terça-feira, 28 de janeiro de 2020

706.- Dia e noite. O dia quase não tem importância quando se anseia pela noite



O dia quase não tem importância
quando se anseia pela noite.
A tardinha anuncia
que o sol vai indo
para o outro lado
do mundo.
A noitinha vem dizendo,
que a escuridão
vem vindo.
O dia
demora só um tempinho
e a noite
não é para sempre.
Vivi um dia inteiro
sentindo a luz nos meus olhos,
mostrando onde as coisas estavam.
Com clareza as percebia
com elas me entretinha,
trabalhava,
entrelaçava,
e dançava.
Tudo, tudo é familiar
no caminhar de dia.
É de dia,
que me encho de energia,
para de noite,
irradiar,
e atravessar
a escuridão.
De noite,
os olhos não ajudam tanto,
e poucas coisas ficam visíveis.
Só se enxerga o que brilha.
E o que de dia via,
na noite escura,
na memória brilham,
se apresentam à minha solidão,
e fazem companhia.
Na noite,
alimento a esperança
de amanhecer,
e me entregar
ao novo dia.
Meus olhos
trabalham de dia,
atiram-se para fora,
abraçam e acolhem tudo e todos,
e fecham-se para o repouso, à noite.
De noite,
ver o quê,
se meus olhos
não enxergam?
O que a noite tem,
se não tem o sol,
que ilumina.
Se o dia é importante,
onde está a importância
da noite?
O dia é importante
quando se anseia pela noite.
A noite esconde
o que de dia eu via,
e o dia mantém dormindo
o que só a noite revela.
O que a noite tem,
que atrai,
e faz bem?
O que, de dia,
eu devia ter visto
para que na noite
fizesse companhia?
Não será o mistério,
do próprio dia,
escondido,
que só a noite revela
aos olhos fechados?
O dia não revela,
não esgota,
não entrega tudo,
o que carrega.
Não haverá nas noites,
valores especiais,
iguais aos do dia?
E o que a noite
tem a mais
que não consegue
entregar-se toda?
Muito de ti, ó noite,
permanece escondida,
em lugares não ativados
durante o dia.
A noite acaba
e nem o cansaço se foi,
nem os sonhos terminaram.
O que a sabedoria
quer ensinar,
sobre a noite?
De dia,
movimento,
agitação.
De noite,
quietude,
contemplação.
O que é que de dia
tenho de colher
para que a noite
seja clara,
como o dia?
De dia
valorizo a luz,
a claridade,
o movimento,
as cores,
o mundo exterior,
a natureza.
De noite,
valorizo a quietude,
o silêncio, memórias,
lembranças,
o vinho, os amores,
a alma que absorve
e degusta tantos sabores.
A noite é feminina,
e o sol, masculino,
casal,
gerando filhos,
não sei se de dia,
ou de noite.
Os dois se dão tão bem,
mesmo com tantas diferenças.
Um completa
o que ao outro falta.
O rei sol
e a dama noite
só se encontram
aqui na Terra,
por alguns poucos minutos.
Quando um vem vindo,
aparecendo,
o outro já vai indo,
desaparecendo.
E aí estamos,
dentro do dia e da noite,
no ventre do universo,
tal qual placenta,
amadurecendo,
modelando,
com luzes e sombras,
pintando, colorindo,
sempre nascendo,
nunca morrendo,
crescendo e rejuvenescendo,
nas entranhas da eternidade.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
eneaspb@gmail.com
41 9 8854 5166

Nenhum comentário:

Postar um comentário