De nenhum assunto
sabemos menos,
do que sobre a morte.
De nenhuma certeza
temos tanto medo
e resistências.
De todas as revoltas,
aquela, contra a
morte,
achamos a mais justificada.
De todas as batalhas,
dessa é a que mais
fugimos.
Em todo e qualquer assunto
nos envolvemos
naturalmente,
porém, quando se
trata de ler,
estudar, enfrentar a
morte,
de frente,
não há pessoa tão forte,
que aguente.
Ansiamos pela
totalidade,
e experimentamos constantemente,
divisões.
Desejamos a perfeição,
e convivemos com as imperfeições.
Com
a morte,
cessarão
a fome,
do
corpo,
a
sede, do corpo,
as
sensações
de
frio e calor,
do
corpo.
Com
a morte,
o
espírito,
recuperará
a
unidade da alma,
e
retornará
à
sua essência eterna.
Com
a morte do corpo,
cessarão
as limitações,
e
reiniciar-se-á, agora,
definitivamente,
a
vida eterna.
Na vida,
desde o começo,
nos equivocamos:
buscamos ter
e esquecemos
de desenvolver, o
ser.
Então, antes de morrer,
teremos de aprender
a deixar tudo o que
possuímos
para termos uma outra
chance
de buscar agora, na
eternidade,
ser, apenas ser. Ser
unificado.
Para alcançarmos a
plenitude,
teremos de morrer,
deixar um tipo de
vida parcial,
incompleto,
imperfeito,
para subirmos,
elevarmo-nos
às dimensões
superiores.
Podemos dividir a
vida
em duas partes:
a da ida e a da volta.
A de ida, da infância
e juventude,
até à maturidade,
fortalecimento do ego,
energias, movimentos,
ação,
atenções para fora,
conquistas e apegos,
até ali pelos setenta
anos.
A outra, de volta,
agora, introvertida,
atenção mais para
dentro,
reflexões,
avaliações,
descanso, quietude,
a parte da velhice,
dos desgastes
de entrega,
dos desapegos.
Na infância
e na juventude,
na maturidade,
auge das forças,
só o presente
interessa,
com toda pressa.
Na velhice,
o futuro,
o que será da minha
vida,
o que vem depois,
é o que lateja mais
forte,
e aponta para o
norte,
o problema da morte.
Quando as luzes
começam a ficar mais
fracas.
Quando as forças
já não nos acompanham,
se apresenta à nossa
frente,
a luta contra a
morte.
Neste momento
em que necessitamos
de maior clareza,
não vemos mais nada
para conquistar,
vem ao nosso
encontro,
um forte inimigo,
real e invencível,
e que temos de
enfrentar.
Durante a primeira
parte da vida
demos atenção ao
corpo
e descuidamos do
espírito.
Nessa segunda parte
da vida
voltamos nossa
atenção
ao espírito
já que com o corpo,
enfraquecido,
esgotado e doentio,
esquecido e
debilitado,
não podemos mais
contar.
Vivendo,
fomos nos preparando
para a vida.
E agora, morrendo,
percebemos
que não nos preparamos
para morrer.
Se ainda há tempo,
é isso que vou fazer,
de agora em diante.
Neste momento,
estou vivo,
e ativo.
Se nego a morte,
avanço para o nada,
sem interferência
do azar, destino ou
sorte.
Se aceito a morte,
no entardecer da vida,
que eu a enfrente e a
aceite,
como a última estação
da minha ida.
Como é que sei,
que a vida continua,
depois da morte?
Não sei.
Não se trata de um saber,
racional.
Acho que é agora,
a hora,
em que a fé,
vai dar suporte,
para acreditar nas
pistas,
nas dicas verdadeiras,
que foram deixadas aqui,
por alguém que
ressuscitou,
prometendo:
“Aquele que
crer em mim,
ainda que esteja
morto,
viverá de novo.
Aquele que acreditar,
eu o ressuscitarei
no último dia”.
É, realmente,
do meu último dia,
que estou me
ocupando,
nesta segunda parte
da vida.
E é a fé
que estou a procurar.
Onde acharei forças,
na decadência?
Se me preparar
para a morte,
vencê-la-ei.
Racionalmente,
humanamente,
no momento da morte,
não se vê mais nada,
só se vê o fim,
a destruição,
o desaparecimento.
E o que não se vê?
Não existe mais nada
além do que os olhos
enxergam?
Se me entregar,
para a morte,
antes de enfrentá-la,
encará-la, e aceitá-la,
aí sim, os últimos
dias,
serão mais difíceis,
porque não verei
saídas,
e não darei asas,
para as esperanças.
Se, durante a vida,
senti as beliscadas
da alma,
atendi suas
sutilezas,
deixei-me flutuar em
sua leveza,
certamente senti algo
que me ultrapassava.
Certamente,
sentir a falta de
algo,
me convencia da fome
da alma
pela outra metade
que já estava
lá na origem,
com o Criador,
em algum lugar no
Céu.
Minha alma é imortal,
habitando um corpo
mortal,
e logo, logo, de
volta estará,
lá, de onde veio, de
novo, livre.
O instinto, a fome e
a sede que temos,
é de união com tudo e
com todos,
principalmente com o
criador.
Ansiamos pela
totalidade.
Desejamos a
perfeição.
Esta é a prova
de que somos já,
no espírito,
uma única realidade.
Só os egoístas,
os apegados ao corpo,
à sua própria vida,
terão dificuldades,
de entregar-se à
morte,
quebrando as
correntes,
desta dimensão.
Antes de morrer,
teremos de criar
asas,
deixar de respirar,
subir às alturas
infinitas,
fora do tempo e do
espaço,
para experimentar
a eternidade.
Esta é a porta de
saída:
acreditar na falta
daquilo
que sentimos que está
faltando.
Se a experiência
que fazemos
no corpo mortal,
não nos completou,
o que faltou?
Se a morte trás
desilusão,
a vida eterna,
prometida,
acreditada, nos trará
plena realização.
E a grande alegria,
o motivo principal,
que dá o sentido para
a vida,
é que existe uma
promessa,
da ressurreição dos
corpos,
para a vida eterna,
no céu.
Eneas
Paulo Budel Bogucheski
Atualizado
em 21/08/2020

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