorre

em nosso interior

um processo

de reconhecimento

da nossa pequenez

diante de um universo

tão grande, e, maravilhoso.

 

Surgem sentimentos

que depressa despertam

pensamentos de gratidão

por estes momentos

de bem-estar.

 

A tardinha vem chegando.

 

Nossos olhos

contemplam espetáculos

ao ar livre

que estão acontecendo

a dezenas

e centenas de quilômetros,

sem nenhum som.

 

Sem nenhum som ...

e não faz falta.

 

O show

não fica prejudicado.

 

A coloração do laranja

para o vermelho

vai evoluindo lentamente.

 

O barulho

vai reduzindo seu poder

e o silencio

vai se apresentando.

 

A caminhada

já está acontecendo

na etapa da volta,

e não se percebe.

 

A ida é bela.

 

A volta é leve.

 

A companhia escolhida

é aquela que faz bem,

aquela em que decido

concentrar minha atenção.

 

Nos lados,

a agitação.

 

No fundo,

a tranquilidade.

 

No céu,

shows do entardecer.

 

O pôr do sol

e as nuvens,

carregando mensagens,

do céu, para a terra.

 

Em casa,

minha família esperando,

e eu voltando, levando,

pacotes de mansidão.


Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 03/10/2020

eneaspb@gmail.com