segunda-feira, 15 de julho de 2024

112.- Afetivo fui, afetivo deixei de ser.




Aprendemos a ser racionais.

Descuidamos do aprendizado

para sermos mais coracionais.

 

Observação. Não quero com este texto

tirar o valor da nossa capacidade racional,

mas que seja uma pequena luz,

como um farol de advertência.

 

 

Afetivo fui.

Afetivo deixei de ser.

 

E perdi-me.

Perdi minha essência.

 

Sequei-me. Esvaziei-me.

Robotizei-me.

 

Já não sei quem sou.

 

Desejando ser inteligente,

escolhi dirigir-me pela razão.

 

A razão cresceu e dissecou,

conheceu, explicou tudo,

mas não convenceu.

 

A razão secou

o que o coração gerou.

 

Quero de novo, reviver,

escolher, a partir de agora,

definitivamente,

ser comandado mais pelo coração

do que pela razão.

 

É muito mais realizador

e compensador

amar e ser amado

do que ser apenas conhecido.

 

Uma das imagens

mais comoventes e completas

que o ser humano pode ver,

ou relembrar,

é a de uma criança

no colo da sua mãe,

mamando.

 

Dois contemplativos:

Um contemplando

e o outro, amando.

 

Enquanto a criança

suga os mamilos da mãe

e olha para ela, a mãe,

alimentando a criança com o leite,

transfere através dos seus olhos,

 ternura, carinho e amor,

complementando a alimentação.

 

Essa atitude é a única necessária

nos primeiros meses e anos de vida.

 

A mãe dá leite e amor.

A criança recebe leite e amor.

 

E meus irmãos e minhas irmãs

partilhavam comigo daquele paraíso.

 

Do coração brotaram as energias

para carregar as cargas afetivas

para o resto da vida.

 

As baterias vitais

serão recarregadas

ao longos anos de vida,

mais pelo coração do que pela razão.

 

As palavras não são necessárias.

Nem sabemos falar ainda,

mas já permutávamos

energias poderosas

nascidas do intercâmbio

do amor maternal e filial.

 

Eis o que fomos e somos,

mamíferos, como animal

e como gente.

 

Com o passar dos anos,

fomos desmamando.

 

As baterias

foram enfraquecendo.

 

Crescendo,

fomos entrando num caminho

que nos levou a um processo

de fragilidade.

 

Os desequilíbrios

foram aparecendo.

 

Doenças instalando-se.

 

O ego e o egoísmo,

por falta do amor original,

foram impondo-se

como erva daninha

na horta preparada

para dar bons

e saudáveis frutos.

 

Entrando para a escola da vida,

longe do colo materno,

longe das fontes originais

do amor afetivo,

tivemos que sentar-nos

nas cadeiras das escolas

e aprender a ser aluno

e desenvolver as faculdades intelectuais.

 

Até parece que

o que fui aprendendo nas escolas

foi me desensinando

a ser o que tinha assimilado

nos primeiros meses e anos de vida.

 

As pessoas mais vividas

queriam funcionar

como professores e profissionais

do ensino.

 

E insistiam

que era necessário

frequentar escolas e universidades.

 

A vida passou a ser,

entre as pessoas,

relações entre professores e alunos,

entre pessoas que ensinavam

e outras que deveriam aprender,

isso tudo apenas com um foco,

uma preocupação:

transformar-nos

em ferramentas funcionais.

 

E então sobraram

apenas duas categorias de pessoas:

as que sabiam bastante,

esperando sempre,

reconhecimento e respeito,

e os outros, menos esclarecidos,

numa faixa abaixo,

sempre agindo

como aprendizes ou alunos.

 

Os primeiros,

sempre à vontade,

para falar e ensinar;

e os outros,

sempre ouvindo,

acostumaram-se,

a não se empenharem

para as iniciativas evolucionárias.

 

Eis o que a aquisição

de conhecimento produz:

classificações, separações,

distanciamento, desigualdades.

 

Eis o que a educação afetiva produz:

Igualdade, proximidade, aceitação,

afetividade, carinho, ternura,

compreensão, tolerância, compaixão,

entreajuda, serviços gratuitos,

sorrir juntos,

chorar juntos,

compartilhar

o que somos 

e o que temos.

 

Estamos no prejuízo.

 

Convém repensar,

deixar o ensino

para o professor coração.

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

eneaspb@gmail.com

Texto desmembrado em 15/07/2024

de outro já publicado.

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