quinta-feira, 13 de agosto de 2015

231.- Mamífero fui, mamífero sou. Então me olhem e me considerem assim.





Uma das imagens mais comoventes 
e completas 
que o ser humano pode ver 
e ao mesmo tempo relembrar, 
é a de uma criança no colo da sua mãe, 
mamando. 

Um contemplando e amando o outro. 

Um dando colo e o outro recebendo colo. 

Enquanto a criança suga os mamilos da mãe 
e olha para ela, a mãe, 
alimentando a criança com o leite, 
e através dos seus olhos, e de todo o seu ser, 
transfere ternura, carinho e amor, 
complementando a alimentação.

Esta atitude é a única necessária 
nos primeiros meses e anos de vida. 

A mãe dá leite e amor. 

A criança recebe leite e amor. 
E meus irmãos e minhas irmãs 
partilhavam comigo deste paraíso.

E, parece, isto basta para o resto da vida. 

Cargas afetivas. 

As baterias sendo carregadas 
para longos anos de vida.

As palavras não são necessárias. 

Nem sabemos falar ainda, 
mas já permutávamos energias poderosas 
nascidas do intercâmbio 
do amor maternal e filial.

Mamífero, como animal, como gente.

Se eu deixar de ser mamífero, 
deixarei de ser humano.

Com o passar dos anos, 
fomos desmamando. 

As baterias foram enfraquecendo-se. 

Crescendo, fomos entrando num caminho 
que nos levou a um processo de fragilidade. 

Os desequilibrios foram aparecendo. 

Doenças instalando-se. 

O ego e o egoísmo, por falta do amor original, 
foram impondo-se como erva daninha 
na horta preparada para dar bons 
e saudáveis frutos.

Entrando para a escola da vida, 
longe do colo materno, 
longe das fontes originais do amor afetivo, 
tivemos que sentar-nos 
nas cadeiras das escolas públicas 
e aprender a ser aluno 
e desenvolver as faculdades intelectuais.

Até parece 
que o que fui aprendendo nas escolas 
foi desensinando-me a ser 
o que tinha assimilado 
nos primeiros meses 
e anos de vida. 

O que eu tinha aprendido era tão bom. 

Crescendo tive que ir provando 
leite azedo, contaminado.

As pessoas mais idosas 
queriam funcionar como professores 
e profissionais do ensino. 

E insistiam que era necessário 
frequentar escolas e universidades.

A vida passou a ser, entre as pessoas, 
relações entre professores e alunos, 
entre pessoas que ensinavam 
e outras que deveriam aprender, 
isso tudo apenas com um foco, 
uma preocupação: 
transformar-nos em ferramentas funcionais.

E então ficaram apenas 
duas categorias de pessoas: 
as que sabiam bastante, 
esperando sempre, reconhecimento e respeito, 
e os outros, menos esclarecidos, 
numa faixa abaixo, sempre agindo 
como aprendizes ou alunos.

Os primeiros, sempre à vontade, 
para falar e ensinar; 
os outros, sempre ouvindo, 
porém, sem oportunidades para falar, 
sugerir ou tomar iniciativas.

Eis o que a aquisição de conhecimento 
também pode produzir: 
distanciamento, 
desigualdades.

E o amor recebido na infância, 
pouco ensinado e testemunhado 
nas escolas superiores, 
ficou lá dentro guardado como poupança 
a ser usada quando todos os outros recursos faltarem.

        Mas, faltando amor, 
        tudo falta, 
        nada completa.

Pois bem, esta introdução 
quer servir apenas 
como um farol de advertência 
sobre o tema que vamos tentar desenvolver.

O foco na educação 
apenas na esfera intelectual 
pode ter ocasionado muitos efeitos 
ou defeitos colaterais que prejudicaram 
o nosso desenvolvimento global, 
essencialmente mamíferos e afetivos, 
antes de intelectuais ou racionais.

Somos sim, unidade. 
O que queremos alertar 
é para o excesso e a carência 
de um ou de outro aspecto 
em nossa personalidade. 

Queremos sim, 
o equilíbrio entre a razão e o afeto.  

 A história, não só da humanidade, 
mas de cada um de nós prova isso. 

Crescendo em estatura física 
fomos perdendo a capacidade afetiva, 
enfraquecendo a bateria 
e a energia das emoções.

Hoje, lendo-nos e percebendo-nos 
no rol das nossas costumeiras 
relações interpessoais, 
como nos comportamos?

Sentimos falta de gestos afetivos?

Sentimos sim, 
rejeição pelo exagero 
e insistência opressiva e desumana 
das atitudes racionais dos comunicadores. 

Não somos apenas intelecto. 

Não se consegue nenhuma eficiência 
e resultados frutuosos 
com palestras ou homilias 
que durem mais de 10 minutos, 
a não ser que envolva a vida 
de quem está escutando.

Quantas palestras ouvimos, 
nas quais recebemos avalanches de palavras 
que não produziram 
nem produzem nenhum efeito?

Gostamos de ouvir pessoas 
contarem histórias 
ou darem testemunhos de vida, 
preferencialmente. 

Por isso gostamos mais de músicas e poesias, 
pois despertam o que de humano existe em nós: 
sentimentos e emoções. 

Não somos robôs, máquinas insensíveis, 
consumidores e letras, frases, livros 
e todos os outros tipos de comunicação formais.

Para envolver emoções, 
o comunicador deve comportar-se mais, 
muito mais como pai, mãe, filho ou irmão. 

Se houver afeto, atenção, dedicação, 
olhar no olho, escutar e pedir opinião, 
e dar a palavra 
para que o ouvinte possa também falar, 
aí sim haverá interação, 
complemento e oportunidade 
de complementação 
e realização humana. 

Eis o abismo que há entre os comunicadores, 
também sacerdotes, professores 
ou instruídos em qualquer ciência: 
não dar a palavra, 
não criar oportunidade 
para que o ouvinte também exerça 
a função de falar, expressar-se. 

Aí sim, haveria o diálogo 
e a troca de experiências, 
visões, filosofia ou teologia de vida.

Podemos ser pessoas 
carregadas de conhecimento e conceitos, 
mas ao mesmo tempo, 
descarregadas de amor. 

Sem amor, tudo fica árido, 
como órfão sem mãe, 
como mendigo sem lar. 

Como é que acontece em família, lá em casa? 
Se você participa de uma equipe, 
de um grupo, como é lá?

Há calor humano nas relações.

Há diálogo.

Todos têm direito a ouvir e a falar.

Não há desnível entre um e outro 
porque todos se conhecem.

Há um necessário fator: aproximação.

Havendo aproximação haverá calor.

Calor é produzido onde há energia.

Energia existe onde há sentimentos 
e emoções vivas.

Onde não há interação 
de sentimentos e emoções, 
as relações permanecem 
no nível da superficialidade.

Aí não há lugar para nada 
a não ser para a apatia e a indiferença.

Não haverá respostas.

Podemos olhar para a pessoa
que aparece na tela, na nossa frente, 
e dirigir nossas palavras apenas para sua cabeça.

Podemos também dirigir a palavra 
para a pessoa que está na nossa frente, 
enxergando a sua fisionomia 
e também o seu coração, 
sua dignidade, sua natureza afetiva.
  
Então sim, estamos tendo 
um autêntico relacionamento humano, 
onde deixamos entrar a empatia 
e acontecerá reciprocidade, 
intercâmbio de energias vitais.

Na teoria, na nossa essência humana 
somos muito mais afetivos do que racionais. 

Na prática, somos mais racionais 
do que afetivos, por isso, 
a carga de sofrimento e maior.

A partir de agora 
nosso relacionamento será diferente. 

Saberemos dosar e atender 
as duas dimensões das pessoas humanas, 
a racional e a afetiva.

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 04/06/2016.
Atualizado em 31/03/2026

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