quarta-feira, 10 de agosto de 2022

795.- Tempo.



Será o tempo uma ferramenta?

 

Será o tempo, material de construção?


Nesta noite

sonhei que estava sendo assaltado.

 

Acordei, suado, gritando:

“Por favor, acudam-me,

estão levando meu tempo”.

 

Um sentimento de esvaziamento,        

como se estivessem sugando minha alma,

minha fortuna imaterial,

experiências, sonhos e ideais,

qualidades acumuladas

ao longo dos anos.

 

Meio acordado e meio dormindo

assistia-me sendo roubado.

 

O barulho vinha, batia

e me atordoava.

A correnteza vinha

e me derrubava.

 

A fúria da tempestade

em forma de avalanche,

uivando sons confusos e anestesiantes,

me assaltavam.

 

Tentava fincar o pé no chão,

querendo permanecer

na posição vertical e alerta,

mas vinha de novo o vento

tentando me derrubar.

 

Faltava-me no que segurar-me.

Todos os suportes,

tudo o que havia de seguro,

já estava caído,

rolando na correnteza,

deitado, como sem vida,

entregues, na posição

e condição de desistência.

 

Deitado, rolava,

rodovida abaixo.

 

Quanto mais rolava,

menos resistências sobrava.

 

Esvaziava ideias e ideais,

desejos e esperanças,

 

Dormindo, nada mais senti.

Despersonalizado, me perdi.

 

Perdido, roubado,

sem norte e sem sul,

oco por dentro,

sem conteúdos,

quase morri.

 

Não estavam levando só meu tempo:

eu estava indo junto.

 

Eu não mais me pertencia.

 

Estava sendo roubado

de mim mesmo.

 

E resistia,

mas permitia.

 

Esperneava

e me entregava.

 

Não queria,

mas cedia.

 

De vez em quando

um poeta, ou profeta,

ainda de pé, resistindo,

tentava me segurar

colocando-me de novo em pé, insistindo,

finca teu pé na profundidade

e levante as mãos para o céu”.

 

Nestes momentos

levantava as mãos

e esticava meus braços,

tentando segurar

em apoios invisíveis.

 

Ninguém os via,
nem eu,

mas era o que permanecia.

 

Quando se está para perder a vida,

não há outro apoio,

a não ser a fé,

no que não se vê,

mas que a esperança

diz que existe.

 

Assim provam as biografias,

as experiências e os testemunhos,

de quem sobreviveu e não se perdeu.

 

A história

conta o número

de mártires e santos.

 

A história testemunha

que as promessas se cumprem.

 

Quem no alto se apoia,

mesmo que caia,

não se enterra.

 

A fé e a esperança

alimentam

quem quer eternizar-se.

 

Nestes momentos

em que conseguia permanecer em pé,

recuperava as forças,

o ar pelos pulmões entrava,

e a consciência recobrava.

 

Em alerta

de novo me posicionava.

 

Os ladrões continuam agindo,

no escuro, nas dúvidas,

inofensivos e atraentes.

 

Estes bons e inofensivos

instrumentos de 'progresso'

roubam a parte do tempo

que foi dado

para investir

na eternidade.

 

Restam-me forças.

 

De onde vem?

 

Vem do mundo invisível,

Valores eternos, do além,

do bom Deus, que é Pai,

e que cria para a eternidade.

 

Consigo ainda manter-me de pé.

 

Ainda tenho um pouco de tempo,

que ninguém daqui do tempo me tira,

é a sobra necessária

para investir na eternidade,

na mãe do tempo,

que permanece para sempre.

 

A correnteza e as ventanias

não querem deixar

cultivar este bem,

este valor do espírito,

no tempo.

 

Estão roubando o tempo

de todo mundo,

não só o meu,

tempo necessário,

para construir a eternidade.

 

Se deitar rolo

e entro no rolo

e me acomodo,

e desisto.

 

Só resta uma esperança:

permanecer de pé,

manter-se ocupado

com o tempo

para construir o futuro,

na segurança da eternidade,

valor absoluto, do porto seguro.

 

Se me roubam

todo o tempo útil que tenho,

como vou investir

num bem permanente e eterno?

 

Preciso defender-me.

 

Quem fará isso por mim?

 

Quem me devolverá o tempo que

perdi ou que me roubaram?

 

Sem tempo, por pouco que seja,

como hei de conquistar a eternidade?

 

Com muito tempo, desperdicei,

perdi a noção, sufoquei a consciência.

 

Foi necessário o sonho,

o despertador, do pesadelo,

que me mantinha no tempo,

dormindo.

 

Com pouco tempo,

acordado, me dei conta,

que é no tempo 

que me imortalizo. 

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski                         

Atualizado em 23/06/2022

eneaspb@gmail.com 

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