terça-feira, 26 de setembro de 2017

432.- Nudez. Eu nu e a vida nua.



Antigamente ouvíamos a frase:

“Toda nudez será castigada”

 

Hoje queremos valorizar

a nudez tirando as vestes

que a deformaram,

dizendo “A nudez é gratificada”.

 

Chegando bem perto, quase tocando,

deixando cair levemente o olhar

sobre a nudez, desejamos mostrar

toda a originalidade, a beleza 

da criatura nua.

 

Não é o cabelo, 

não é a roupa

ou a maquiagem,

é a nudez que revela

o gênero humano.

 

A roupa,

as vestes escondem,

enganam e até mentem

quando olhamos para uma pessoa

e formulamos conceitos

ou preconceitos sobre ela.

 

A cultura,

a aprendizagem,

o que ouvimos dizer,

as fofocas,

as notícias veiculadas

nos meios de comunicação

desenham as pessoas

bem coloridas,

com as melhores roupas,

maquiagem caprichada,

penteados remunerados.

 

E as pessoas revelam,

através da aparência,

muito mais

do que não são

do que o que são.

 

E nos acostumamos

a olhar para as pessoas,

já com conceitos completos,

porém, com o olhar

e as impressões incompletas.

 

A pessoa nua, se expõe,

mas não tem nada

para esconder.

 

A pessoa bem-vestida,

quer aparecer por fora,

para esconder tudo

o que não é, por dentro.

 

A pessoa vestida

se acha, se enfeita,

para esconder o que é.

 

Nessa atitude

revela-se fraca,

desconhecida de si mesma,

insegura, medrosa, sem apoio,

sem domínio de si,

sem maturidade personal.

 

O que é que está

por detrás

das nossas roupagens?

 

- Está

a vontade inconsciente

de fornecer elementos

para que os outros nos interpretem

dentro de determinada classe social,

dentro de determinado padrão de vida, determinado conceito

de integridade e perfeição.

 

- Está

o ego imaturo,

analfabeto, iludido,

fragilizado,

demonstrando

que necessita de máscaras

para esconder

a ignorância sobre si mesmo.

 

Mas o que é que queremos esconder?

 

Esconder de quem,

se somos todos iguais,

se tivemos a mesma origem

e teremos o mesmo fim?

 

O que é que nos leva

a aceitar, de nós mesmos,

tal atitude de infantilidade,

de incoerência, de mentira

que queremos aplicar

em nós mesmos

e nos outros?

 

Ninguém,

ou quase ninguém

consegue revelar

a autêntica verdade

sobre si mesmo.

 

Ninguém revela

o negativo

da nossa própria fotografia

para os outros.

 

Aquilo que aparece

em preto e branco,

deixamos escondido

por sobre nossas máscaras,

fingimentos e incoerências.

 

E, por mais que nos esforcemos,

nosso ego, nosso orgulho,

não deixa que nos revelemos

quem de fato somos.

 

Não revelamos

porque desconhecemos

a nós mesmos.

 

Não revelamos

porque não sabemos

como fazer para revelar.

 

Se alguém te pergunta:

‘quem és tu’,

você não saberá responder,

pois não te conheces

nos níveis mais profundos.

 

Quando você não consegue

levar um diálogo sério com alguém,

para regiões

de maior profundidade,

assim como revelar as origens,

causas e finalidades,

revelamos o nível superficial

no qual vivemos.

 

Essa é a grande verdade.

Somos todos superficiais.

Vivemos todos

no nível da superficialidade.

 

Damos maior valor às roupas

do que às pessoas,

que estão escondidas,

atrás das vestes.

 

Estamos quase sempre atentos

só ao que vemos e escutamos.

 

Estamos quase sempre

vivendo através de reações.

 

Reagimos facilmente

aos convites externos.

 

E temos dificuldades

para atender

aos reclamos internos.

 

Vivemos

a partir do que acontece

fora da zona de profundidade

onde nosso verdadeiro eu,

o eu profundo reside.

 

Para deixar o nosso eu profundo,

o verdadeiro eu manifestar-se,

se faz necessário fazer silêncio

dentro de si mesmo.

 

Conhecer-se.

 

Conviver-se em paz.

 

Permitindo-se afrontamentos,

onde estamos errados,

onde podemos

e devemos começar

os acertos.

 

Quem lê muito,

está sempre com a cabeça

cheia de pensamentos dos outros.

 

Quem lê muito

tem necessidade de refletir muito,

repensar, avaliar e comparar o que lê,

com a verdade sobre si mesmo,

que se estampa em seu consciente,

enquanto lê.

 

Não se deve ler

como quem bebe ou ingere líquidos.

 

Deve-se ler

como quem come alimentos duros,

que exigem mordidas e mastigadas.

 

Acontece frequentemente

um sentimento de saturação

de tudo o que vejo e escuto,

forçando-me a fechar os livros,

tampar os ouvidos e fechar os olhos

para o mundo exterior.

 

Sinto-me como alguém

que está perdendo

o contato com a vida,

comigo mesmo.

 

Preciso parar,

tirar as roupas emprestadas

pela mídia, pelos escritores, faladores,

produtores de máscaras.

 

Tenho de pisar nos freios, parar,

descer, sair do mundo, do palco.

 

E então

abro de novo meus olhos

e ponho-me a caminhar,

simplesmente, observando a vida,

a natureza, os animais, pássaros e pessoas.

 

De novo,

eu, nu e as demais pessoas,

também nuas.  

 

Deixo os livros mortos

e entranho-me

dentro do livro dos vivos,

e aí sim me sinto vibrante,

participando do livro vivo,

e da vida nua.

 

Tire a roupa da cultura do mundo

e mostraremos em nossa nudez,

a essência humana e divina.


 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 26/09/2017

eneaspb@gmail.com

Publicado no Blog Heipo World

e no FACE em 26/09/2017

Atualizado em 07/02/2024.


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