terça-feira, 8 de outubro de 2019

679.- Tempo. Socorro. Estão roubando meu tempo.



Reflexões 
sobre o tempo.



Tenho certeza de uma coisa:
Tenho tempo, muito tempo,
à minha disposição.


Você também não pode queixar-se
de que não tem tempo. 



Não sei bem certo,
o que tenho feito com ele.



Preciso perguntar-me
se sou dono do meu tempo
ou se fui roubado,
ou sequestrado
de mim mesmo.  



Se sou eu
que decido meus caminhos,
as minhas escolhas,
meus projetos e ideais,
ou
o planejamento deles
me incluiu no consumo deles,
e comeram minha consciência.



I



Nessa noite sonhei

que estava sendo roubado.



E aí acordei, suado,

 gritando:

“Por favor, acudam-me,

estão levando meu tempo”.



Um sentimento de esvaziamento,

como se estivessem sugando

minha fortuna,

disponibilidades recebidas

e acumuladas ao longo dos anos.



Meio acordado e meio dormindo

não acreditando naquela real possibilidade,

olhei para mim, como quem está de fora,

sem poder interferir.



Assistia-me

sendo roubado.



O barulho vinha,

batia e me atordoava.



A correnteza vinha

e me derrubava.



A avalanche

aumentava

a fúria da tempestade.



Tentava fincar o pé no chão,

querendo permanecer

alerta,

mas vinha de novo o vento,

sacudindo,

me balançando.



Faltava apoios,

no que segurar-me.



Todos os suportes,

 tudo o que havia de seguro,

já estava caído,

rolando na correnteza,

já concordando,

na condição de não-resistência.



Deitado, rolava,

rodovida abaixo.



Quanto mais rolava,

menos resistências sobrava.



Esvaziava ideias e ideais.



Despersonalizava meu ser.



Já sem forças, levado pela mídia,

obedecia e respeitava as regras

da lei da gravidade,

levando tudo,

para baixo.



Ficava sem norte e sem sul,

sem bússola e sem GPS.



Saia de mim

o que era meu.

E o que é meu,

no final,

sou eu.



Eu não mais me pertencia.



Estava sendo roubado

de mim mesmo.



E permitia.





II





De vez em quando

um profeta,

ainda de pé,

resistindo,

tentava me segurar

colocando-me de novo em pé,

gritando,

‘finca teu pé

na profundidade do chão

e levante as mãos para o céu”.



E esticava meus braços,

tentando segurar-me

em apoios invisíveis.



É tão difícil

acreditar, sem ver.



A história testemunha

que as promessas

se cumprem.



Quem no alto se apoia,

mesmo que caia,

não será levado,

mas elevado.



A fé

e a esperança alimentam

quem quer eternizar-se.



Nos momentos

em que permanecia em pé,

recuperava as forças.



O ar

entrava pelos pulmões.



A consciência

recobrava.



Em alerta

de novo me posicionava.





III





Os ladrões são inofensivos
e atraentes:
a TV, os Eventos,
o PC, o Celular,
os programas,
os aplicativos,
os entretenimentos e os jogos.



Estes bons e inofensivos
instrumentos de progresso
roubam quase todo o tempo.
que nos foi entregue
para investir na eternidade.


IV



Dizem os profetas
que tenho espírito.



Que este espírito 
é um tipo de vida,
que ganho,
junto com outros dons e bens,
que também estão disponíveis,
a todos, aqui na terra.



Se esta é uma verdade,

 que ensinam as religiões,

meus ouvidos escutarão

os alertas,

distinguindo,

discernindo,

escolhendo

o que tem peso

e permanência.





A correnteza

e as ventanias

da vida horizontal

não querem deixar-me

cultivar este bem,

esse valor do espírito.





Estão tentando tirar de mim

o tempo

que tenho

para construir

minha eternidade.





Se deixar, se deitar,

rolo e entro no rolo

e me acomodo,

e desisto.





Só me resta

uma esperança,

permanecer de pé,

manter-me ocupado com o tempo

que me sobra,

para construir o futuro,

no porto seguro,

de um valor absoluto

e permanente.





Se me roubam

todo o tempo útil que tenho,

como vou investir

num bem permanente,

e eterno,

que me mantenha vivo,

para sempre,

pois é o que quero.





Preciso defender-me.





Querem roubar

o tempo que me foi dado

para ser eterno.



O pouco de eterno
que existe em mim,
me impõe
um certo estilo de cautela
e de defesa.




O pouco que já consegui,
com a frágil fé e a verde esperança,
não posso correr o risco de perdê-lo.



E se fico sem este tempo,
em qual outro tempo,
terei tanto tempo?



Não posso deixar que levem,
não posso perdê-lo aqui,
nesta cidade,
gastá-lo
o tempo todo,
e depois,
ficar outro tanto de tempo,
esmolando migalhas,
de eternidade.



Quem fará isso por mim,
senão eu?






Eneas Paulo Budel Bogucheski 

Atualizado em 08/10/2019.

eneaspb@gmail.com 

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