quarta-feira, 2 de setembro de 2020

772.- Eu. Um eu desconhecido me acompanha.


 Quando nos encontrarmos,

gostaria de te apresentar

não o eu visível,

que você já conhece

mas o eu invisível,

que desconheço.

 

Até mesmo você

não se conhece

a ponto de dizer,

com toda segurança

e autoridade:

“Eu sou.

“Eu sei quem sou”.  


Quando gosto de mim mesmo,
do que conheço de mim,
e o que ignoro,
que também gosto,
meu eu,
então se manifesta
mais livremente,
para você.
 
Já sou meio feliz
 por conseguir
que os outros conheçam,
a parte de mim,
que eu mesmo
não conheço.
 
Por favor,
leia-me,
conheça-me
e fale para mim,
do meu eu querido,

ainda desconhecido.


Quando você olha

para uma maçã,

ela é uma maçã

por dentro e por fora.

 

Quando você olha

para qualquer pessoa,

ela é uma por fora,

e outra, por dentro.

 

Aquela que aparece,

a externa

vestida,

penteada,

emitimos um conceito,

e esgotamos toda a riqueza

de seus sentimentos,

dos seus sonhos,

ideais e amores.

 

Secamos,

esvaziamos as pessoas,

de todos os seus recursos

e possibilidades,

em nossa mente,

quando a avaliamos

apenas por fora.

 

Aquela parte da pessoa

que não aparece,

por ser invisível,

guarda e carrega

em seu íntimo,

mais riquezas 

que imaginamos.

 

A pessoa íntima,

para nossos conceitos,

permanece um mistério,

por ser na sua maior parte,

desconhecida e inesgotável.

 

Cada ser humano

carrega uma parte

que também é minha.

 

Cada ser humano

tem alguma coisa boa,

em si, que nos atrai,

e que possui a capacidade

de nos aperfeiçoar e completar.

 

Essa capacidade boa,

é uma energia chamada amor,

integrativa,

uma força comum,

que tem o poder de unificar

e complementar-nos.

 

A maçã, 

está lá fora.

 

Você a conhece totalmente,

por dentro e por fora,

a cor da casca

e o sabor.

 

As pessoas,

todas lá fora,

são conceituadas

por aquilo que mostram,

demonstram e apresentam,

externa e visivelmente.

 

Elaboramos,

internamente,

conceitos,

sobre as palavras,

as atitudes,

os escritos

e a história das pessoas.

 

E sempre achamos

que nossos conceitos

são perfeitos, completos.

 

Grande engano.

 

Todos os conceitos,

que fazemos sobre as pessoas,

são antes,

preconceitos,

conceitos incompletos,

imperfeitos.

 

São conceitos ou opiniões

ou achismos, emitidos

antes da convivência

ou do conhecimento

desta ou daquela pessoa.

 

Para as coisas,

as definições,

cabem plenamente,

e matematicamente.

 

Para as pessoas,

todas diferentes

umas das outras,

não cabem conceitos,

definições e certezas.

 

Todos somos desiguais,

na parte externa

e todos somos, nas raízes,

profundamente diferentes.

 

E é justamente a diferença

entre cada pessoa,

cada homem ou mulher,

criança ou idoso,

que contém os valores

a serem respeitados,

admirados e até,

cultuados.

 

É maravilhoso

o potencial diferencial,

de cada criatura,

ou de cada elemento

da natureza.

 

Na múltipla variedade

de criaturas na natureza,

não existem árvores iguais,

rios iguais, montanhas iguais.

 

Na face da terra,

as pessoas,

até os gêmeos,

são diferentes.

por fora.

 

As diferenças,

por dentro,

são infinitamente

impenetráveis,

indefiníveis,

desconhecidas,

conceitualmente.

 

Cada ser humano

é um universo,

desconhecido,

admirável,

quando parcialmente

aberto, lido, interpretado

e reconhecido.

 

Eu mesmo,

o próprio autor,

ao falar de si,

falará mais das emoções,

do momento, 

do que está sentindo

e vivendo.

 

Não conseguirá dizer tudo de si,

pois que para si mesmo, também é,

em parte, desconhecido e misterioso.

 

E é boa essa companhia,

este ser desconhecido,

que em parte, sou,

para mim. 

 

Esse eu desconhecido,

que me acompanha sempre,

e que em parte não conheço,

não me enfadonha,

não me cansa,

não me enche,

nunca.

 

A biografia

de cada ser humano é única,

um livro de história 

ou um romance,

com lutas, perdas, 

cicatrizes,

revesses e vitórias.

 

As fotografias,

coloridas,

ou em preto e branco,

semblante sofrido ou sorridente,

marcaram muita gente,

com as lembranças escritas

nas páginas 

das memórias vividas.

 

É a diversidade,

dentro da unidade,

que faz com que tudo e todos

sejam respeitados, admirados,

valorizados e cultuados,

como criações inigualáveis,

obras de arte, 

em vias de acabamento,

do pai Criador.

 

As diferenças

que encontramos

na natureza e entre as pessoas,

são bens preciosos, criados,

para fins de admiração,

e de elogios, unificação,

não de críticas

e desuniões.

 

Clarice Lispector,

numa das suas poesias

escreveu:

"Sou infinitamente maior

do que eu mesma,

então, não me alcanço".”.

  

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 02/09/2020

eneaspb@gmail.com

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