O que acontece
antes que as palavras
sejam pronunciadas.
Quando você passa
em frente à minha casa,
atrás da cortina da janela,
te observo.
Eu sei que você sabe
que estou te olhando,
através da cortina
transparente.
da minha casa.
E você vê um vulto,
por entre o claro-escuro
no interior da sala,
e sabe que estou lá,
sondando, levitando,
a te admirar.
E você passa,
lentamente,
em direção
ao seu trabalho.
E lá dentro,
me atrapalho todo,
curtindo
cada segundo,
o teu furtivo olhar,
feminino andar,
sorriso leve,
expressões
de meiguice.
Dois curtos minutos,
suficientemente longos,
para minha imaginação
arrumar-se,
trocar de pensamentos,
embarcar na minha alma
e acompanhar-te
avenida afora.
E você vai,
abastecida,
envaidecida,
trabalhar comigo,
no mundo
dos teus pensamentos.
(Até aqui, era eu,
o homem,
por trás das cortinas).
(Ela)
O dia passa rápido,
o ponteiro das horas
não importam,
não chamam minha
atenção,
concentrada em você,
atrás das cortinas,
esperando meu
retorno.
O dia já se foi,
e o momento mais esperado
vem vindo,
dizendo,
nas minhas entranhas,
“não ferva,
não sue,
não tropece”.
Faço de conta
que caminho,
bem sem pressa.
Paro.
Olho.
Espero.
Talvez ele se mostre,
na janela,
e a porta se abra,
e ele desça
depressa,
e me peça,
para me levar
para casa.
(Entra em cena,
o narrador).
Eles ainda nem conversavam
e o diálogo entre os dois,
já acontecia,
pela troca de olhares,
pelos pensamentos,
pelos gestos
de ternura.
A postura do corpo,
a transparência das intenções,
atrás da cortina,
dentro da cabeça
e no coração abrasado,
e no suor das mãos,
e do nó na garganta,
ensaiava o que dizer,
o que falar.
Esse silêncio
que antecede o encontro
é curtido,
sentido e vivido,
com tanta intensidade,
que vai transformando
em realidade o que
ainda não é.
Antes do encontro,
há tensão,
ansiedade,
excesso de atenção
e cuidado.
(Ele).
Como seria fácil,
chegar-me
bem próximo a ela
e deixar
que o meu silêncio,
comunicasse tudo o que penso
e sinto por ela.
Tenho medo, de,
com as palavras,
não dizer tudo,
não conseguir chegar
até o meio do seu coração.
Queria que fosse minha alma
a comunicar-se com a alma dela.
Queria que fosse meu coração
a falar com o coração dela.
(Ela).
Como desejo
que ele venha
com o coração aberto.
Ele pensa com a razão.
Eu amo com o coração.
É meu coração que sente
a necessidade de aproximação,
de comunhão, de intimidade,
carinho e
aconchego.
Qual a leitura que fazemos
a partir do texto acima?
Os pensamentos,
as intenções,
as palavras
que mais tocam nossa sensibilidade
são aquelas dirigidas
ao coração,
lidas pelo coração,
não tanto pela nossa
mente.
(Neste momento, você acorda,
e percebe, o que está sentindo).
Percebemos
que somos pessoas românticas,
mais afetivas, coracionais,
do que racionais.
Sentimos que vivemos
mais,
quando vibramos
tocados pelas
palavras
dirigidas ao coração.
É o coração que ama.
É no coração que
somos amados.
Não são os
inteligentes,
os intelectuais,
os que mais sabem demonstrar
amor,
mas sim, as pessoas,
que comunicam gestos
afetivos,
olhares atentos,
carregados de
meiguice
e carinho visual.
Eneas Paulo Budel
Bogucheski
Atualizado em 04/09/2019.

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