quarta-feira, 18 de maio de 2016

291.- Sabedoria em parábolas.



Olá, bom dia. Após longo tempo revisando e atualizando as publicações mais antigas do Blog Heipo’s World, fazendo uma faxina e varrendo o chão do meu pequeno escritório, achei esta pérola preciosa.

Uma folha amarela, com escrita fraca, letra preta, quase invisível.

Não, não vai para o lixo sem antes ser transcrita para quem sempre está procurando algo.

Quem procura, acha.

Quem acha, alegra-se porque vem de encontro a algo que estamos sempre procurando: sabedoria.

A sabedoria existe desde sempre.

Mas ela é algo carregada de tempo, idade e experiências.

A sabedoria vem e se apresenta com maturidade, serenidade, suavidade.

Não se impõe, não violenta.

Ela é, apenas, bem vinda, com toda a sua carga de ensinamentos.

A fonte? – “Rabi, onde Moras?” Centro de espiritualidade Inaciana de Itaici. Edições Loyola. Páginas 181-183.

 O conteúdo da parábola sempre traz mais do que letras. Traz mensagens diretas e a sabedoria escondida nas entre linhas.

       A parábola da cadeira.

      Era uma vez uma cadeira, velha, vacilante, uma das mais arrebentadas que já se viu.

       Sua pintura estava toda enrugada, gasta, e a cor desbotada. Era uma mistura de tudo quanto é cor. Não tinha uma cor definida.

Verdadeiramente, um desastre.

Não podia mais sustentar o próprio peso, crescente de ano para ano. Raspões, sujeiras, manchas, pés frágeis, pedações remendados e quebrados.

Não chegava mesmo a se lembrar da sua beleza primitiva.

Uma camada de pintura após outra era toda a sua vida passada.

Parecia tão mal que alguns sugeriam até cobri-la para não provocar maus pensamentos nos outros.

Vez por outra, uma nova retocada na pintura a melhorava.

Depois, novamente, rachava e descascava de alto a baixo, tornando-a pior que antes. Era preto em cima de vermelho, azul, verde, branco, amarelo, camada sobre camada.

Pobre cadeira. Como recordar o que era, sob tantas camadas sucessivas?

Um belo dia, entretanto, ela se viu entre as mãos de um marceneiro.

Não sabia mesmo como havia chegado lá.

Havia sido triste chegar ali, na pressa, aos empurrões e sacudidas no fundo de um caminhão.

Mas já estava ali.

Não queria, porém, prestar atenção em nada. Afinal, já havia passado por tantos lugares mais ou menos idênticos.

O marceneiro tomou a cadeira e lavou-a cuidadosamente.

Havia algo no jeito do marceneiro que intrigou a cadeira.

Ai deixou passar e se resignou a receber uma nova camada de pintura.

Quer surpresa, porém!

A nova pintura não veio.

Ao contrário, o marceneiro se pôs a raspar a pintura.

E como doía.

A cura, entretanto, estava nestas mãos que machucavam.

Pacientemente, o marceneiro ia, de camada em camada, cantarolando para ela:

 Cadeira, o marceneiro te conhece, tua real beleza ele a conhece, ele sabe que tu não és irreparável, senão pela graça do meu cuidado amável”.

O canto acalmou um pouco a cadeira. Ela não sabia, porém, o que pensar.

O que estava acontecendo?

Por que parecia mais pesada?

Eu não aguento mais”, gritava ela. “Pare com isso. Cubra-me, deixe-me só”.

Dia após dia, contudo, o marceneiro perseverava.

O marceneiro, por vezes dava alguns dias de repouso para a cadeira, ocupado às vezes, com outras cadeiras, em piores condições.  

Que alivio sentia, ainda que estivesse terrivelmente consciente de que faltava muito em seu caminho.

Dolorosamente, o marceneiro foi atravessando pouco a pouco o preto, o vermelho, o azul, o verde, o branco.

 A cadeira percebeu, então, uma mudança no modo de agir dele.

Chegando à última camada de tinta, sempre cheio de cuidados, tornou-se mais cuidadoso ainda para evitar qualquer machucadura.

Na última camada, no amarelo, quando este começou a sair, a cadeira, num primeiro suspiro vital, teve uma visão clara, nítida, do que se encontrava debaixo.

Não mais pintura, mas madeira, madeira maravilhosa!

Começou assim, a compreender a ação do marceneiro e porque seu tratamento havia mudado na derradeira camada: para não atingir a bela madeira que se revelava agora.

A cadeira estava apressada no desejo de se ver melhor.

Pouco a pouco, a madeira apareceu plenamente.

Que sensação de prazer e glória!

Que revelação!

Ela agora cantava e dançava alegremente.

Com este sentimento, abandonou o marceneiro para viver livre de qualquer tipo de pintura, livre, para ser ela mesma.

Enfim, não tinha mais necessidade dele.

A vida parecia como uma realidade nova, excitante, pela primeira vez depois de muito tempo.

Aos poucos, entretanto, os sinais de glória se dissiparam.

Às vezes passava pelo marceneiro e via outras cadeiras, mesas, móveis que se reconstituíam por suas mãos para reencontrar seu esplendor natural.

Pareciam, mesmo, refletir a beleza do próprio marceneiro.

Entretanto, era estranho constatar que não se havia apercebido antes de como sua madeira era rústica e sem brilho.

Humildemente, voltou ao marceneiro e passou muito tempo com ele.

Em lugar de ocupar-se de milhares de coisas, permanecia ao seu lado.

Num certo dia o marceneiro lhe disse: “penso que você está preparada”.

Tomou-a novamente, e a esfregou com uma lixa bem fininha.

E como foi bom desta vez.

Jamais sentiu massagem tão agradável.

Em seguida, o marceneiro ungiu-a com uma estranha substância que realçou o calor da madeira e sua beleza, acrescentando-lhe um toque delicado e acetinado.

Ela jamais se viu tão bela.

Por orgulho, a cadeira chamou alguém que passava para sentar-se, mas quase se quebrou toda, esquecida da fragilidade das suas pernas.

Percebeu trincas em sua madeira.

Precisava de reparos, de novo.

Amedrontada, correu para o marceneiro que a fez esperar um momento, para fazê-la tomar consciência da sua própria fraqueza.

Depois, colou-a com solidez, comunicando-lhe um pouco de força.

Alguns dias mais tarde, olhando-se, a cadeira percebeu alguns riscos, um pouco de poeira aqui, um pouco de manchado ali.

Foi tomada de pânico.

Um velho medo, vindo à superfície: a lembrança de ser de novo, recoberta de tintas.

Agitou-se, angustiou-se.

Depois, parando, olhando longamente o marceneiro, conseguiu ver com clareza, que tinha necessidade dele não somente uma vez, duas vezes, dezenas de vezes, mas para sempre.

Havia sido restaurada por ele e era através dele que poderia continuar crescendo em beleza, mantendo sua robustez e utilidade.

Precisava ser desempoeirada por ele, limpa, lixada, para guardar sua originalidade.

Sim, já não era possível pensar em levar uma vida independente.

Já não precisava mais temer as camadas de pintura.

 ....

A sabedoria se expõe, comunica, alerta, chama, convida, acena, atrai e provoca.

A sabedoria usa de múltiplos meios para comunicar-se e se fazer entender.

Por isso, é sabedoria.

Eneas Paulo Budel Bogucheski

eneaspg@gmail.com - 41 98854 5166 

atualizado em 16/05/2016


 
 
 

 

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