Eu queria. Eu quero
largar-me, feito folha,
nas palmas do vento.
Mas, a cabeça
não deixa.
Cheia de
preocupações,
amarrada nos apegos,
enroscada nos preconceitos,
paralisada pelos medos,
fechada nas inseguranças,
prejudicada pelas desconfianças
desequilibradas pelo
excesso,
vazias dos valores
simples da vida.
Parece
que só sabemos viver
a partir da nossa
cabeça,
da mente e dos pensamentos.
A nossa cabeça pesa mais
do que a força do vento.
Parece
que colocamos tudo,
só na cabeça.
Opomos resistências,
duvidamos,
defendemos,
retardamos,
racionalizamos,
e acabamos
desistindo,
porque deixamos de
ser crianças,
e nos autopromovemos
para adultos,
antes de
amadurecer.
Colocando toda a
responsabilidade
da nossa vida sobre
nossa cabeça,
esquecemos que somos
frágeis,
como as crianças.
E as crianças
continuam dando show.
E nós, adultos,
proporcionando
vexames,
sofrendo,
de dores de cabeça.
Vivemos,
teimosamente,
confusa e
pesadamente,
a partir da cabeça,
da mente,
e da razão,
irracional.
Mas como,
tornar mais leve,
nossa cabeça,
nossas cargas,
nossa vida?
Tem algo
que ainda não
aprendemos?
Alguma coisa
que não nos
ensinaram?
Será que faltamos
algumas aulas
importantes,
na universalidade da
vida?
Ah, como seria bom
deixar-se levar pelo
vento.
O que acontece
com uma folha seca,
levada pelo vento?
Que inveja desta
folha!
Tão pobre, sem nada,
e tão rica,
sendo embalada,
levada,
viajando pelo mundo
nas palmas do vento.
A folha, sábia folha,
criancinha,
se abandona,
plaina,
voa,
dança,
sem saber,
sem mesmo querer
saber,
para onde o ritmo
e os balanços a
levam.
É levada
para onde o vento,
livre,
e alegre vai.
Como é sentir-se
como uma folha seca
sendo levada pelo ar,
por aí, por paisagens
e países distantes,
livres,
sem freios,
sem medos,
como o vento.
Mas não podemos
nos largar por aí,
assim,
irresponsavelmente.
O que vão pensar de
nós?
Se o vento é suave,
e se aproxima,
por que resistir?
Deixe-se
acariciar.
Deixe-se levar,
dançando,
balançando,
plainando,
teimando
em aterrissar.
Se o vento
te convida,
a sair,
do lugar
em que está enraizado(a),
não será,
talvez,
o vento,
teu amigo,
convidando-te
a passear?
Você entende
a linguagem do vento?
Consegue com ele,
conversar?
Ou apenas escutar?
Interpretar?
Será o vento,
invisível,
um anjo?
Se o pássaro canta,
tentando avisar-me,
nada percebo,
não escuto,
nem interpreto.
Onde estou
com os ouvidos,
que não o ouço?
Ou onde coloquei a
atenção
que não sabe mais ler
e ouvir,
a voz da criação?
Se estou fechado
para o mundo
exterior,
não conseguirei
despertar,
a sensibilidade,
que dorme dentro de
mim.
Soltar-se,
deixar-se levar,
pelo vento,
como uma folha seca,
já é demais.
Imagine,
quão longe irei,
se, mais leve,
como uma pena de
passarinho,
soltar-me por aí?
E se,
ainda mais leve,
onde irei,
onde conseguirei
chegar,
com minha alma,
finíssima arte,
transparente e
infinita,
viajando pelo céu
infinito.
Soltar-se,
abandonar-se,
acreditar no
impossível,
mistérios que não
desejamos
que sejam abertos nem
conhecidos.
Por favor,
não queiram explicar
os mistérios.
Deixem-me
algumas esperanças,
nem que sejam apenas
ilusões.
Permitam-me
que eu mesmo
descubra,
onde o vento
quer e pode me levar.
Se fico só por aqui,
como folha,
ou como pena,
passearei por bom
tempo,
circulando
por sobre a Terra,
onde a atmosfera
circunda
anima,
dá vida,
alegra
e refresca nosso
mundo.
Se o vento quiser,
ou outro meio tiver,
mais para o alto,
mais para cima,
minha alma vai
flutuar,
para sempre,
pois o universo
é infinito,
e minha alma,
não tem peso,
tamanho,
nem idade.
Não existirão
mistérios,
lá em cima, no céu?
O espaço celestial é
imenso.
Podem caber alguns
milagres.
Tomara.
Mais e mais
vou treinar meus
passos
para que se tornem
cada vez mais leves,
soltar-me das
amarras,
deixar que o vento me
leve
para onde os
mistérios atraem.
Quero ir,
aprender a voar,
permanecer plainando,
por mais tempo,
até aterrissar,
no Eterno.

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