segunda-feira, 10 de julho de 2017

389.- Olhar de ternura. Artesanato facial na feirinha da gratuidade.





Vamos para a feirinha.


Lá há tanta gente,
diferente,
tanta arte,
nos olhos,
nos olhares,
nos lábios,
nos sorrisos,
 nas risadas,
nas ruas e calçadas.


Pisando leve,
parando um pouco
em cada lojinha.


Comentando
com a companhia,
a beleza estonteante
de cada expressão de vida,
exposta, disponibilizada,
sem etiquetas de valor.



Artesanato
é a arte feita com as mãos,
pequenas peças,
pequenas coisas,
com detalhes que atraem,
chamam a atenção,
provocando no coração,
vontade de comprar,
vontade de levar,
ou só curtir
a beleza
e a bondade
expressada,
materializada
na arte
das pequenas peças
agora valorizadas
pelo sentimento,
presentes talvez,
para pessoas amadas.  


Existe também a arte
feita do olhar.


Olhar de compreensão,
que absorve tudo,
por fora e por dentro,
lá, na intimidade.


Olhar de ternura,
que acaricia
sem tocar.



Olhar de admiração,
demorado, observador,
penetrante, silencioso,
mas profundo,
compensador.


Olhar que escuta
as palavras não ditas,
interpretando-as
pela simplicidade
da face lisa
e serena.


Olhar que contempla
ao invés de apenas olhar,
visualizando a graça
e a pureza dos gestos
que a natureza humana revela.


É, sim, arte,
daquelas difíceis de encontrar,
mas tão boas,
benéficas
especiais e gratuitas.


De tanta coisa gostamos,
gastamos, temperamos
e comemos,
e vai para a barriga. 


Outros alimentos,
saciam a nobreza,
a alma,
o espírito nosso.


Nem só de pão vivemos.


Podemos estar saturados,
sem fome,
mas vazios
de artesanato facial.


Por isso
gostamos das feirinhas.


Os olhos também gostam.


Os olhos também saboreiam.
Pelos nossos olhos entram em nós,
alimentos afetivos.


Alimento humano
transmitido pelos olhos,
pela maneira afetiva de olhar.


Não é para comprar.


É para
ir buscar,
colecionar,
estocar,
depois distribuir.  


Guardar lá dentro,
relembrar a todo instante,
sustento,
nutriente puro
para nossa autoestima equilibrar.


Há um exercício libertador,
que nos enche de alegria,
que é a capacidade de ver,
olhar e deixar entrar,
dentro de nós,
belezas, arte,
expressões de alegria,
de bom humor,
de entusiasmo juvenil.


Se não estiveres bem,
sentindo melancolia,
vá até uma feirinha,
não compre nada,
ande,
circule,
mire no rosto do outro,
teu olhar,
só observe,
olhe na face,
e alimente-se,
gratuitamente
de alimentos para sua alma.

Levante seus olhos
e verás estrelas.


O mundo maravilhoso
está oculto
aos olhos apressados.


Quantos de nós,
não sabemos olhar
e deixamos fugir,
escapar,
um momento solene,
nobre,
enriquecedor.


Para um olhar treinado
não há
coisas pequenas,
insignificantes.


Renunciamos ao prazer
de ver as coisas,
na sua inteireza.


Depois que o passarinho
voou, escapou,
fugiu,
perdeu-se
o que se tinha tão perto
do susto,
do assombro,
da admiração.


Parece que é nos detalhes,
nas cores ou nas sombras
que a mensagem mais rica,
mais forte,
está escondida.


Se existe perfeição,
a imperfeição,
 ainda está
na maneira de olharmos.


É, em primeiro lugar através
do olhar que encontramos
a pérola perdida.


A intimidade,
o encontro mais íntimo
começa com o olhar, de acolhimento.


É através do olhar que acontece
o diálogo, o encontro,
o relacionamento
com a companhia.



Se formos melhores em ver,
nossos conceitos e valores
serão maiores,
nossos assuntos serão agradáveis,
nossos amigos serão milhares.



Meu olhar
procura o teu olhar
para nos completarmos.


Para ver bem
é necessário des-cobrir,
tirar o véu
que cobre a bondade e a beleza
de cada criatura.
José Tolentino Mendonça.


Para enriquecer e completar este texto,
sugiro a leitura do livro:
A Mística do Instante
do escritor José Tolentino Mendonça,
Editora Paulinas.



Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 10/07/2017
Atualizado em 12/03/2024.

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