terça-feira, 20 de novembro de 2018

492.- Sonho de infância, inacabado.



Nesta noite tive um sonho.

Sonhei
que estava numa sala de aula,
uns cinquenta alunos,
um professor de matemática,
aquele, dos meus tempos de infância,
hoje velhinho, porém, no sonho,
tanto ele, como nós, os alunos,
com a mesma fisionomia
dos tempos de adolescentes.

Nós, os alunos de ontem,
no sonho, mais sérios,
compenetrados,
responsáveis,
buscadores.

O professor
entregou para cada um,
um livro grosso,
uma folha em branco
e pediu que abríssemos o livro
na página tal,
e fizéssemos um resumo
dos sete capítulos
que ali estavam.

Lá nas páginas que o professor indicou,
começava um livro com muitos capítulos.

Entre os alunos
acontecia um clima de mal-estar,
expressões de não gostar
do que estava sendo pedido.

Os ruídos
foram reduzindo-se.

Os alunos
começaram a ler o texto.

Alguns,
se mexiam,
incomodados,
resistindo.

Outros,
envolveram-se imediatamente
na leitura,
mas percebia-se um clima tenso.

O professor,
como se estivesse em dia de prova,
circulava pela sala,
observando cada um,
com ar de expectativas e,
parecia muito tranquilo.

Eu demorei
para iniciar o envolvimento
com a tarefa.

Minha primeira reação
foi de resistência,
por não compreender,
de cara,
a intenção do professor.

Depois, foi a confusão
em que me sentia envolvido.

O que tinha em mente,
um professor de matemática,
vir nessa aula,
pedir um resumo
de um livro que nada tinha a ver,
com matemática?

Não tinha nexo nenhum.

Mesmo em sonho,
me posicionava crítico,
na defesa.

Lentamente fui me soltando,
relaxando e aceitando
aquilo que se apresentava
naquele momento.

Mesmo não entendendo,
me vi envolvido, lendo,
quieto,
compenetrado.  

Aí surgiu,
no sonho,
um problema.

Identifiquei o grosso livro,
como uma Bíblia.

Acontece que
dentro da Bíblia
existem vários livros.

O livro não tinha título,
e tinha muitos capítulos.

O professor solicitou aos alunos,
fazer um resumo
dos primeiros sete capítulos.

Olhei para os lados,
para frente e para traz.

Alguns alunos
estavam apenas lendo.

Outros, liam e escreviam.

Eu ainda não tinha nem começado,
e o fim da aula se aproximava.

E, no sonho,
que sufoco sentia,
pois não via,
não conseguia perceber
qual o tema,
de que assunto tratava.

O professor continuava ali,
como no início,
sereno, calmo,
circulando,
entre as fileiras,
prestando atenção paternal,
em cada aluno.

Parecia que ele não esperava
resultado nenhum,
mas simplesmente,
observar
a ação
e reação
de cada aluno.

O sinal bateu.
O tempo desta aula acabou.

O professor
simplesmente saiu da sala
em silêncio,
sem fazer nenhuma observação
e sem pedir nada.

Acho que,
na próxima aula,
ele vai querer comentar
o que pensamos,
o que sentimos
e o que fizemos.

Acho que vai pedir.

Acho bom
terminar essa tarefa
em casa.

Então,
aquela aula,
na sala,
no colégio,
tinha apenas começado.

A aula continuaria,
lá fora,
estendendo-se até o próximo encontro,
ou até que o professor volte,
e toque no assunto.  

O sonho acabou.

Acordei.

Comentei com minha esposa,
tudo o que lembrei.

Tentei interpretar.

Sete capítulos,
sete dias levou o mundo
para ser feito.

Qual o conteúdo
dos sete capítulos
do Livro?

Do que se tratava?

Acho que o conteúdo
é a própria vida.

A aula
começou naquele dia
em que comecei a aprender,
a escutar, a obedecer,
a envolver-me.

A aula
não terminou com o sinal,
com o horário,
com aquele tempo
de infância,
de aluno.

As aulas
continuam na vida.

O professor,
circulando,
calmo, sereno,
olhar bondoso,
leve sorriso de incentivo,
como quem olha
sem cobrar resultados,
quem será?

E o tema a ser lido,
estudado,
do que tratava?

Na altura,
na idade em que me encontro,
qual leitura
deveria ter feito,
naquela infância,
nesta velhice?

Ajudem-me a interpretar
e a terminar meu sonho.


Eneas Paulo Budel Bogucheski
Criado em 20/11/2018

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