terça-feira, 15 de julho de 2014

128.- Sede. Sinto sede ... como obra de arte inacabada.



     Tenho sede ..
     Não de água, mas do infinito. 

          Sinto-me como uma obra de arte, 
          inacabada.

               Quem me fornecerá 
               um tipo de material
               que dure para sempre? 

Curioso sobre o tema da morte
eu quase desejava morrer,
para saber mais
sobre o que sabemos
de menos.

         Cultivei a esperança
              no lado de lá.

             Quase quis ficar
                por aqui.

Não me conformava
em ser apenas terráqueo.

Eu tenho algo
que não é daqui.

   É de lá
a minha melhor parte,
a mais duradoura.

   É de lá
minha natureza
definitiva.
 
Tenho esperanças
de que sou herdeiro
e que tenho
uma herança eterna
a receber e a cultivar.
 
Durante minha vida
procurei sempre
as pegadas do espírito,
sutil,
despercebidas
pelo olhar corporal.

       No Heipo’s World
estão registradas
as impressões digitais
de um personagem
feito aqui,
para chegar lá,
no lado de lá.
 
O espírito
que sou
me manterá
para sempre.
 
O que não é espírito
ajudou o espírito
a buscar a unidade,
a unificação.
 
Há algo mais
que nossas capacidades mentais
possibilitam conhecer.
 
Há algo mais
além do que nossos olhos veem.
 
Há algo mais
Para lá
do que nossos sentimentos
experimentam.
 
Há algo mais
que a fé diz existir
e que ainda nos escapa.
 
Há algo em nós
que é sobrenatural,
e que nos ultrapassa
e que esconde ‘algo’.
 
Há algo mais
que nos provoca,
atraindo-nos e nos chama
e nos deixa ansiosos.
 
O que é desconhecido
quer se fazer conhecido.
 
O que nos mantém presos
e inseguros
é a sensação
do despreparo.
 
Se nos sentimos despreparados
é porque
não nos conhecemos
suficientemente.
 
Receamos conhecer
o desconhecido
que promete mais,
e nos acostumamos
com o conhecido
que não nos realiza.
 
Em cada um de nós
existem possibilidades
desconhecidas,
ainda dormindo.
 
Abrir-se ou aventurar-se
no campo do infinito
é a maior
de todas as ambições humanas.
 
É uma aventura,
quase um escape,
um querer fugir
do mundo pequeno.
 
É uma revolta
contra tudo aquilo
que não preenche,
não completa,
não realiza
e deixa um sutil sentimento
de frustração.
 
Abrir-se para o infinito
é romper as fronteiras
e os limites.
 
É vivenciar os melhores valores
que tens à sua própria disposição.
 
Estes valores, vivenciados,
  provam a existência do céu.
     O infinito faz cócegas no finito.
 
         Desperta a curiosidade.
             Abre as portas
                  para esperanças novas.
 
 Sou o mais completo,
 complexo
e complicado ser da criação.
 
Mas experimento também
a força da limitação.
 
    Mas esta limitação,
        é apenas um detalhe,
            um componente do todo.
                Não é um obstáculo
                     intransponível.
 
   Tenho ideais
        mais altos e mais fortes
            do que sou.
 
Tenho sonhos infinitos
         que querem alargar
             os limites do que sei
                  e experimento.
 
             Minha fragilidade humana
       Limita o que de eterno há em mim.
 
        O que há de finito em mim,
              serve de copo
                    para recepcionar
                         o infinito.
 
           Cabe?
         Cabe sim,
          vazando, escapando,
             segurando as sobras
              que satisfazem.
                         
Quão pequeno sou,
      quase incapaz,
           mas teimoso e esperançoso,
                tento fazer caber
             dentro das minhas limitações,
         “o maior”, o imenso, o infinito. 
 
 
 Há de caber o que não posso conter?
      Se não couber todo, há de vazar.
 
             Mais mérito há de ser assim,
            do que manter vazio
       um espaço criado
para recepcionar
       o infinito.
 
Está para acontecer,
a qualquer momento,
se não me arrebento,
coisa grande vai acontecer.
 
      Será que estamos à porta?
        ou à beira, do fim? 
          Ou de um novo grande evento?
              Um recomeço?
 
                     Vamos continuar.
 
É melhor arriscar,
do que ficar por aqui,           
estacionado.
 
         Aqui, a ‘coisa’ vai acabar.
             Lá, a ‘coisa’ está sempre
                a começar.
 
                 Esta inquietação
                        atrai e convida,
                          e se expõe,
                           e se impõe.
               
É uma atração.
    Espera um sim.
          Exige uma resposta.
 
               Não há como resistir.
 
Não é algo comum.
 
       Não faz parte da rotina.
        Escapa das nossas mãos e visões.

Será um dom ou teimosia? 
Desequilíbrio da natureza?
 
 
Na grande síntese da vida
     apenas três realidades existem:
          o mundo, o homem
             e o nosso Pai Criador.
 
             Destas três
a que menos conhecemos
   é o nosso próprio Pai Criador.
 
         O que sei e o que não sei,
              do Deus Uno e Trino,
                  merece
                     maior investimento.
 
     O mundo visível,
        já o conhecemos,
         mesmo que superficialmente,
            pois que somos
               barro da terra.
 
O mundo invisível
      esconde códigos e senhas
            e estamos começando
                   a decifrá-los.
 
Do homem
    temos um razoável conhecimento
          pela História e pela lida,
no dia a dia.
 

Estamos continuamente
        uns ao lado dos outros.
 
E muitos de nós,
causamos espanto
e surpresas.
 

Na natureza humana
surgem algumas interrogações.
 
As definições filosóficas e científicas
não esgotaram a intimidade,
o conteúdo e as promessas
feitas às criaturas humanas,
imagem e semelhança
do Pai Criador.
 
Há ansiedade insatisfeita.
 
 
Há profundidade infinita
na natureza humana
que só o infinito
pode suavizar,
que só o infinito
pode ‘encher’.
                                               
Do Deus Pai
e do Deus Filho
e do Deus Espírito Santo,
as fontes de pesquisas
são infinitas.
 
E é por aqui
que agora havemos de pisar,
pesquisar
envolver-nos,
fazer parte,
complementar-nos.
  
Esta parceria,
   promover para aliança,
     é a mais acertada tacada
        do nosso último empreendimento
      na escalada
        da pirâmide da perfeição.
 
Devemos desistir?
   Mas por que deixar como está?
      Na escuridão?
 
Ignorando a fonte da Luz
que nos faz enxergar
do lado de lá
e um pouco mais
 acima?
 
Quero morar lá,
onde mora
o Infinito.
 
Algo em mim impulsiona,
    energiza e anima
        o que tenho de humano,
           em direção a algo mais,
               além deste mundo,
                     além do que vejo,
                        sinto e percebo.
 
              Algo condiciona e impulsiona
                      meu frágil ser,
                        a expressar-se
                           mais do que posso.
 
               Algo me anima
                    a querer e poder
                           mais do que sou.
 
Não ao não.
Mas sim ao sim.
                                 
Sinto cócegas.
   Preciso me coçar.
 
Numa hora quero ser mais livre,
     quero voar, mas não consigo,
         não tenho asas.
 
    Noutra hora quero transportar-me
          para o alto da montanha,
              sem dar os passos
                    por entre as pedras.
 
Querendo ser mais
   experimento as barreiras,
      as cadeias, as cordas,
             as correntes, as carências,
                  as impotências e a paralisia.
 
Eis que ainda sou
    uma mistura de massas,
        composta pela síntese mineral,
            vegetal, animal e humana,
                   habitado
    por migalhas de infinito.
                        
Quero devolver-me ao infinito
      mesmo sendo massa pesada.
 
Sei que minha alma é leve
   e transparente.
 
Estou na terra,
mas não sou terráqueo.
 
     Se daqui eu fosse,
         seria muito mais sossegado.
 
           Mas tem coisa dentro de mim
                que cutuca o bicho preguiça,
                   que desperta outro bicho,
                  escondido,
            atrás desta natureza humana,
             projetada para novos horizontes,
          novos espaços,
       novo jeito de ser,
    ainda desconhecido.
 
De repente, de novo,
   experimento-me
       curtindo uma expectativa
           uma esperança,
               ou uma ânsia,
                 uma saudade...
             que me parece não ser minha...
         
Uma sensação
    de que não sou daqui...
 
Não me acostumo
com minhas limitações.
 
Meus limites temporários
     fazem-me esquecer
         que sou humano,
              limitado pelos dois pés.
 
E me fazem sentir
      o que é ser já,
          eterno,
              sem ser.
 
               E aí o tempo passa
e eu não percebo
               o tempo passar.
 
Será esta a sensação
     de sentir,
           que não sou daqui?
 
Eis que sou e estou
      morando no tempo.
 
No Céu, fora do tempo,
  o meu e nosso Pai,
     o Artista que nos criou,
        o Perfeito está sempre a chamar:
                          Vem’.
 
Existe uma ânsia,
      uma vontade ou um sonho
          que arde dentro de cada um de nós,
      pessoas humanas realmente,
e divinas potencialmente.
 
O que há de humano em nós,
      contenta-nos ou nos humilha.
 
O que há de divino em nós
      manifesta-se como sede
         que não sacia,
          como obra de arte inacabada.
 
 
Eneas Paulo Budel Bogucheski  
Atualizado em 31/03/2016
Atualizada em 08/05/2026

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