Escrever? Para quê, se já há tanta escrita.
E ler? Quem ainda lê?
A escrita já está quase perdendo o encanto.
Tantas palavras dizem tão pouco.
Já estamos quase saturados.
Gostaríamos sim, de ler,
e assimilar centenas de páginas
com um simples olhar
que todo conteúdo absorvesse.
O poeta, com frases curtas,
diz mais, com muito menos.
Tantos assuntos dissecados,
tanta beleza
desnudada pelas palavras
nem sempre profundas e coerentes.
Tragédias, dramas e comedias
procuram despertar nossas emoções
sacudindo o sono no dia claro.
Há que despertar ainda,
e acordar o mito,
pesquisar o mistério,
cavar mais no profundo,
acordar o eu despersonalizado,
sufocado pela poeira fina da rotina.
Há que se buscar a verdade
ainda aprisionada,
lá dentro das palavras.
Ainda há tanto a descobrir
e a dizer.
Cientistas estão trabalhando
pesquisando verdades escondidas.
Os filósofos
estão cavando,
decifrando mensagens
guardadas
dentro de cada ser não lido,
não percebido,
que como amante e amado,
desejam ser explorados,
ansiando a liberação das emoções,
o palpitar da vida.
Escritores, todos,
querendo colaborar
para que o futuro
chegue depressa.
Há tesouros enterrados
quase na superfície .
Homens e mulheres: cavem.
Homens e mulheres: prestem atenção e
sejam mais cientistas.
A pressa,
a indiferença e a apatia
resistem aos esforços necessários
para cavar, olhar demoradamente,
contemplar, perguntar-se pelas origens e finalidades.
Criativos, prestai atenção:
não se recusem
a usar as ferramentas próprias
para cavar.
Poetas, artistas,
deixemos que o sereno caia de novo
na nossa cabeça.
Aceitemos de novo,
andar na chuva e molhar-nos.
Que o olhar se volte para cima
e o pescoço exercite mover-se
para o lado
onde as luzes se mostram
e para o outro lado,
onde as sombras constroem
outras figuras.
Não há razões dignas
para procurar
e revelar as luzes da vida
se não houver as responsabilidade
para aceitar, enfrentar, decodificar
e solucionar
as sombras
que as luzes provocam.
Que os pés descalços
recuperem a sensibilidade
ao sentir a terra seca ,
a grama macia ,
a umidade do barro,
o queimar da areia
e as pedras pontiagudas.
Que os olhos evoluam,
e promovam–se para a contemplação.
Dentro das palavras
há silêncios grávidos,
querendo dar à luz,
às verdades, quase abortadas.
No silêncio,
existem palavras excepcionais,
iguais às pessoas mudas,
que não conseguem contar
os segredos íntimos,
com as palavras.
Dentro das palavras
há filhos e filhas
que querem vir à vida.
Que os ideais da escrita
sejam direcionados
para esta sede
que, mesmo saciada,
continua sempre sedenta.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizada em 15/05/2016.
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