Precisando clarear minha mente,
recuperar a paz,
dar sossego aos meus pensamentos,
saí, caminhar um pouco.
Caminhando,
os pensamentos vão se encaixando,
relembrando o pensamentos dos antigos:
é no andar da carruagem
que as abóboras vão se ajeitando.
E, logo que coloquei os pés na rua,
olho para o outro lado da avenida
e vejo um senhor de idade,
andando apressadamente,
demonstrando um certo grau de ansiedade.
E me perguntei,
o que é que está movendo aquele senhor
a andar com passos tão apressados,
e para onde ele está indo,
ou o que está procurando?
Passei para o outro lado da avenida,
parei na sua frente, e,
imediatamente lhe perguntei:
Onde vais com tanta pressa,
e com essa idade?
Sem lhe dar chances para continuar,
fui lhe dizendo:
pessoas com nossa idade
caminham devagar,
pois não temos pressa para chegar,
seja onde for.
Com a nossa idade,
a única pressa que nos impomos
é para reaprender a andar,
mais devagar.
Desculpa minha curiosidade,
mas essa pressa tem uma explicação?
O senhor está precisando de algo?
Falta-lhe alguma coisa
que justifique esse andar apressado?
Ou te deixe assim, tão inquieto?
E, ele, ofegante,
se apoiando em meus braços
olhou atentamente para mim
como se estivesse à procura de algo.
Olhando para minha face
perguntou para onde eu estava indo.
Respondi-lhe
que estava saindo de casa
para dar uma caminhada pela vizinhança.
Aquele senhor
já envolvido pelo diálogo, disse-me:
- você, não está com nenhuma pressa, né?
Então te convido a ir junto comigo
procurar o que estou procurando.
Ele insistiu, ‘vamos, vamos. Caminhemos’.
Percebi que ele ainda demostrava alguma pressa
e não podia ficar ali, parado,
perdendo tempo, pois que,
talvez, no caminho,
encontrasse o que estava procurando.
- Oh! Que bom.
Que ótimo que tenha encontrado alguém
que olhasse para mim
e demonstrasse preocupação,
e ainda me abordasse
tentando iniciar um diálogo
com alguém como eu.
- O que te chamou a sua atenção?
Por que olhou para mim?
E por que você demonstra preocupação
com a minha pressa?
- Você tem razão,
a pressa e a ansiedade
já não devem ser nossa companheira.
Então eu lhe disse:
senhor, se me permite,
gostaria de lhe acompanhar
e ajudar-te a encontrar
o que andas a procurar
com tanta inquietação.
Mas, vamos mais lentamente,
assim não cansaremos tanto,
porque quem anda devagar,
vai mais longe.
Ele concordou dizendo, - Sim, sim, isso mesmo.
Então lhe perguntei?
O que o senhor está procurando?
Ele parou,
posicionou-se na minha frente
e olhou bem lá no fundo dos meus olhos,
e disse: estou procurando alguém
que tenha alma.
E a alma
a gente consegue ver
quando entra pelo túnel
da menina dos olhos.
A menina dos olhos
são aqueles dois pontinhos negros
bem no meio dos nossos olhos.
Ali é a portinha de entrada
para visitar e conhecer
a alma de quem deixa-se olhar.
Então lhe disse:
puxa vida senhor
por isso que é difícil
descobrir e enxergar
a alma das pessoas.
É necessário parar
e olhar nos olhos uns dos outros.
Deixar-se contemplar.
Deixar-se admirar.
E hoje, ninguém mais consegue parar.
E o senhor, meio tristonho,
parou, segurou-me pelos braços e desabafou:
- Vê, você viu, percebeu a razão
da minha ansiedade e da minha pressa?
- Estou a procura de pessoas que possuam alma,
porque com elas minha alma consegue interagir,
manter-se viva, alimentar-se e se alegrar.
Neste nosso andar lento e reconfortante,
parei para olhar para os olhos daquele senhor,
e percebi nele um elevado grau de emoção.
Nestes poucos metros que andamos juntos
ele conseguiu recuperar o brilho dos olhos
e o sorriso retornou à sua face.
Ai, ele também, olhou para meus olhos,
com aquela expressão de alegria
como quem achou o que procurava,
apoiou suas mãos nos meus ombros
e disse-me:
- Lembra como você me abordou,
lá na esquina da sua casa?
- Você, para ter me notado,
estava prestando atenção
ao que ocorria ao seu lado.
- E você olhou para mim.
- Ao olhar, despertou a sua alma,
que olha para as pessoas com sensibilidade,
com valores, procurando valores,
perguntando-se ou procurando respostas
que a alma faz.
- Percebes agora,
o que estava procurando,
com tanta pressa?
- Procuro por pessoas
que ainda possuem sua alma.
Chegamos. Por aqui paramos.
Você continua a sua caminhada, sozinho(a),
pensando nesse problema
que toda a humanidade
está percebendo.
Eneas Paulo Bogucheski
eneaspb@gmail.com
Publicado no BLOG e no FACE em 04.10.2024

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