segunda-feira, 20 de novembro de 2017

439.- Amor calado. Entre tantas aventuras, cultivo ainda, meu primeiro amor.



Já fazia quatro anos

que nosso namoro existia,

sem nenhuma palavra, só com olhares.

 

Ela sabia

da minha admiração por ela,

através dos meus amigos e amigas.

Pudera! só falava nela.

 

Ela era de uma classe social

bem acima da minha.

 

Era minha paixão.

 

E eu sonhava com ela.

 

Estudávamos no mesmo colégio,

em salas diferentes.

 

Nos intervalos de recreio,

ela ia para o pátio do colégio,

e eu ia até a sala dela,

sozinho, tremendo, suando,

colocar bilhetinhos apaixonados

na pasta da minha namorada.

 

Eu queria me aproximar,

conversar com ela, mas não conseguia.

 

Eu era tímido,

retraído e medroso.

 

Eu olhava para ela.

Ela percebia meu olhar.

 

Eu indeciso, parado.

 

Ela esperando minha aproximação.

 

Muitos dias e meses passando.

 

Nós dois cultivando

o namoro do nó na garganta,

da ansiedade juvenil,

da timidez infantil.

 

Apenas olhares,

sem nenhuma palavra.

 

Tão perto

e tão longe.

 

Dores no peito.

 

Suor nas mãos.

 

Ela lá,

com suas amigas,

comentando minha timidez.

 

Eu aqui, amarrado.

Incapacitado.

Sofrendo, calado.

 

Um baile,

uma noite,

uma dança.

 

Tremendo, fui até sua mesa

onde seus pais também estavam.

 

Cumprimentei seus pais

e perguntei a ela:

quer dançar comigo?

 

Ela, levantando-se devagar,

caminhou em minha direção.

 

Peguei-a pela mão

e conduzi-a ao meio do salão.

 

Moacir Franco e sua orquestra

cantava uma valsa,

fácil de dançar.

 

Salão lotado,

Só nós dois existíamos,

e dançávamos, sem nenhuma palavra.

 

Primeiro namorado dela.

Primeira namorada minha.

 

Nossos olhos

se cruzaram longamente.

 

O mundo parou.

Meu coração disparou.

 

Meus pulmões

quase não respiravam.

 

Nossas mãos quentes,

 suadas, unidas, tremiam.

 

Ninguém fala?

 

É preciso?

 

O que está acontecendo

em nossa imaginação?

 

O que está sentindo nosso coração

enquanto nos envolvemos

com essa aventura?

 

As palavras ajudam?

Ou atrapalham?

 

Percebes o valor do silêncio

como algo tão importante

que tem o poder

de eternizar momentos?

 

Para os apaixonados

o silêncio

tem o poder

de mostrar-se

como algo superior

e mais completo

do que o mundão

das palavras.

 

No tempo

do meu primeiro namoro

eu já fazia a experiência

do silêncio,

sem saber,

que mais tarde,

seria decisivo

na escolha

da minha primeira vocação.

 

No meio do baile,

para mim,

só havia eu e ela,

só nós dois dançávamos,

criei coragem e falei:

Vou embora por uns tempos,

preparar-me para ti.

Vou estudar, ser gente,

quero ser tão bem-preparado

para amar-te

como ninguém jamais amou.

 

Mais um tempo longe

e depois estaremos juntos

para sempre.

 

Você pode esperar-me?

 

Com lágrimas nos olhos,

sem dizer uma só palavra,

acenou com sua cabeça,

dizendo, sim.

 

Fui embora no dia seguinte

para um mosteiro, lá longe,

no alto de uma montanha,

incomunicável com o mundo,

comunicável apenas

com meu eu profundo,

a ser formado, explorado, abastecido. 

 

Lá em cima, barulho,

pode provocar avalanches,

é perigoso.

 

O silêncio é necessário,

o melhor dos recursos

para levar avante

qualquer caminho

ou empreendimento seguro. 

 

Durante seis anos,

em silêncio,

assimilei a seiva,

como a árvore

é alimentada pela vida

que corre silenciosamente

em suas raízes,

seu tronco, galhos, ramos,

folhas, flores e frutos.

 

Voltei.

Era sábado.

Três horas da tarde.

Descendo do ônibus na rodoviária

ouvi o badalar dos sinos na Igreja,

badaladas alegres,

anunciando casamento.

 

Perguntei à minha mãe

se ela sabia

quem estava se casando.

 

Ela disse:

é a tua antiga namoradinha.

 

Talvez você pergunte

como aguentei,

como aguento até hoje,

tamanho sofrimento,

ou como vivo ainda,

tão grande amor

amor calado, amor sofrido?

 

É, o amor,

que uma vez nascido

jamais será esquecido.

Continua vivo para sempre.

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 20/11/2017

eneaspb@gmail.com

Publicado no Blog Heipo World

e no FACE em 20/11/2017.

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