quarta-feira, 4 de setembro de 2019

661.- Coração por trás das cortinas



O que acontece

antes que as palavras

sejam pronunciadas.



Quando você passa

em frente à minha casa,

atrás da cortina da janela,

te observo.



Eu sei que você sabe

que estou te olhando,

através da cortina

transparente.

da minha casa.



E você vê um vulto,

por entre o claro-escuro

no interior da sala,

e sabe que estou lá,

sondando, levitando,

a te admirar.



E você passa,

lentamente,

em direção

ao seu trabalho.



E lá dentro,

me atrapalho todo,

curtindo

cada segundo,

o teu furtivo olhar,

feminino andar,

sorriso leve,

expressões

de meiguice.



Dois curtos minutos,

suficientemente longos,

para minha imaginação

arrumar-se,

trocar de pensamentos,

embarcar na minha alma

e acompanhar-te

avenida afora.



E você vai,

abastecida,

envaidecida,

trabalhar comigo,

no mundo

dos teus pensamentos.







(Até aqui, era eu,

o homem,

por trás das cortinas).




 (Ela)

O dia passa rápido,

o ponteiro das horas

não importam,

não chamam minha atenção,

concentrada em você,

atrás das cortinas,

esperando meu retorno.



O dia já se foi,

e o momento mais esperado

vem vindo,

dizendo,

nas minhas entranhas,

“não ferva,

não sue,

não tropece”.



Faço de conta

que caminho,

bem sem pressa.



Paro.

Olho.

Espero.



Talvez ele se mostre,

na janela,

e a porta se abra,

e ele desça

depressa,

e me peça,

para me levar

para casa.



(Entra em cena,

o narrador).



Eles ainda nem conversavam

e o diálogo entre os dois,

já acontecia,

pela troca de olhares,

pelos pensamentos,

pelos gestos

de ternura.



A postura do corpo,

a transparência das intenções,

atrás da cortina,

 dentro da cabeça

e no coração abrasado,

e no suor das mãos,

e do nó na garganta,

ensaiava o que dizer,

o que falar.



Esse silêncio

que antecede o encontro

é curtido,

sentido e vivido,

com tanta intensidade,

que vai transformando

em realidade o que

ainda não é.



Antes do encontro,

há tensão,

ansiedade,

excesso de atenção

e cuidado.



(Ele).

Como seria fácil,

chegar-me

bem próximo a ela

e deixar

que o meu silêncio,

comunicasse tudo o que penso

e sinto por ela.



Tenho medo, de,

com as palavras,

não dizer tudo,

não conseguir chegar 

até o meio do seu coração.



Queria que fosse minha alma

a comunicar-se com a alma dela.


Queria que fosse meu coração

a falar com o coração dela. 



(Ela).

Como desejo

que ele venha

com o coração aberto.


Ele pensa com a razão.


Eu amo com o coração.


É meu coração que sente

a necessidade de aproximação,

de comunhão, de intimidade,

 carinho e aconchego. 


Qual a leitura que fazemos 
a partir do texto acima?



Os pensamentos,

as intenções,

as palavras

que mais tocam nossa sensibilidade

são aquelas dirigidas ao coração,

lidas pelo coração,

não tanto pela nossa mente.



(Neste momento, você acorda, 
e percebe, o que está sentindo).



Percebemos

que somos pessoas românticas,

mais afetivas, coracionais,

do que racionais.  



Sentimos que vivemos mais,

quando vibramos

tocados pelas palavras

dirigidas ao coração.



É o coração que ama.

É no coração que somos amados.



Não são os inteligentes,

os intelectuais,

os que mais sabem demonstrar amor,

mas sim, as pessoas,

que comunicam gestos afetivos,

olhares atentos,

carregados de meiguice

e carinho visual.



Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 04/09/2019.





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