sexta-feira, 13 de setembro de 2019

668.- Palavras. Gastamos as pilhas das palavras





A palavra
já não revela
o encanto,
os mistérios,
os elementos,
a geografia,
os mundos
desconhecidos.

A palavra
não traduz mais
o que é importante,
o que é sagrado.

A palavra
só descreve
o que se enxerga.

Se vai mais além,
não credita
os mistérios
que deseja trazer
à superfície.

Como gostaria
que minhas palavras
revelassem o interior,
a alma das coisas,
ficasse exposta,
e vivificasse
a sua alma,
e ficasse ainda,
um recanto inexplorado,
uma interrogação,
para um futuro diálogo.

Gostaria de escrever palavras
que contivessem chaves
para o desconhecido,
para o mistério
ainda encoberto.

Mas fica chato,
quando se fala,
com ou sem autoridade,
sobre tudo e sobre todos,
tirando o véu
que encobre
a surpresa,
que esconde. 

Tem gente,
eu entre elas,
que prefere o silêncio
diante das pessoas,
e das paisagens.

A palavra,
de tão usada,
perdeu sua força,
já não se sustenta
diante de tanta indiferença.

Tagarelar, escrever,
pode encher o vazio
de letras mortas,
famílias de frases
sem raízes e sem finalidades,
empobrecendo um encontro
que poderia ser grávido
de novidades inimagináveis,
de diálogos amanhecidos.  

Se da leitura
não despertar a curiosidade
e a vontade de mudar,
não germinar ideais,
faltou algo,
no escritor
ou no leitor.

Por isso,
o ato de escrever
torna o escritor,
responsável,
pelo ânimo,
pelo humor,
pela vida de quem lê,
e pela transformação
da sociedade.  

Então, o poeta, o escritor,
assume a função de profeta,
cutucar, alertar, desacomodar,
despertar o senso crítico,
libertar
de qualquer 
tipo de escravidão.

O leitor
vive surfando
entre muitos eventos.
É alguém que não tem tempo para ler,
para estudar, parar, fazer silêncio,
e conhecer a fonte interna,
o núcleo divino,
sua alma.

O leitor de hoje,
não gosta de textos longos,
prefere imagens,
que provocam reações automáticas,
sem nenhuma necessidade de esforço
e interpretação.

Na superfície das ondas
não se encontram
raízes,
nem a fonte
de todo bem.

O que permanece
na superfície dos lagos
dos rios e mares, é lixo, leve,
que boia, por falta de peso,
de conteúdo e substância.

Se possui algum valor,
submerge, afunda,
agrega valor
e se ajeita
na alma
da gente.


Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 13/09/2019

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