Como de costume,
às 17 horas saí
para a costumeira caminhada
na pista lateral
da Avenida Arthur Bernardes.
O dia
já tinha dado
o que podia.
Nada mais
a esperar dele.
Só resta a tarde,
para dar-me,
o que agora necessito.
Se o dia,
agitado,
já está indo,
que venha agora,
o entardecer,
e a noite que me acalma
e me prepara
para os meus bens.
A tarde
estava enfeitada,
pintada,
com as diferentes cores laranja,
azul e listras brancas no céu.
O sol estava se arrumando
para ir trabalhar
no outro continente.
Imediatamente
percebi que estava filosofando,
perguntando-me
como pode as pessoas,
andarem indiferentes
a tamanha beleza,
gratuitamente exposta
em cima das nossas cabeças.
Que mistério é este,
de gente pobre e feliz,
e gente rica,
pobre de visão?
A agitação
provocada
pela ambição
de tudo querer,
tudo conseguir,
tudo conquistar,
de tudo tirar proveito,
levam certas pessoas
para mundos sem cores.
Quem não aprendeu
a olhar para fora de si,
meditar, admirar e contemplar,
ler a vida e suas mensagens,
nada aproveita dos espetáculos
que acontecem na natureza.
A natureza toda,
proporciona espetáculos,
no céu e na terra.
Basta olhar,
e abrir os ouvidos,
e ler, interpretar
o que transmitem.
Quem são aqueles
que decifram,
as mensagens
da natureza?
Geralmente,
aqueles
que nada tem,
nada querem
e de nada precisam.
Tão pouca coisa necessitamos
para fazer a alegria explodir.
Basta perceber
o ar que temos para respirar,
colocar os olhos para ver e admirar,
abrir os ouvidos para ouvir,
perceber a natureza,
as pessoas movimentando-se,
tudo em harmonia.
A vida está viva.
Vivemos
quando nos colocamos
em contato com a vida,
com o movimento.
Assim é também
com a vida:
ela é bela,
quando entramos em contato
com as belezas.
Ela é bondosa,
quando entramos em contato
com a bondade.
Ela é sagrada,
quando percebemos
que tudo foi feita por amor,
pelo Paizinho dos Céus,
para nós, seus filhos
e herdeiros.
Carros
passam rapidamente
pela esquerda e pela direita.
E com que velocidade!
E eu, a pé, andando.
O barulho
não incomodava
quando se escolhe
onde colocar a atenção.
Parecia
que estava passando
um filme-mudo ao meu lado.
Um filme agitadaço.
O som não me atrapalhava.
Minha atenção
estava focada
em outra tela.
Você já viu
uma pintura viva,
movimentando,
mudando de cores,
de maquiagem,
a cada instante?
Todo entardecer
é uma obra de arte.
Todo entardecer
é uma exposição
de quadros belíssimos,
que vão se transformando
lentamente,
alterando listras,
rabiscos,
rascunhos de imagens,
ora reforçando cores,
ora apagando ou desaparecendo
cores e tonalidades.
Logo ali,
acima das nossas cabeças,
o céu se mostra imenso,
em constante movimento.
Nuvens baixas,
escuras, pesadas,
voando rapidamente,
carregadas de cinzas,
ou de poluição,
em constante mudanças
em suas formas.
Contrastando
com estas pesadas e escuras nuvens,
bem acima,
como que contemplando
a ilusão da correria,
pequenas nuvens,
pequenos rabiscos
ou rabos de galo,
as pequenas
e delicadas
nuvens brancas.
As nuvens grossas,
baixas,
dão a impressão
de que estão correndo
na contramão,
desfazendo-se
ou evaporando-se,
alterando suas formas
muito rapidamente.
As nuvens leves,
de cima, calmas e serenas,
com poucas mudanças
em seus contornos,
mantém um desfile
lento e leve,
mas permanecendo inalteradas
por mais tempo.
Em menos de uma hora
as transformações são muitas.
Enquanto este espetáculo
está se apresentando
não há como ficar
indiferente.
Achei, achei um tempinho
para a contemplação.
Quando estamos envolvidos
por este processo
de admirar
o que está acontecendo
fora de nós,
é o momento
em que ocorre
em nosso interior
um processo
de reconhecimento
da nossa pequenez
diante de um universo
tão grande, e, maravilhoso.
Surgem sentimentos
que depressa despertam
pensamentos de gratidão
por estes momentos
de bem-estar.
A tardinha vem chegando.
Nossos olhos
contemplam espetáculos
ao ar livre
que estão acontecendo
a dezenas
e centenas de quilômetros,
sem nenhum som.
Sem nenhum som ...
e não faz falta.
O show
não fica prejudicado.
A coloração do laranja
para o vermelho
vai evoluindo lentamente.
O barulho
vai reduzindo seu poder
e o silencio
vai se apresentando.
A caminhada
já está acontecendo
na etapa da volta,
e não se percebe.
A ida é bela.
A volta é leve.
A companhia escolhida
é aquela que faz bem,
aquela em que decido
concentrar minha atenção.
Nos lados,
a agitação.
No fundo,
a tranquilidade.
No céu,
shows do entardecer.
O pôr do sol
e as nuvens,
carregando mensagens,
do céu, para a terra.
Em casa,
minha família esperando,
e eu voltando, levando,
pacotes de mansidão.
Eneas
Paulo Budel Bogucheski
Atualizado
em 03/10/2020

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