Uma
folha amarela, com escrita fraca, letra preta, quase invisível.
Não,
não vai para o lixo sem antes ser transcrita para quem sempre está procurando
algo.
Quem
procura, acha.
Quem
acha, alegra-se porque vem de encontro a algo que estamos sempre procurando:
sabedoria.
A
sabedoria existe desde sempre.
Mas
ela é algo carregada de tempo, idade e experiências.
A
sabedoria vem e se apresenta com maturidade, serenidade, suavidade.
Não
se impõe, não violenta.
Ela
é, apenas, bem vinda, com toda a sua carga de ensinamentos.
A
fonte? – “Rabi, onde Moras?” Centro de espiritualidade Inaciana de Itaici.
Edições Loyola. Páginas 181-183.
O conteúdo da parábola sempre traz mais do que
letras. Traz mensagens diretas e a sabedoria escondida nas entre linhas.
A parábola da cadeira.
Era uma vez uma cadeira,
velha, vacilante, uma das mais arrebentadas que já se viu.
Sua pintura estava toda enrugada, gasta, e a cor desbotada. Era
uma mistura de tudo quanto é cor. Não tinha uma cor definida.
Verdadeiramente,
um desastre.
Não
podia mais sustentar o próprio peso, crescente de ano para ano. Raspões,
sujeiras, manchas, pés frágeis, pedações remendados e quebrados.
Não
chegava mesmo a se lembrar da sua beleza primitiva.
Uma
camada de pintura após outra era toda a sua vida passada.
Parecia
tão mal que alguns sugeriam até cobri-la para não provocar maus pensamentos nos
outros.
Vez
por outra, uma nova retocada na pintura a melhorava.
Depois,
novamente, rachava e descascava de alto a baixo, tornando-a pior que antes. Era
preto em cima de vermelho, azul, verde, branco, amarelo, camada sobre camada.
Pobre
cadeira. Como recordar o que era, sob tantas camadas sucessivas?
Um belo
dia, entretanto, ela se viu entre as mãos de um marceneiro.
Não
sabia mesmo como havia chegado lá.
Havia
sido triste chegar ali, na pressa, aos empurrões e sacudidas no fundo de um
caminhão.
Mas
já estava ali.
Não
queria, porém, prestar atenção em nada. Afinal, já havia passado por tantos
lugares mais ou menos idênticos.
O marceneiro
tomou a cadeira e lavou-a cuidadosamente.
Havia
algo no jeito do marceneiro que intrigou a cadeira.
Ai
deixou passar e se resignou a receber uma nova camada de pintura.
Quer
surpresa, porém!
A
nova pintura não veio.
Ao
contrário, o marceneiro se pôs a raspar a pintura.
E
como doía.
A
cura, entretanto, estava nestas mãos que machucavam.
Pacientemente,
o marceneiro ia, de camada em camada, cantarolando para ela:
“Cadeira,
o marceneiro te conhece, tua real beleza ele a conhece, ele sabe que tu não és
irreparável, senão pela graça do meu cuidado amável”.
O
canto acalmou um pouco a cadeira. Ela não sabia, porém, o que pensar.
O
que estava acontecendo?
Por
que parecia mais pesada?
“Eu não aguento mais”, gritava ela. “Pare com isso. Cubra-me, deixe-me só”.
Dia
após dia, contudo, o marceneiro perseverava.
O
marceneiro, por vezes dava alguns dias de repouso para a cadeira, ocupado às
vezes, com outras cadeiras, em piores condições.
Que
alivio sentia, ainda que estivesse terrivelmente consciente de que faltava
muito em seu caminho.
Dolorosamente,
o marceneiro foi atravessando pouco a pouco o preto, o vermelho, o azul, o
verde, o branco.
A cadeira percebeu, então, uma mudança no modo
de agir dele.
Chegando
à última camada de tinta, sempre cheio de cuidados, tornou-se mais cuidadoso
ainda para evitar qualquer machucadura.
Na
última camada, no amarelo, quando este começou a sair, a cadeira, num primeiro
suspiro vital, teve uma visão clara, nítida, do que se encontrava debaixo.
Não
mais pintura, mas madeira, madeira maravilhosa!
Começou
assim, a compreender a ação do marceneiro e porque seu tratamento havia mudado
na derradeira camada: para não atingir a bela madeira que se revelava agora.
A
cadeira estava apressada no desejo de se ver melhor.
Pouco
a pouco, a madeira apareceu plenamente.
Que
sensação de prazer e glória!
Que
revelação!
Ela
agora cantava e dançava alegremente.
Com
este sentimento, abandonou o marceneiro para viver livre de qualquer tipo de
pintura, livre, para ser ela mesma.
Enfim,
não tinha mais necessidade dele.
A
vida parecia como uma realidade nova, excitante, pela primeira vez depois de
muito tempo.
Aos
poucos, entretanto, os sinais de glória se dissiparam.
Às vezes
passava pelo marceneiro e via outras cadeiras, mesas, móveis que se reconstituíam
por suas mãos para reencontrar seu esplendor natural.
Pareciam,
mesmo, refletir a beleza do próprio marceneiro.
Entretanto,
era estranho constatar que não se havia apercebido antes de como sua madeira
era rústica e sem brilho.
Humildemente,
voltou ao marceneiro e passou muito tempo com ele.
Em
lugar de ocupar-se de milhares de coisas, permanecia ao seu lado.
Num
certo dia o marceneiro lhe disse: “penso
que você está preparada”.
Tomou-a
novamente, e a esfregou com uma lixa bem fininha.
E como
foi bom desta vez.
Jamais
sentiu massagem tão agradável.
Em seguida,
o marceneiro ungiu-a com uma estranha substância que realçou o calor da madeira
e sua beleza, acrescentando-lhe um toque delicado e acetinado.
Ela
jamais se viu tão bela.
Por
orgulho, a cadeira chamou alguém que passava para sentar-se, mas quase se
quebrou toda, esquecida da fragilidade das suas pernas.
Percebeu
trincas em sua madeira.
Precisava
de reparos, de novo.
Amedrontada,
correu para o marceneiro que a fez esperar um momento, para fazê-la tomar
consciência da sua própria fraqueza.
Depois,
colou-a com solidez, comunicando-lhe um pouco de força.
Alguns
dias mais tarde, olhando-se, a cadeira percebeu alguns riscos, um pouco de
poeira aqui, um pouco de manchado ali.
Foi
tomada de pânico.
Um
velho medo, vindo à superfície: a lembrança de ser de novo, recoberta de
tintas.
Agitou-se,
angustiou-se.
Depois,
parando, olhando longamente o marceneiro, conseguiu ver com clareza, que tinha
necessidade dele não somente uma vez, duas vezes, dezenas de vezes, mas para
sempre.
Havia
sido restaurada por ele e era através dele que poderia continuar crescendo em
beleza, mantendo sua robustez e utilidade.
Precisava
ser desempoeirada por ele, limpa, lixada, para guardar sua originalidade.
Sim,
já não era possível pensar em levar uma vida independente.
Já
não precisava mais temer as camadas de pintura.
A sabedoria se expõe, comunica, alerta, chama, convida, acena, atrai e provoca.
A sabedoria usa de múltiplos meios para comunicar-se e se fazer entender.
Por isso, é sabedoria.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
eneaspg@gmail.com - 41 98854 5166
atualizado em 16/05/2016

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