Já fazia quatro anos
que nosso namoro existia,
sem nenhuma palavra, só com olhares.
Ela sabia
da minha admiração por ela,
através dos meus amigos e amigas.
Pudera! só falava nela.
Ela era de uma classe social
bem acima da minha.
Era minha paixão.
E eu sonhava com ela.
Estudávamos no mesmo colégio,
em salas diferentes.
Nos intervalos de recreio,
ela ia para o pátio do colégio,
e eu ia até a sala dela,
sozinho, tremendo, suando,
colocar bilhetinhos apaixonados
na pasta da minha namorada.
Eu queria me aproximar,
conversar com ela, mas não conseguia.
Eu era tímido,
retraído e medroso.
Eu olhava para ela.
Ela percebia meu olhar.
Eu indeciso, parado.
Ela esperando minha aproximação.
Muitos dias e meses passando.
Nós dois cultivando
o namoro do nó na garganta,
da ansiedade juvenil,
da timidez infantil.
Apenas olhares,
sem nenhuma palavra.
Tão perto
e tão longe.
Dores no peito.
Suor nas mãos.
Ela lá,
com suas amigas,
comentando minha timidez.
Eu aqui, amarrado.
Incapacitado.
Sofrendo, calado.
Um baile,
uma noite,
uma dança.
Tremendo, fui até sua mesa
onde seus pais também estavam.
Cumprimentei seus pais
e perguntei a ela:
quer dançar comigo?
Ela, levantando-se devagar,
caminhou em minha direção.
Peguei-a pela mão
e conduzi-a ao meio do salão.
Moacir Franco e sua orquestra
cantava uma valsa,
fácil de dançar.
Salão lotado,
Só nós dois existíamos,
e dançávamos, sem nenhuma palavra.
Primeiro namorado dela.
Primeira namorada minha.
Nossos olhos
se cruzaram longamente.
O mundo parou.
Meu coração disparou.
Meus pulmões
quase não respiravam.
Nossas mãos quentes,
suadas, unidas, tremiam.
Ninguém fala?
É preciso?
O que está acontecendo
em nossa imaginação?
O que está sentindo nosso coração
enquanto nos envolvemos
com essa aventura?
As palavras ajudam?
Ou atrapalham?
Percebes o valor do silêncio
como algo tão importante
que tem o poder
de eternizar momentos?
Para os apaixonados
o silêncio
tem o poder
de mostrar-se
como algo superior
e mais completo
do que o mundão
das palavras.
No tempo
do meu primeiro namoro
eu já fazia a experiência
do silêncio,
sem saber,
que mais tarde,
seria decisivo
na escolha
da minha primeira vocação.
No meio do baile,
para mim,
só havia eu e ela,
só nós dois dançávamos,
criei coragem e falei:
Vou embora por uns tempos,
preparar-me para ti.
Vou estudar, ser gente,
quero ser tão bem-preparado
para amar-te
como ninguém jamais amou.
Mais um tempo longe
e depois estaremos juntos
para sempre.
Você pode esperar-me?
Com lágrimas nos olhos,
sem dizer uma só palavra,
acenou com sua cabeça,
dizendo, sim.
Fui embora no dia seguinte
para um mosteiro, lá longe,
no alto de uma montanha,
incomunicável com o mundo,
comunicável apenas
com meu eu profundo,
a ser formado, explorado, abastecido.
Lá em cima, barulho,
pode provocar avalanches,
é perigoso.
O silêncio é necessário,
o melhor dos recursos
para levar avante
qualquer caminho
ou empreendimento seguro.
Durante seis anos,
em silêncio,
assimilei a seiva,
como a árvore
é alimentada pela vida
que corre silenciosamente
em suas raízes,
seu tronco, galhos, ramos,
folhas, flores e frutos.
Voltei.
Era sábado.
Três horas da tarde.
Descendo do ônibus na rodoviária
ouvi o badalar dos sinos na Igreja,
badaladas alegres,
anunciando casamento.
Perguntei à minha mãe
se ela sabia
quem estava se casando.
Ela disse:
é a tua antiga namoradinha.
Talvez você pergunte
como aguentei,
como aguento até hoje,
tamanho sofrimento,
ou como vivo ainda,
tão grande amor
amor calado, amor sofrido?
É, o amor,
que uma vez nascido
jamais será esquecido.
Continua vivo para sempre.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 20/11/2017
Publicado no Blog
Heipo World
e no FACE em
20/11/2017.

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