Como sempre fui um cara pobre,
nunca tive condições
de comprar a vida.
Recebi-a,
de presente,
sem
esperar e sem pedir.
Não precisei entrar em fila
ou fazer
requerimento
ou preencher protocolos.
Quando me percebi,
eis a vida em minhas mãos,
a minha vida.
Sim, tenho vivido e sobrevivido
com uma grande parte de recursos externos,
talvez a maior parte, não sei bem,
por isso estou avaliando agora.
Veja bem, para dormir,
deito e durmo, e não sei como,
mas durmo, quase
morrendo,
pois que raramente uso o tempo do sono
para sonhar.
Para acordar, não sei como, acordo.
Para pensar, não sei como, mas penso.
Para andar, não sei como, mas ando.
Para olhar, abro os olhos
e vejo o mundo todo,
até onde a vista alcança.
E olha que alcança longe:
vejo o sol, vejo
estrelas,
vejo lá longe, o horizonte,
e quando lá chego,
vejo outros
horizontes.
Esta vida que vivo e que recebi de presente,
vem carregada de acessórios,
tornando-me um ser veiculável completo.
Nada que esteja ao meu alcance
me falta.
Se falta, com o que sou e tenho,
busco,
encontro e incorporo
em meu ser veiculável.
E vejo outros seres vivos iguais a mim.
Alguns usam um combustível muito
poderoso,
forte, robusto, potente,
capaz de alcançar altos ideais.
Quando vou para as oficinas,
revisões periódicas de manutenção,
percebo outros
lá também.
E por mais estranho que pareça,
muitos, não o
bastante,
estão lá com a lataria riscada,
enrugada, como veículos fora de
linha,
mas com motor tinindo,
sem resmungos e lamentos,
acelerando montanhas
acima.
Vivem emprestando
e gastando, à vontade,
recursos externos.
São espertos,
gastando antecipadamente
uma
herança vinda de fora.
Outros, veículos mais novos,
barulhentos, batendo biela, tossindo,
fumando
fumaça, poluindo o meu ambiente,
e o teu ambiente.
Estes, percebemos,
teimam em administrar seus
veículos
com recursos próprios
e empobrecem a si mesmos,
o meu e teu ambiente.
Não, não fomos nós
que criamos e nos demos direções
para nossa vida.
Parece que a nossa rota já está traçada,
de antemão, bem antes de recebermos
o
motor da vida.
Às vezes, resistimos,
como adolescentes,
procurando autonomia,
teimamos em ir por atalhos
e logo, logo nos perdemos.
Voltamos de novo
para as estradas oficiais
e
reequilibramos nossos pneus,
reabastecemos com gasolina aditivada
e vamos em
frente, sem tensões,
em paz e harmonia conjugadas
com a natureza das quatro
estações.
E o nosso carro veicular,
nossa vida, veio de
fábrica
para resistir e curtir
as quatros estações da vida:
primavera, verão,
outono e inverno.
Com nosso carrão, nossa vida,
andamos pelos vales, descidas,
subidas, montanhas
e abismos,
vista ampla, clara e promissora.
Asfalto, cascalho e terra firme.
De repente nevoeiro, escuridão,
chuva e
rajadas de vento.
Areia movediça.
Felizmente nosso veículo original
vem equipado com trações nas quatro rodas
e
motor e marchas com capacidade
de superação de todo e qualquer obstáculo.
E vem
com guincho e cabo de aço de última geração.
Não há nada que tenha forças
para segurar-nos antes de chegarmos
ao local de
embarque definitivo.
Vejam de quantos recursos dispomos.
E o que pensar do GPS.
Acho ... acho não, tenho plena certeza
que também já
saímos da fábrica com o GPS.
O GPS é a nossa consciência
e a certeza de que somos filhos do Dono da Fábrica.
Ele nos deu este carrão
que estou dirigindo para dar uma voltinha
no jardim da
casa Dele e está esperando nossa volta.
E não é que Ele nos deu
o carrão da nossa vida com o tanque cheio!
E olha que rodamos, rodamos ...
Parando de novo
para pensar e olhar,
poucas energias
existem dentro de mim
que sejam efetivamente
só minhas.
O alimento que absorvo
pela minha boca
produz o combustível vital,
energias para rodar
apenas uns 100 anos.
E quais fontes de energias,
produzidas pela fé, pela esperança,
poderão render-me combustível para sempre?
É por isso que me dá nas telhas,
a impressão, que temos vivido há muito tempo,
mais com recursos externos, divinos,
do que com recursos próprios, humanos.
Eneas
Paulo Budel Bogucheski
Atualizado
em 05/09/2015
Atualizado em 31/03/2026
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