sexta-feira, 21 de agosto de 2020

770.- Morte. Uma briga inútil: brigar contra a morte.

.


De nenhum assunto

sabemos menos,

do que sobre a morte.

 

De nenhuma certeza

temos tanto medo  

e resistências.

 

De todas as revoltas,

aquela, contra a morte,

achamos a mais justificada.

 

De todas as batalhas,

dessa é a que mais fugimos.

 

Em todo e qualquer assunto

nos envolvemos naturalmente,

porém, quando se trata de ler,

estudar, enfrentar a morte,

de frente,

não há pessoa tão forte,

que aguente.

 

Ansiamos pela totalidade,

e experimentamos constantemente,

divisões.

 

Desejamos a perfeição,

e convivemos com as imperfeições.


Com a morte,

cessarão a fome,

do corpo,

a sede, do corpo,

as sensações

de frio e calor,

do corpo.

 

Com a morte,

o espírito,

recuperará

a unidade da alma,

e retornará

à sua essência eterna.

 

Com a morte do corpo,

cessarão as limitações,

e reiniciar-se-á, agora,

definitivamente,

a vida eterna. 

 

Na vida,

desde o começo,

nos equivocamos:

buscamos ter

e esquecemos

de desenvolver, o ser.

 

Então, antes de morrer,

teremos de aprender

a deixar tudo o que possuímos

para termos uma outra chance

de buscar agora, na eternidade,

ser, apenas ser. Ser unificado.

 

Para alcançarmos a plenitude,

teremos de morrer,

deixar um tipo de vida parcial,

incompleto, imperfeito,

para subirmos, elevarmo-nos

às dimensões superiores.

 

Podemos dividir a vida

em duas partes:

a da ida e a da volta.

 

A de ida, da infância

e juventude,

até à maturidade,

fortalecimento do ego,

energias, movimentos, ação,

atenções para fora,

conquistas e apegos,

até ali pelos setenta anos.

 

A outra, de volta,

agora, introvertida,

atenção mais para dentro,

reflexões, avaliações,

descanso, quietude,

a parte da velhice,

dos desgastes

de entrega,

dos desapegos.

 

Na infância

e na juventude,

na maturidade,

auge das forças,

só o presente interessa,

com toda pressa.

 

Na velhice,

o futuro,

o que será da minha vida,

o que vem depois,

é o que lateja mais forte,

e aponta para o norte,

o problema da morte.

 

Quando as luzes

começam a ficar mais fracas.

Quando as forças

já não nos acompanham,

se apresenta à nossa frente,

a luta contra a morte.

 

Neste momento

em que necessitamos

de maior clareza,

não vemos mais nada

para conquistar,

vem ao nosso encontro,

um forte inimigo,

real e invencível,

e que temos de enfrentar.

 

Durante a primeira parte da vida

demos atenção ao corpo

e descuidamos do espírito.

 

Nessa segunda parte da vida

voltamos nossa atenção

ao espírito

já que com o corpo,

enfraquecido,

esgotado e doentio,

esquecido e debilitado,

não podemos mais contar.

 

Vivendo,

fomos nos preparando

para a vida.

 

E agora, morrendo,

percebemos

que não nos preparamos

para morrer.

 

Se ainda há tempo,

é isso que vou fazer,

de agora em diante.

 

Neste momento,

estou vivo,

e ativo.

 

Se nego a morte,

avanço para o nada,

sem interferência

do azar, destino ou sorte.

 

Se aceito a morte,

no entardecer da vida,

que eu a enfrente e a aceite,

como a última estação

da minha ida.

 

Como é que sei,

que a vida continua,

depois da morte?

 

Não sei.

Não se trata de um saber,

racional.

 

Acho que é agora,

a hora,

em que a fé,

vai dar suporte,

para acreditar nas pistas,

nas dicas verdadeiras,

que foram deixadas aqui,

por alguém que ressuscitou,

prometendo:

Aquele que crer em mim,

ainda que esteja morto,

viverá de novo.

Aquele que acreditar,

eu o ressuscitarei

no último dia”.

 

É, realmente,

do meu último dia,

que estou me ocupando,

nesta segunda parte

da vida.

 

E é a fé

que estou a procurar.

 

Onde acharei forças,

na decadência?

 

Se me preparar

para a morte,

vencê-la-ei.

 

Racionalmente,

humanamente,

no momento da morte,

não se vê mais nada,

só se vê o fim,

a destruição,

o desaparecimento.

 

E o que não se vê?

 

Não existe mais nada

além do que os olhos enxergam?

 

Se me entregar,

para a morte,

antes de enfrentá-la,

encará-la, e aceitá-la,

aí sim, os últimos dias,

serão mais difíceis,

porque não verei saídas,

e não darei asas,

para as esperanças.

 

Se, durante a vida,

senti as beliscadas da alma,

atendi suas sutilezas,

deixei-me flutuar em sua leveza,

certamente senti algo

que me ultrapassava.

 

Certamente,

sentir a falta de algo,

me convencia da fome da alma

pela outra metade

que já estava

lá na origem,

com o Criador,

em algum lugar no Céu.

 

Minha alma é imortal,

habitando um corpo mortal,

e logo, logo, de volta estará,

lá, de onde veio, de novo, livre.

 

O instinto, a fome e a sede que temos,

é de união com tudo e com todos,

principalmente com o criador.

 

Ansiamos pela totalidade.

Desejamos a perfeição.

 

Esta é a prova

de que somos já,

no espírito,

uma única realidade.

 

Só os egoístas,

os apegados ao corpo,

à sua própria vida,

terão dificuldades,

de entregar-se à morte,

quebrando as correntes,

desta dimensão.

 

Antes de morrer,

teremos de criar asas,

deixar de respirar,

subir às alturas infinitas,

fora do tempo e do espaço,

para experimentar

a eternidade.

 

Esta é a porta de saída:

acreditar na falta daquilo

que sentimos que está faltando.

 

Se a experiência

que fazemos

no corpo mortal,

não nos completou,

o que faltou?

 

Se a morte trás desilusão,

a vida eterna, prometida,

acreditada, nos trará

plena realização.


E a grande alegria,

o motivo principal,

que dá o sentido para a vida,

é que existe uma promessa,

da ressurreição dos corpos,

para a vida eterna,

no céu. 

  

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 21/08/2020

eneaspb@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário