Será o tempo uma ferramenta?
Será o tempo,
material de construção?
Nesta noite
sonhei que estava sendo assaltado.
Acordei, suado, gritando:
“Por favor, acudam-me,
estão levando meu tempo”.
Um sentimento de
esvaziamento,
como se estivessem sugando minha alma,
minha fortuna imaterial,
experiências, sonhos e ideais,
qualidades acumuladas
ao longo dos anos.
Meio acordado e meio dormindo
assistia-me sendo roubado.
O barulho vinha, batia
e me atordoava.
A correnteza vinha
e me derrubava.
A fúria da tempestade
em forma de avalanche,
uivando sons confusos e anestesiantes,
me assaltavam.
Tentava fincar o pé no chão,
querendo permanecer
na posição vertical e alerta,
mas vinha de novo o vento
tentando me derrubar.
Faltava-me no que segurar-me.
Todos os suportes,
tudo o que havia de seguro,
já estava caído,
rolando na correnteza,
deitado, como sem vida,
entregues, na posição
e condição de desistência.
Deitado, rolava,
rodovida abaixo.
Quanto mais rolava,
menos resistências sobrava.
Esvaziava ideias e ideais,
desejos e esperanças,
Dormindo, nada mais senti.
Despersonalizado, me perdi.
Perdido, roubado,
sem norte e sem sul,
oco por dentro,
sem conteúdos,
quase morri.
Não estavam levando só meu tempo:
eu estava indo junto.
Eu não mais me pertencia.
Estava sendo roubado
de mim mesmo.
E resistia,
mas permitia.
Esperneava
e me entregava.
Não queria,
mas cedia.
De vez em quando
um poeta, ou profeta,
ainda de pé, resistindo,
tentava me segurar
colocando-me de novo em pé, insistindo,
‘finca teu pé na profundidade
e levante as mãos para o céu”.
Nestes momentos
levantava as mãos
e esticava meus braços,
tentando segurar
em apoios invisíveis.
Ninguém os
via,
nem eu,
mas era o
que permanecia.
Quando se está para perder a vida,
não há outro apoio,
a não ser a fé,
no que não se vê,
mas que a esperança
diz que existe.
Assim provam as biografias,
as experiências e os testemunhos,
de quem sobreviveu e não se perdeu.
A história
conta o número
de mártires e santos.
A história testemunha
que as promessas se cumprem.
Quem no alto se apoia,
mesmo que caia,
não se enterra.
A fé e a esperança
alimentam
quem quer eternizar-se.
Nestes momentos
em que conseguia permanecer em pé,
recuperava as forças,
o ar pelos pulmões entrava,
e a consciência recobrava.
Em alerta
de novo me posicionava.
Os ladrões continuam agindo,
no escuro, nas dúvidas,
inofensivos e atraentes.
Estes bons e inofensivos
instrumentos de 'progresso'
roubam a parte do tempo
que foi dado
para investir
na eternidade.
Restam-me forças.
De onde vem?
Vem do mundo invisível,
Valores eternos, do além,
do bom Deus, que é Pai,
e que cria para a eternidade.
Consigo ainda manter-me de pé.
Ainda tenho um pouco de tempo,
que ninguém daqui do tempo me tira,
é a sobra necessária
para investir na eternidade,
na mãe do tempo,
que permanece para sempre.
A correnteza e as ventanias
não querem deixar
cultivar este bem,
este valor do espírito,
no tempo.
Estão roubando o tempo
de todo mundo,
não só o meu,
tempo necessário,
para construir a eternidade.
Se deitar rolo
e entro no rolo
e me acomodo,
e desisto.
Só resta uma esperança:
permanecer de pé,
manter-se ocupado
com o tempo
para construir o futuro,
na segurança da eternidade,
valor absoluto, do porto seguro.
Se me roubam
todo o tempo útil que tenho,
como vou investir
num bem permanente e eterno?
Preciso defender-me.
Quem fará isso por mim?
Quem me devolverá o tempo que
perdi ou que me roubaram?
Sem tempo, por pouco que seja,
como hei de conquistar a eternidade?
Com muito tempo, desperdicei,
perdi a noção, sufoquei a consciência.
Foi necessário o sonho,
o despertador, do pesadelo,
que me mantinha no tempo,
dormindo.
Com pouco tempo,
acordado, me dei conta,
que é no tempo
que me imortalizo.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 23/06/2022

Nenhum comentário:
Postar um comentário