Deus
um dia
construiu uma pirâmide.
Na base da pirâmide, Deus colocou o universo dos minerais, ou seja, a
matéria inorgânica. Os cientistas dizem que foi há milhões de anos. Foi o mundo
das estrelas, essa poeira de astros que veio povoar o espaço.
Por que uma
pirâmide?
Temos que começar
por algo.
Pensamos na
pirâmide.
Iniciamos a resposta colocando algumas leis referentes à unidade:
1)
O valor intrínseco de um ser depende da unidade interna daquele ser.
A pessoa humana vale
mais do que o animal porque sua unidade interna é superior.
2)
Quanto mais uno é o ser na sua interioridade, tanto menos múltiplo, menos
disperso, mais concentrado, mais poderoso.
O reino mineral é
assim: um ser no qual a unidade interior se verifica no menor grau
possível.
Os filósofos dizem que a matéria é o limite inferior
do devir, e por isso não é possível um ser inferior à matéria.
O mineral possui
o menor grau de ser, porque é dotado do menor grau de unidade interior.
A unidade do mineral
é apenas molecular, unidade molecular. Por isso os minerais
são mais múltiplos: quanto menor a unidade interior, maior a sua multiplicidade
exterior. Se você quebrar uma pedra, ela deixará de ser uma pedra. Passará a
ser duas pedras. Uma lasca de mármore, separada do bloco, não deixa de ser
mármore.
3) Quanto menor a unidade
interior, tanto menor a exigência de união com os demais seres.
O grau de afirmação de si no ser (= unidade interior) condiciona o grau de união com os outros (= unidade exterior).
Os minerais
possuem o menor grau de unidade interior (= unidade molecular). Por
conseguinte, são dotados de poucas exigências de união com os outros.
Entretanto, também os minerais, no plano coletivo, apresentam certa unidade, a
unidade cósmica. A combinação de um elemento mineral com outro se faz de
acordo com certas leis.
(Você poderá
pesquisar mais, se estiver interessado em aprofundar este tema).
O reino mineral é a base da construção da pirâmide.
Aqui não há vida.
Vamos agora para a
segunda parte da pirâmide, para a plataforma ou o degrau da pirâmide onde se
inicia a vida. Vida dos vegetais.
Após decorrido
alguns milhões de anos, numa dessas grandes estrelas ao redor da qual passaram
a girar outros grãos de poeira cósmica, e, num desses grãos, chamado terra, o
Deus Criador fez aparecer um novo grau de unidade de ser: a vida.
Na pirâmide abriu-se um espaço para a Vida Vegetal.
Algumas observações:
-
O ser vivo é superior ao mineral porque é dotado de unidade superior. A unidade
no vegetal não é apenas molecular, mas biológica. As partes não
subsistem separadas do todo. O ramo de árvore, separado do tronco, morre, deixa
de ser. Uma lasca de mármore, ao invés, separada do bloco, não deixa de ser
mármore.
-
Os vegetais representam um crescimento ontológico dos seres, mas em
contrapartida, uma diminuição em sua multiplicidade. Os animais, mais
ainda.
-
Os minerais são uma matéria inorgânica.
-
Os vegetais já são matéria orgânica.
-
Com o crescimento da unidade interior (= maior afirmação de si), cresceu
também a exigência de unidade exterior (= união com os outros).
-
As plantas não vivem em qualquer clima e, de modo geral, para crescer precisam
e exigem a proximidade das plantas da mesma família.
-
Se formos analisar bem, percebemos que o vegetal se alimenta do mineral.
-
Todos os vegetais se alimentam diretamente dos minerais.
-
Os minerais por sua vez, ao alimentar o reino superior, no caso, o reino do
vegetal, morrem ou são assimilados pelo reino superior.
-
Dizemos que com a sua morte são sublimados, não destruídos.
-
Passam a viver num ser superior, (superior é aquele que possui maior grau de
unidade) numa forma de vida diferente.
Estamos lentamente construindo uma pirâmide. Os elementos são diferentes, mas integram-se, unem-se e formam cada vez mais, seres mais perfeitos, porque, mais unos, mais poderosos.
Na mesma pirâmide abriu-se um espaço para o Reino Animal.
Mais alguns milhões de anos se passaram e apareceu
a existência de um novo tipo de ser: o ser animal.
Nesta pirâmide, o
animal alimenta-se do reino anterior, reino vegetal, cujo processo é o
mesmo: o reino anterior é comido, é assimilado pelo reino superior e nele
passa a viver de forma diferente, dignificado, melhorado, aperfeiçoado,
escondido, quase invisível, mas promovido. Não deixou de existir. Torna-se a
fonte da energia e a sustentação da vida do Reino Superior.
A unidade
biológica cresceu, tornou-se mais una, e apareceu, nasceu ou surgiu a unidade
psíquica.
Unidade interna superior ao reino vegetal.
Um ramo de árvore
não tem existência se for decepado do tronco, mas ao ser separado, o resto da
árvore nada sofre, pelo contrário, até se fortalece mais. (Pesquise como é benéfica
a poda e a mensagem da poda).
Não é assim que
acontece com a extirpação de uma perna de um animal, por exemplo. Se ferido, o
animal, todo o seu corpo sente, todos os demais membros do animal acodem para
auxiliar o membro ferido.
Então o animal
possui maiores exigências de união interna e maiores exigências de unidade
externa. Observe a natureza e perceba que não existe animal solitário.
A esta altura você percebe que a pirâmide está se
fechando em termos de unidade.
De larga, na base,
caminha para um estreitamento na sua construção.
O aparecimento sucessivo de seres insiste em
apontar para o alto, fechando sempre mais a pirâmide.
Perceba, de novo,
que há uma lei profunda de renúncia e sublimação que preside a construção da
pirâmide.
Os vegetais
nutrem-se de minerais. Alimentando os vegetais, os minerais renunciam-se a si
mesmos, mas com isso, adquirem existência superior, assumem a unidade psíquica.
A pirâmide sobe.
Chegamos num
patamar especial. Especial porque é nesta parte da pirâmide que nós estamos. A
pirâmide do Homem.
Fecharemos, será que conseguiremos fechar a
pirâmide?
Para fechá-la é
necessário o surgimento de um ser que realmente seja capaz de recapitular
plenamente todo o universo material. Tem que ter todos os reinos
anteriores assimilados, incorporados em si. Não tem que deixar nada para
trás. Tem que salvar-se e salvar tudo o que vem junto com este ser.
Esse ser capaz de
recapitular todo o universo material, passados mais alguns milhares ou milhões
de anos apareceu. Chama-se homem, pessoa humana.
Animal ainda, na
definição primeira. Aperfeiçoado para animal racional depois de algumas
centenas de anos, e agora, pela aquisição do maior grau de unidade possível,
está prestes a fechar uma pirâmide visível e abrir outra, invisível.
O homem representa a presença da unidade pessoal.
A personalidade
humana fundamenta-se na capacidade de conhecer espiritualmente, e por
conseguinte, pelo conhecimento, recapitula todo o universo.
Pelo conhecimento conhece o passado ou a história,
trazendo luz para melhor viver o presente.
E o presente
vivido com a bagagem da sabedoria, consegue abarcar, de certa forma, o futuro.
Conhecimento é a
capacidade de possuir plenamente o outro em si
mesmo.
Onde o homem se
distingue do animal? Pelo conhecimento e pelo grau de consciência. A sua
exigência de unidade é consciente. Quanto mais uno, mais forte, mais
poderoso, mais pleno, mais completo. Quanto mais dividido, mais enfraquecido.
Quanto menos homem, mais animal é.
Portanto, mais conhecimento, mais unidade, mais
unidade, mais exigência de união com os outros.
Não é curioso, é
científico: o princípio fundamental da Igreja é procurar formar e consolidar
fraternidades. É mostrar para o mundo que, somos irmãos. Que o ideal é o serviço,
ajuda mútua, gratuita, serviço, dom de si, esquecimento de si, morte do
egoísmo, vida altruísta.
O homem (a pessoa humana) representa o termo de uma
pirâmide.
Ele fecha uma
pirâmide que termina no homem, mas ao mesmo tempo abre outra pirâmide porque
existe já no homem uma característica espiritual, própria do Deus Pai, Criador.
Começando pela Filosofia chegamos até a Teologia.
A pirâmide
começada com um coração de pedras alcançou o céu, aperfeiçoando os seres até
alcançar a fisionomia do Cristo modelo de Homem Perfeito.
O homem fecham a
pirâmide da matéria visível e abrem a porta de uma outra pirâmide.
Os filósofos chegam somente até aqui, no mundo do
visível.
Mas existem
elementos suficientemente fortes para fundamentar a existência da continuação
desta pirâmide, em outra dimensão.
Neste final da
construção da pirâmide, dá impressão que não tem mais como continuar, dado a
visão de que a pirâmide, de larga na base, ficou fina lá em cima. Por isso
demos o nome de pirâmide.
Mas a pirâmide é
tão alta que adentrou nas nuvens e já não enxergamos mais o final dela. Será
que continua? Mas não vemos mais nada, somente nuvens!
A dimensão da fé. Uma nova ferramenta deverá
ser usada.
Já temos idade
suficiente dentro do universo para dizer que a filosofia de vida das pessoas
sábias, dos santos e dos grandes homens pode se apresentar como ciência
histórica, pelo testemunho comprovado, que a fé vivida prova coisas que não
vemos.
A história
demonstra tal afirmação. Por isso afirmamos, junto com outros filósofos e com
os teólogos, que já existe uma ciência vivida pelo próprio homem, dentro desta
dimensão.
É de valores eternos que vivemos e justificamos
nosso evoluir na terra.
Insistimos dizendo
que o homem inicia outra pirâmide pela capacidade de conhecer e amar. Amar é
conjugar o verbo ser e viver, como irmãos, em todos os modos, tempos e lugares.
O homem que
alcança esta nova plataforma vive com os outros homens um tipo de unidade que
se chama fraternidade.
Fraternidade ou
comunidade é a unidade coletiva daqueles que se conhecem se assumem plenamente
como irmãos, e se amam, se deixam assumir plenamente. É o início da pirâmide do
Espírito.
Entramos na nuvem. Entramos pela porta da pirâmide
do espírito.
Não é uma nova pirâmide. É a continuação da mesma
pirâmide, num nível mais perfeito, imaterial.
Como explicar? Vamos tentar.
Deus não quis que
o homem fosse apenas um ser pessoal dotado de vida espiritual que se exprime na
vida da fraternidade pela capacidade de amar e ser amado.
Deus quis que o homem fosse o seu próprio Filho
Jesus Cristo.
Enxertou a natureza divina na natureza humana
quando seu filho Jesus Cristo nasceu na Terra.
Deus Pai olha o homem através do seu próprio Filho.
Tudo para Deus tem razão de ser e existir se
estiver unido ou enxertado no seu próprio Filho.
Por isso vemos nos Evangelhos:
Eu sou o caminho, a verdade, a vida.
Ninguém vai ao Pai a não ser através de Mim.
Eu sou o Pão Vivo.
Eu e o Pai somos um.
Assim, passamos a viver a vida que Deus vive, como
ramo da videira que, enxertado, passa a viver a vida que vem da cepa, da raiz,
sem, contudo, deixar de ser ramo.
Cada um de nós foi enxertado na filiação divina, na
filiação amorosa do Filho do Deus Pai.
Ficamos então sendo Filhos do Deus.
Deus nos adotou por uma adoção não apenas jurídica,
mas ontológica.
Trata-se de adoção
porque não nascemos do Deus por geração natural e sim por um enxerto na
filiação do Filho do Deus Pai.
Essa adoção é
ontológica porque se trata de uma realidade interior, que me faz ser
realmente Filho do Deus Pai, herdeiro das promessas feitas pelo Jesus Cristo.
Diz a Escritura Sagrada:
“A todos os
que o receberam, deu o poder de se tornarem Filhos do Deus Pai, àqueles que
crêem em seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne,
nem da vontade do homem, mas da vontade do Deus Pai”. João 1, 12-13.
Com isso a nova pirâmide começou a subir: a comunidade/fraternidade
humana, no Adão passou a se constituir família.
A unidade da
família é superior. Na família é o sangue que une; na comunidade/fraternidade é
o ato de conhecer e amar.
No Jesus Cristo esta pirâmide fechou. A comunidade
humana, feita família com o Adão, no Jesus Cristo passou a formar um único ser,
um corpo.
E agora? Acabou? – Não, ainda não. A pirâmide vai
mais longe.
A primeira pirâmide começou na matéria, no visível,
e terminou no espírito, invisível.
A segunda pirâmide, se é que existe uma segunda,
começou no ser humano e terminou no divino.
É da mesma pirâmide que estamos falando, desde o
começo.
Uma única pirâmide.
O que é material foi planejado em função do que é
espiritual.
Então o homem é o sacerdote do universo.
O que é humano foi planejado em função do que é
divino.
Portanto, Jesus Cristo é o Sacerdote da humanidade.
Existe algo ainda em andamento. O Jesus Cristo realizou a consagração do
Universo pela sua Encarnação e pela sua obra/trabalho/projeto de redenção ou
arrumação do universo, recapitulando toda a matéria, todo o cosmo, toda
realidade, assumindo tudo no seu próprio Corpo.
Cristo partiu e enviou o seu Espírito Santo, a alma
desse novo corpo.
Isto que estamos
dizendo não é mistério. É tudo ciência.
Se você não
entende é porque não está familiarizado com esta ciência.
É a mesma coisa
que dizer que você não entende nada, de física quântica ou metafísica, mas
estas ciências existem, mesmo que não compreenda nada ou quase nada.
Não querendo abusar, mas temos que ir adiante, mesmo que o texto esteja se alongando. É necessário ir até o fim, se tiver fim.
Vamos agora entrar num patamar mais acima ainda, da pirâmide.
Para ficar fácil de assimilar, vamos nos referir à terceira pirâmide.
Um dia terá fim a realidade terrena limitada em que
vivemos.
E se concluirá a
suprema unidade na terceira pirâmide: a unidade da trindade.
Jesus Cristo é a
Segunda pessoa da Trindade divina. Mas agora não está só: forma um só
corpo com todos os que o recebem. Por isso o destino do Jesus Cristo no seio da
Trindade será o destino de cada um de nós que recebemos o Dom de sermos Filhos
do Deus Pai.
Conclusão: A humanidade inteira é a Esposa que o Deus Pai quis preparar para dar a seu Filho em casamento.
Houve um dia em que essa humanidade se prostituiu.
Mas o Deus Pai, em sua infinita misericórdia, a
resgatou da sua prostituição.
Agora a está ainda lavando, para torná-la santa,
pura, bela, imaculada, Esposa Maravilhosa.
Dessa prostituição nasceu o mal. Do mal nasceu a
dor. A dor termina na morte e daí a frustração do homem.
Mas o Senhor Deus
teve pena do homem e se propôs a resgatar a ovelha perdida com grande
misericórdia. E no encontro com o Jesus Cristo, o mal que há no homem se
transforma em enfeite, adorno do artista que usou das sombras para fazer
contrastes com a luz.
E a dor se
transforma em redenção, o meio pelo qual o homem toma posse da Redenção, e
assim deixa os caminhos tortuosos e se aproxima do caminho reto da abertura
para o Jesus Cristo. E a morte, no encontro com o Cristo Redentor,
transformou-se no último capítulo dessa mesma redenção, limite extremo entre o
cativeiro e a liberdade, ruptura das últimas cadeias que nos levam à verdadeira
vida.
*Quase todo o conteúdo deste texto, foi extraído do Livro do Frei Eurico de
Mello, Treinamento de Iniciação Franciscana. TIF. 1972 – Editora IPAS – Ponta
Grossa. Frei Eurico de Mello ou
Belmiro Pedro de Mello 22/08/1936-28/10/1990. Foi filósofo e teólogo
Franciscano-Capuchinho. Nasceu em Taió, SC e morreu em Tijucas do Sul, Pr. Foi
o criador do Instituto de Previdência Fraterna, instituição Mantenedora da
Comunidade Religiosa para Leigos SEARA.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
eneaspb@gmail.com
Atualizado em 29/08/2014
Leia outros textos:
http://heiposworld.blogspot.com.br
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