quinta-feira, 6 de outubro de 2016

353.- Pescaria é desculpa, o que quero é boa companhia e sossego.


Na minha infância e juventude

já era empreendedor,

investia meu tempo livre

como jogador de bola

ou como pescador.


Para os pescadores,
apenas dois tipos de pessoas
habitam no mundo:
os que gostam de pescar
e os que não gostam.



Os que gostam
se reúnem
como se fossem irmãos,
de uma imensa e mesma família,
desde sempre,
mesmo que não sejam vizinhos,
amigos nem parentes.



Se é pescador
já existe todos os requisitos
das amizades profundas.




Os interesses,
ideais e filosofia de vida
são idênticos.



A pescaria começa no seco, dentro de casa, 
ainda dentro do ambiente de trabalho,
no momento em que estamos combinando,
como vamos, quem vai,
onde nos encontramos,
quem busca quem,
o que levamos.



O clima infantil,
contar piadas, gargalhar,
beber caipirinha no mesmo copo,
jogar truco, esquecer o mundo,
faz dos pescadores, a classe especial
que preferem viver como os antigos homens
das cavernas, nas matas, nas barracas
nas barrancas dos rios.




Aqui, na pescaria,
não há etiquetas
nem máscaras.

Nem precisamos.

Fazemos questão
de revelar
a raça que somos.



A partilha dos materiais
e a igual divisão dos peixes
fazem de nós pessoas especiais,
desapegadas, apenas com a ambição
de que todos se sintam bem.



Pescadores são amigos, iguais,
sem hierarquias.

Tudo é comum a todos.

Todos ajudam e todos são ajudados.

É a maneira ideal de viver
onde tudo é partilhado
por igual.



É uma classe privilegiada,
exemplar,
despertando a virtude
da boa inveja
aos que não pertencem ainda
a esta nobre família.


A vida para os pescadores,
nas pescarias,
é o exercício natural da disponibilidade
para os serviços de armar barraca,
juntar lenha, buscar água,
lavar louça, fazer café,
armar e revistar catoeiros,
trocar iscas,
recolher, limpar
e fritar os peixes.



Pescador
não reclama de nada:
suporta roncos
e sons estranhos
a noite inteira,
com toda naturalidade
e paciência,
como tudo que faz parte
da natureza.


Se pescador não é sábio
pelo menos é sadio,
prefere viver junto à natureza,
respirar ar puro,
sentir e passar frio ou calor
no meio da mata, ao lado dos rios,
lagoas, represas, tanques
ou dentro de barcos,
nas baias ou em alto mar.



Se vamos para a natureza,
só obedecemos uma norma:
não levar nada da cidade
para o mato, para o mar. 



Se vamos para o mato,
para a natureza, procuramos nos adapta
ao que lá existe, a quietude e a paz. 



Não levamos som, nenhum som.
Queremos a companhia do silêncio
e seus efeitos.  



Que tem lá,
na pescaria,
que nos atrai?



Tem a natureza, nossa origem.

Tem a paz que tanto necessitamos.

Tem o silêncio que nos equilibra.

Tem a companhia dos insetos
que exercita nossa paciência.

Tem a água, que sacia nossa sede,
tem a pureza da água,
a transparência da água
a nos transmitir mensagens
de como devemos ser.



Que tem lá,
na pescaria,
que nos chama?



Tem os pássaros 
que voam livres e cantam para nós, 
os visitantes do seu habitat.

Tem os animais a serem respeitados 
e com os quais aprendemos 
a viver na natureza como um lugar, 
um presente, repleto de presentes 
que nos fazem bem.



No ambiente onde acontece a pescaria
nem sempre os peixes aparecem.

Pescadores que somos,
aceitamos com fineza,
que há um dia para o pescador
e o outro para o peixe,
para manter o equilíbrio
da sábia mãe natureza.



O que tem lá,
na pescaria,
que nos apaixona?



Não sei não, 
se é lá que minha alma descansa
quando já não mais aguenta a agitação,
 o estresse da vida na cidade.



Acho que minha alma vai antes,
bem antes de mim,
para lá onde vamos,
quando somente penso
no bem que me faz,
a santa pescaria.  




O que tem lá
na pescaria,
que aqui na cidade não tem?



De noite, se o sono vem, deito e não durmo,
ouvindo tudo o que o silêncio,
há dias, tem a me contar.

Que prazer ouvir-te,
silêncio amigo.



Se o sono não vem,
envolvo-me num cobertor,
saio de fininho da barraca
e me sento de costas para a fogueira,
onde também o fogo está quase a dormir,

levanto meus olhos para o céu,
e vejo o que na cidade não consigo,
o tapete de estrelas lá no céu.



Viu só, porque gostamos de pescar?

Pescaria quase sempre é desculpa:



Vamos atrás, sim,
não só dos peixes,
mas de nós mesmos,

da nossa essência,
da paz, da harmonia,
da simplicidade e da alegria.



Vamos pescar
para encontrar e conviver
como gente, como irmãos,
como admirador da natureza,
buscador e admirador da paz,
enamorados da noite estrelada.

Vamos em busca de nós mesmos,
da harmonia de nós mesmos
com o universo. 



Não lembro, em nenhuma pescaria
ter ficado estressado,
triste ou chateado.


Lembro ter ficado com fome,
no desconforto, encharcado,
porém, adaptado.


Se peixe vem, peixe tem para comer.
Se peixe não vem, que fique lá,
pois que pescaria aconteceu,
e todos dizemos: valeu!


Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 06/10/2016




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