Na minha infância e juventude
já era empreendedor,
investia meu tempo livre
como jogador de bola
ou como pescador.
Para os pescadores,
apenas dois tipos de
pessoas
habitam no mundo:
os que gostam de
pescar
e os que não gostam.
Os que gostam
se reúnem
como se fossem
irmãos,
de uma imensa e mesma
família,
desde sempre,
mesmo que não sejam
vizinhos,
amigos nem parentes.
Se é pescador
já existe todos os requisitos
das amizades
profundas.
Os interesses,
ideais e filosofia de
vida
são idênticos.
A pescaria começa no
seco, dentro de casa,
ainda dentro do ambiente de trabalho,
no momento em que
estamos combinando,
como vamos, quem vai,
onde nos encontramos,
quem busca quem,
o que levamos.
O clima infantil,
contar piadas,
gargalhar,
beber caipirinha no
mesmo copo,
jogar truco, esquecer
o mundo,
faz dos pescadores, a
classe especial
que preferem viver
como os antigos homens
das cavernas, nas
matas, nas barracas
nas barrancas dos
rios.
Aqui, na pescaria,
não há etiquetas
nem máscaras.
Nem precisamos.
Fazemos questão
de revelar
a raça que somos.
A partilha dos
materiais
e a igual divisão dos
peixes
fazem de nós pessoas
especiais,
desapegadas, apenas
com a ambição
de que todos se
sintam bem.
Pescadores são
amigos, iguais,
sem hierarquias.
Tudo é comum a todos.
Todos ajudam e todos
são ajudados.
É a maneira ideal de
viver
onde tudo é
partilhado
por igual.
É uma classe
privilegiada,
exemplar,
despertando a virtude
da boa inveja
aos que não pertencem
ainda
a esta nobre família.
A vida para os
pescadores,
nas pescarias,
é o exercício natural
da disponibilidade
para os serviços de
armar barraca,
juntar lenha, buscar
água,
lavar louça, fazer
café,
armar e revistar catoeiros,
trocar iscas,
recolher, limpar
e fritar os peixes.
Pescador
não reclama de nada:
suporta roncos
e sons estranhos
a noite inteira,
com toda naturalidade
e paciência,
como tudo que faz
parte
da natureza.
Se pescador não é
sábio
pelo menos é sadio,
prefere viver junto à
natureza,
respirar ar puro,
sentir e passar frio
ou calor
no meio da mata, ao
lado dos rios,
lagoas, represas, tanques
ou dentro de barcos,
nas baias ou em alto
mar.
Se vamos para a
natureza,
só obedecemos uma
norma:
não levar nada da
cidade
para o mato, para o mar.
Se vamos para o mato,
para a natureza,
procuramos nos adapta
ao que lá existe, a quietude e a paz.
Não levamos som,
nenhum som.
Queremos a companhia
do silêncio
e seus efeitos.
Que tem lá,
na pescaria,
que nos atrai?
Tem a natureza, nossa
origem.
Tem a paz que tanto necessitamos.
Tem o silêncio que
nos equilibra.
Tem a companhia dos
insetos
que exercita nossa
paciência.
Tem a água, que sacia
nossa sede,
tem a pureza da água,
a transparência da
água
a nos transmitir
mensagens
de como devemos ser.
Que tem lá,
na pescaria,
que nos chama?
Tem os pássaros
que
voam livres e cantam para nós,
os visitantes do seu habitat.
Tem os animais a
serem respeitados
e com os quais aprendemos
a viver na natureza como um lugar,
um presente, repleto de presentes
que nos fazem bem.
No ambiente onde
acontece a pescaria
nem sempre os peixes
aparecem.
Pescadores que somos,
aceitamos com fineza,
que há um dia para o
pescador
e o outro para o
peixe,
para manter o
equilíbrio
da sábia mãe
natureza.
O que tem lá,
na pescaria,
que nos apaixona?
Não sei não,
se é lá
que minha alma descansa
quando já não mais
aguenta a agitação,
o estresse da vida na cidade.
Acho que minha alma
vai antes,
bem antes de mim,
para lá onde vamos,
quando somente penso
no bem que me faz,
a santa pescaria.
O que tem lá
na pescaria,
que aqui na cidade
não tem?
De noite, se o sono
vem, deito e não durmo,
ouvindo tudo o que o
silêncio,
há dias, tem a me
contar.
Que prazer ouvir-te,
silêncio amigo.
Se o sono não vem,
envolvo-me num
cobertor,
saio de fininho da
barraca
e me sento de costas
para a fogueira,
onde também o fogo
está quase a dormir,
levanto meus olhos
para o céu,
e vejo o que na
cidade não consigo,
o tapete de estrelas
lá no céu.
Viu só, porque
gostamos de pescar?
Pescaria quase sempre
é desculpa:
Vamos atrás, sim,
não só dos peixes,
mas de nós mesmos,
da nossa essência,
da paz, da harmonia,
da simplicidade e da
alegria.
Vamos pescar
para encontrar e
conviver
como gente, como
irmãos,
como admirador da
natureza,
buscador e admirador
da paz,
enamorados da noite
estrelada.
Vamos em busca de nós
mesmos,
da harmonia de nós
mesmos
com o universo.
Não lembro, em
nenhuma pescaria
ter ficado
estressado,
triste ou chateado.
Lembro ter ficado com
fome,
no desconforto,
encharcado,
porém, adaptado.
Se peixe vem, peixe
tem para comer.
Se peixe não vem, que
fique lá,
pois que pescaria
aconteceu,
e todos dizemos:
valeu!
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 06/10/2016
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