sexta-feira, 4 de setembro de 2015

234.- Graças divinas.Tenho sobrevivido mais com recursos externos do que com recursos próprios.



Como sempre fui um cara pobre,
nunca tive condições 
de comprar a vida.

Recebi-a, de presente,
sem esperar e sem pedir.

Não precisei entrar em fila 
ou fazer requerimento 
ou preencher protocolos.

Quando me percebi, 
eis a vida em minhas mãos, 
a minha vida.

       Sim, tenho vivido e sobrevivido 
com uma grande parte de recursos externos, 
talvez a maior parte, não sei bem, 
por isso estou avaliando agora.

       Veja bem, para dormir, 
deito e durmo, e não sei como, 
mas durmo, quase morrendo, 
pois que raramente uso o tempo do sono 
para sonhar.

Para acordar, não sei como, acordo.

Para pensar, não sei como, mas penso.

Para andar, não sei como, mas ando.

       Para olhar, abro os olhos 
e vejo o mundo todo, 
até onde a vista alcança.

E olha que alcança longe: 
vejo o sol, vejo estrelas, 
vejo lá longe, o horizonte, 
e quando lá chego, 
vejo outros horizontes.

Esta vida que vivo e que recebi de presente, 
vem carregada de acessórios, 
tornando-me um ser veiculável completo.

Nada que esteja ao meu alcance 
me falta.

Se falta, com o que sou e tenho, 
busco, encontro e incorporo 
em meu ser veiculável.

E vejo outros seres vivos iguais a mim. 
Alguns usam um combustível muito poderoso, 
forte, robusto, potente, 
capaz de alcançar altos ideais.

Quando vou para as oficinas, 
revisões periódicas de manutenção, 
percebo outros lá também.

E por mais estranho que pareça, 
muitos, não o bastante, 
estão lá com a lataria riscada, 
enrugada, como veículos fora de linha, 
mas com motor tinindo, 
sem resmungos e lamentos, 
acelerando montanhas acima.

Vivem emprestando 
e gastando, à vontade, 
recursos externos.

São espertos, 
gastando antecipadamente 
uma herança vinda de fora.    

Outros, veículos mais novos, 
barulhentos, batendo biela, tossindo, 
fumando fumaça, poluindo o meu ambiente, 
e o teu ambiente.

Estes, percebemos, 
teimam em administrar seus veículos 
com recursos próprios 
e empobrecem a si mesmos, 
o meu e teu ambiente.

Não, não fomos nós 
que criamos e nos demos direções 
para nossa vida.

Parece que a nossa rota já está traçada, 
de antemão, bem antes de recebermos 
o motor da vida.

Às vezes, resistimos, 
como adolescentes, 
procurando autonomia, 
teimamos em ir por atalhos 
e logo, logo nos perdemos.

Voltamos de novo 
para as estradas oficiais 
e reequilibramos nossos pneus, 
reabastecemos com gasolina aditivada 
e vamos em frente, sem tensões, 
em paz e harmonia conjugadas 
com a natureza das quatro estações.

E o nosso carro veicular, 
nossa vida, veio de fábrica 
para resistir e curtir 
as quatros estações da vida: 
primavera, verão, outono e inverno.

       Com nosso carrão, nossa vida, 
andamos pelos vales, descidas, 
subidas, montanhas e abismos, 
vista ampla, clara e promissora. 
Asfalto, cascalho e terra firme.

De repente nevoeiro, escuridão, 
chuva e rajadas de vento. 
Areia movediça.

       Felizmente nosso veículo original 
vem equipado com trações nas quatro rodas 
e motor e marchas com capacidade 
de superação de todo e qualquer obstáculo. 
E vem com guincho e cabo de aço de última geração.

       Não há nada que tenha forças 
para segurar-nos antes de chegarmos 
ao local de embarque definitivo.

       Vejam de quantos recursos dispomos.

       E o que pensar do GPS. 
Acho ... acho não, tenho plena certeza 
que também já saímos da fábrica com o GPS.

       O GPS é a nossa consciência 
e a certeza de que somos filhos do Dono da Fábrica.

       Ele nos deu este carrão 
que estou dirigindo para dar uma voltinha 
no jardim da casa Dele e está esperando nossa volta.  

       E não é que Ele nos deu 
o carrão da nossa vida com o tanque cheio!

       E olha que rodamos, rodamos ...

Parando de novo
    para pensar e olhar,
        poucas energias
             existem dentro de mim
                   que sejam efetivamente
                         só minhas.

O alimento que absorvo
pela minha boca
produz o combustível vital,
energias para rodar
apenas uns 100 anos.

E quais fontes de energias,
produzidas pela fé, pela esperança,
poderão render-me combustível para sempre?
 
É por isso que me dá nas telhas, 
     a impressão, que temos vivido há muito tempo, 
          mais com recursos externos, divinos,  
               do que com recursos próprios, humanos. 

 
Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 05/09/2015
Atualizado em 31/03/2026

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