Socorramo-nos a nós mesmos.
Estamos permitindo que mintam para nós.
Aceitamos a mentira, a falsidade,
a hipocrisia e as máscaras,
moda aparente e veneno letal.
E não
reagimos.
A caridade anda desatualizada.
A injustiça anda solta.
A consciência não dói mais.
Não vemos mais
as necessárias e benéficas
manifestações da alma.
É por esta razão
que estamos desacreditados
da existência da alma.
Sentimos
como se estivéssemos sem alma.
Sim, sentimos falta da alma,
da nossa própria alma.
Ou não nasceu.
Ou nasceu e morreu.
Ou deixamos de cultivá-la e murchou.
Ou roubaram ou sequestraram-na
e nem percebemos a falta que nos faz.
Por
favor, devolvam nossa alma.
Estou
sentindo falta da alma.
Está faltando alma.
Uma alma que perceba o choro
da natureza.
Ardem nossos olhos.
A fumaça não deixa ver claro,
os valores componentes da alma.
Pedimos socorro.
Ninguém demonstra incômodo
ou preocupação por esta falta.
Faltam profetas
que ensinem a suportar
e a resistir.
Faltam profetas
que ensinem a protestar,
a denunciar e a destituir.
Que nasçam novos profetas
com coragem
para que nos despertem
desta atrofia.
Que outros João Batista
nos avisem
e nos mantenham acordados.
Ha
muito tempo estamos acomodados,
pois
perdemos a alma.
Já
estamos
num
estágio de insensibilidade
tão
avançado
que
nos percebemos anestesiados,
atrofiados,
insensíveis e até cegos.
Não
enxergamos
e nem
cremos mais
no que
há dentro das coisas.
A causa final
não interessa mais
para muita gente,
sintoma da morte da alma.
O presente se tornou a alma do tempo.
O tempo presente nos deixa sem tempo.
E a alma é necessária
para perceber que a alma faz falta.
Quem nos livrará deste tempo sem alma?
Para
nós não há dúvidas de que o passado existiu e muito nos transmitiu, e nos deu
pistas, e falou de promessas que ainda não se realizaram.
O futuro está vindo, e nós na sua direção
também estamos indo.
Mas
que futuro esperamos?
Que
futuro queremos construir?
Não
queremos ir em direção de um futuro que não seja promissor.
Para
onde estamos indo só com alma conseguiremos chegar.
É uma situação dramática
sentir-se sem alma.
Mas para que alma,
para um futuro sem alma?
Mas é para lá que vamos,
para o futuro.
Mas como iremos, sem alma?
Sem alma, estaremos sem GPS
e sem oxigênio.
Porque
ninguém nota
que
estamos morrendo?
Talvez
porque mortos
não
ficam sensibilizados
diante
dos outros mortos.
Olhamos
em volta
e
ninguém se importa
com
esta derrota.
Não há
espanto.
Assusta-nos
a apatia.
Não
havendo alma,
não se
busca ideais imorredouros.
Como faz falta a alma.
Sem alma não há vida,
não há curiosidade.
Sem alma não nascem ideais.
Sem alma o entusiasmo
não tem forças nem brilho.
Faltando a alma,
a esperança muda de lugar
com o desespero.
Sem a alma,
a alegria foge para longe
e vem a tristeza azucrinar.
Sem alma
as canções se transformam
em lamentações.
Sem alma,
tudo fica triste,
sem colorido,
sem futuro.
Sem alma,
não precisará que exista o céu.
Quem alisará a superfície
dos nossos olhos
para que voltem a brilhar?
Quem massageará nossos lábios
para que voltem a sorrir?
Quem abrirá
as portas da esperança?
Não estamos todos no mesmo barco?
Já sem
alma,
da
alma não percebemos
nenhuma
importância.
Insensíveis,
anestesiados e alienados,
eis
como estamos.
Que o
efeito deste veneno
não nos
prejudique para sempre.
Que a
falta seja ainda percebida
enquanto
o espaço da alma estiver
lá no
vazio, sedenta, esperando de novo,
a alma
renascer.
Tem
que haver antídoto.
Deve
haver um remédio.
Quanto
custa perder uma alma?
Custa
tudo. Tudo mesmo.
Em
qual espelho devemos refletir-nos
para
percebermos
a
falta que a alma nos faz?
De tanto sem ela viver,
da alma nem sabemos mais o que dizer.
Qual é o endereço
da fonte que vivifica?
Em qual mercado
compramos alma nova?
No ‘achados e perdidos’
não existe nenhuma
na prateleira.
Nem no estoque,
nem na fábrica.
Por encomenda também não se faz.
Para muita gente,
a alma não é mercadoria da moda,
nem de primeira necessidade.
Invertemos as necessidades.
O essencial virou acessório de poucos.
O supérfluo toma conta de tudo e de todos.
Criamos necessidades substitutivas
para a alma.
Trazem efeitos colaterais,
provocando uma doença nova:
amnésia do futuro.
Mas onde está a nossa alma?
Para onde a levaram?
Onde está a alma minha?
Está no no mundo, esparramada, estropiada, vulgarizada, desprezada como
mendiga.
Quando olhamos para o céu,
as estrelas não nos comovem mais.
Nenhuma estrela temos como guia.
Não há mais estrela orientadora.
Tudo falta quando falta a alma.
A alma não está na casca.
A alma
é a energia
que está dentro da semente.
A alma é a energia da vida.
Vivifica a vida.
Motiva e dá brilho ao viver.
É a fonte
onde saciamos
nosso ser sedento de plenitude.
É a resposta
da verdade sobre nosso próprio ser.
É o alimento
do que de eterno
existe em cada um de nós.
É o motivo
da existência,
da esperança,
que persiste no nosso ser.
É o leme
do nosso barquinho
Um mundo sem alma
não se entende
e nem há porque existir.
Antes que o futuro chegue,
um profeta deve nascer
e profetizar
que o futuro está ainda ausente
mas que vem vindo,
de mansinho,
esperando sementes de almas nobres.
Estamos errados, pensando assim?
Ajudemo-nos uns aos outros
a abrir melhor nossos olhos
para ver valores maiores
que satisfaçam
nosso pobre e indefeso ser,
que não sabe sem alma viver.
Limpem esta lama e este limo
que cobrem nosso rosto e nossos olhos.
Retirem dos nossos tímpanos cansados
o tampão que não permite ouvir o som do sino
que quer despertar a alma do Heipo adormecido.
Devolvam
à nossa vida o que de mais verdadeiro, real e profundo nos pertence: a atenção
às reais necessidades dos nossos irmãos, a razão justa e sensível a todas as
necessidades humanas.
Devolvam nossos ouvidos
sensíveis às súplicas dos nossos irmãos, que morrem de fome, gemendo e
chorando.
A maturidade dos humanos ainda está gatinhando ou não quer assumir as responsabilidades de adultos.
É questão de
responsabilidade ou irresponsabilidade recuperar a alma que tenha olhos para o
descaso, que esteja alerta contra a apatia e as omissões.
Uma alma que manifeste a indignação diante do nada fazer para suavizar e acabar com os problemas dos nossos irmãos carentes.
Uma alma que idealize projetos humanos de recuperação, de reintegração e aperfeiçoamento.
Onde estão novos profetas
no mundo de hoje?
Porque não nascem mais profetas
como Isaías e Jeremias?
Quem vai nos recordar neste milênio,
nossa origem e filiação divina?
Quem
nos alertará que tomamos atalhos que não levam a lugar nenhum?
Quem
nos revelará que temos alma e que sem alma estamos anestesiados, fora de órbita,
mortos para a vida?
Eneas
Paulo Budel Bogucheski
Atualizado
em 30/01/2016
Eneaspb@gmail.com
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