Uma das
imagens mais comoventes
e completas
que o ser humano pode ver
e ao mesmo tempo
relembrar,
é a de uma criança no colo da sua mãe,
mamando.
Um
contemplando e amando o outro.
Um dando
colo e o outro recebendo colo.
Enquanto
a criança suga os mamilos da mãe
e olha para ela, a mãe,
alimentando a criança
com o leite,
e através dos seus olhos, e de todo o seu ser,
transfere ternura,
carinho e amor,
complementando a alimentação.
Esta
atitude é a única necessária
nos primeiros meses e anos de vida.
A mãe dá
leite e amor.
A criança
recebe leite e amor.
E meus irmãos e minhas irmãs
partilhavam comigo deste
paraíso.
E,
parece, isto basta para o resto da vida.
Cargas
afetivas.
As
baterias sendo carregadas
para longos anos de vida.
As
palavras não são necessárias.
Nem
sabemos falar ainda,
mas já permutávamos energias poderosas
nascidas do
intercâmbio
do amor maternal e filial.
Mamífero,
como animal, como gente.
Se eu
deixar de ser mamífero,
deixarei de ser humano.
Com o
passar dos anos,
fomos desmamando.
As
baterias foram enfraquecendo-se.
Crescendo,
fomos entrando num caminho
que nos levou a um processo de fragilidade.
Os
desequilibrios foram aparecendo.
Doenças
instalando-se.
O ego e o
egoísmo, por falta do amor original,
foram impondo-se como erva daninha
na
horta preparada para dar bons
e saudáveis frutos.
Entrando
para a escola da vida,
longe do colo materno,
longe das fontes originais do
amor afetivo,
tivemos que sentar-nos
nas cadeiras das escolas públicas
e
aprender a ser aluno
e desenvolver as faculdades intelectuais.
Até
parece
que o que fui aprendendo nas escolas
foi desensinando-me a ser
o que
tinha assimilado
nos primeiros meses
e anos de vida.
O que eu
tinha aprendido era tão bom.
Crescendo
tive que ir provando
leite azedo, contaminado.
As
pessoas mais idosas
queriam funcionar como professores
e profissionais do
ensino.
E
insistiam que era necessário
frequentar escolas e universidades.
A vida
passou a ser, entre as pessoas,
relações entre professores e alunos,
entre
pessoas que ensinavam
e outras que deveriam aprender,
isso tudo apenas com um
foco,
uma preocupação:
transformar-nos em ferramentas funcionais.
E então
ficaram apenas
duas categorias de pessoas:
as que sabiam bastante,
esperando
sempre, reconhecimento e respeito,
e os outros, menos esclarecidos,
numa faixa
abaixo, sempre agindo
como aprendizes ou alunos.
Os
primeiros, sempre à vontade,
para falar e ensinar;
os outros, sempre ouvindo,
porém, sem oportunidades para falar,
sugerir ou tomar iniciativas.
Eis o que
a aquisição de conhecimento
também pode produzir:
distanciamento,
desigualdades.
E o amor
recebido na infância,
pouco ensinado e testemunhado
nas escolas superiores,
ficou lá dentro guardado como poupança
a ser usada quando todos os outros
recursos faltarem.
Mas,
faltando amor,
tudo falta,
nada completa.
Pois bem,
esta introdução
quer servir apenas
como um farol de advertência
sobre o tema
que vamos tentar desenvolver.
O foco na
educação
apenas na esfera intelectual
pode ter ocasionado muitos efeitos
ou
defeitos colaterais que prejudicaram
o nosso desenvolvimento global,
essencialmente
mamíferos e afetivos,
antes de intelectuais ou racionais.
Somos
sim, unidade.
O que queremos alertar
é para o excesso e a carência
de um ou de
outro aspecto
em nossa personalidade.
Queremos sim,
o equilíbrio entre a razão
e o afeto.
A
história, não só da humanidade,
mas de cada um de nós prova isso.
Crescendo em
estatura física
fomos perdendo a capacidade afetiva,
enfraquecendo a bateria
e
a energia das emoções.
Hoje,
lendo-nos e percebendo-nos
no rol das nossas costumeiras
relações interpessoais,
como nos comportamos?
Sentimos
falta de gestos afetivos?
Sentimos
sim,
rejeição pelo exagero
e insistência opressiva e desumana
das atitudes
racionais dos comunicadores.
Não somos apenas intelecto.
Não se consegue
nenhuma eficiência
e resultados frutuosos
com palestras ou homilias
que durem
mais de 10 minutos,
a não ser que envolva a vida
de quem está escutando.
Quantas
palestras ouvimos,
nas quais recebemos avalanches de palavras
que não produziram
nem produzem nenhum efeito?
Gostamos
de ouvir pessoas
contarem histórias
ou darem testemunhos de vida,
preferencialmente.
Por isso gostamos mais de músicas e poesias,
pois despertam
o que de humano existe em nós:
sentimentos e emoções.
Não somos robôs, máquinas
insensíveis,
consumidores e letras, frases, livros
e todos os outros tipos de
comunicação formais.
Para
envolver emoções,
o comunicador deve comportar-se mais,
muito mais como pai,
mãe, filho ou irmão.
Se houver
afeto, atenção, dedicação,
olhar no olho, escutar e pedir opinião,
e dar a
palavra
para que o ouvinte possa também falar,
aí sim haverá interação,
complemento e oportunidade
de complementação
e realização humana.
Eis o
abismo que há entre os comunicadores,
também sacerdotes, professores
ou
instruídos em qualquer ciência:
não dar a palavra,
não criar oportunidade
para
que o ouvinte também exerça
a função de falar, expressar-se.
Aí sim,
haveria o diálogo
e a troca de experiências,
visões, filosofia ou teologia de
vida.
Podemos
ser pessoas
carregadas de conhecimento e conceitos,
mas ao mesmo tempo,
descarregadas de amor.
Sem amor,
tudo fica árido,
como órfão sem mãe,
como mendigo sem lar.
Como é
que acontece em família, lá em casa?
Se você participa de uma equipe,
de um
grupo, como é lá?
Há calor
humano nas relações.
Há
diálogo.
Todos têm
direito a ouvir e a falar.
Não há
desnível entre um e outro
porque todos se conhecem.
Há um necessário
fator: aproximação.
Havendo
aproximação haverá calor.
Calor é
produzido onde há energia.
Energia
existe onde há sentimentos
e emoções vivas.
Onde não
há interação
de sentimentos e emoções,
as relações permanecem
no nível da
superficialidade.
Aí não há
lugar para nada
a não ser para a apatia e a indiferença.
Não
haverá respostas.
Podemos
olhar para a pessoa
que aparece na tela, na nossa frente,
e dirigir
nossas palavras apenas para sua cabeça.
Podemos
também dirigir a palavra
para a pessoa que está na nossa frente,
enxergando a
sua fisionomia
e também o seu coração,
sua dignidade, sua natureza afetiva.
Então sim, estamos tendo
um autêntico relacionamento humano,
onde
deixamos entrar a empatia
e acontecerá reciprocidade,
intercâmbio de energias
vitais.
Na
teoria, na nossa essência humana
somos muito mais afetivos do que racionais.
Na
prática, somos mais racionais
do que afetivos, por isso,
a carga de sofrimento
e maior.
A partir
de agora
nosso relacionamento será diferente.
Saberemos dosar e atender
as duas
dimensões das pessoas humanas,
a racional e a afetiva.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 04/06/2016.
Atualizado em 31/03/2026
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