Tenho
certeza de uma coisa:
Tenho
tempo, muito tempo,
à
minha disposição.
Você também não pode queixar-se
de que não tem tempo.
Não
sei bem certo,
o
que tenho feito com ele.
Preciso
perguntar-me
se
sou dono do meu tempo
ou
se fui roubado,
ou
sequestrado
de
mim mesmo.
Se
sou eu
que
decido meus caminhos,
as
minhas escolhas,
meus
projetos e ideais,
ou
o
planejamento deles
me
incluiu no consumo deles,
e
comeram minha consciência.
I
Nessa noite sonhei
que estava sendo roubado.
E aí acordei, suado,
gritando:
“Por favor, acudam-me,
estão levando meu
tempo”.
Um sentimento de
esvaziamento,
como se estivessem
sugando
minha fortuna,
disponibilidades
recebidas
e acumuladas ao longo
dos anos.
Meio acordado e meio
dormindo
não acreditando naquela
real possibilidade,
olhei para mim, como
quem está de fora,
sem poder interferir.
Assistia-me
sendo roubado.
O barulho vinha,
batia e me atordoava.
A correnteza vinha
e me derrubava.
A avalanche
aumentava
a fúria da tempestade.
Tentava fincar o pé
no chão,
querendo permanecer
alerta,
mas vinha de novo o
vento,
sacudindo,
me balançando.
Faltava apoios,
no que segurar-me.
Todos os suportes,
tudo o que havia de seguro,
já estava caído,
rolando na
correnteza,
já concordando,
na condição de não-resistência.
Deitado, rolava,
rodovida abaixo.
Quanto mais rolava,
menos resistências
sobrava.
Esvaziava ideias e
ideais.
Despersonalizava meu
ser.
Já sem forças, levado
pela mídia,
obedecia e respeitava
as regras
da lei da gravidade,
levando tudo,
para baixo.
Ficava sem norte e
sem sul,
sem bússola e sem GPS.
Saia de mim
o que era meu.
E o que é meu,
no final,
sou eu.
Eu não mais me
pertencia.
Estava sendo roubado
de mim mesmo.
E permitia.
II
De vez em quando
um profeta,
ainda de pé,
resistindo,
tentava me segurar
colocando-me de novo
em pé,
gritando,
‘finca teu pé
na profundidade do
chão
e levante as mãos
para o céu”.
E esticava meus
braços,
tentando segurar-me
em apoios invisíveis.
É tão difícil
acreditar, sem ver.
A história testemunha
que as promessas
se cumprem.
Quem no alto se
apoia,
mesmo que caia,
não será levado,
mas elevado.
A fé
e a esperança
alimentam
quem quer
eternizar-se.
Nos momentos
em que permanecia em
pé,
recuperava as forças.
O ar
entrava pelos pulmões.
A consciência
recobrava.
Em alerta
de novo me
posicionava.
III
Os ladrões são
inofensivos
e atraentes:
a TV, os Eventos,
o PC, o Celular,
os programas,
os aplicativos,
os entretenimentos e os jogos.
Estes bons e
inofensivos
instrumentos de
progresso
roubam quase todo o tempo.
que nos foi entregue
para investir na
eternidade.
IV
Dizem os profetas
que tenho espírito.
Que este espírito
é um tipo de vida,
que ganho,
junto com outros dons
e bens,
que também estão disponíveis,
a todos, aqui na terra.
Se esta é uma verdade,
que ensinam as religiões,
meus ouvidos escutarão
os alertas,
distinguindo,
discernindo,
escolhendo
o que tem peso
e permanência.
A correnteza
e as ventanias
da vida horizontal
não querem deixar-me
cultivar este bem,
esse valor do
espírito.
Estão tentando tirar
de mim
o tempo
que tenho
para construir
minha eternidade.
Se deixar, se deitar,
rolo e entro no rolo
e me acomodo,
e desisto.
Só me resta
uma esperança,
permanecer de pé,
manter-me ocupado com
o tempo
que me sobra,
para construir o
futuro,
no porto seguro,
de um valor absoluto
e permanente.
Se me roubam
todo o tempo útil que
tenho,
como vou investir
num bem permanente,
e eterno,
que me mantenha vivo,
para sempre,
pois é o que quero.
Preciso defender-me.
Querem roubar
o tempo que me foi
dado
para ser eterno.
O pouco de eterno
que existe em mim,
me impõe
um certo estilo de
cautela
e de defesa.
O pouco que já
consegui,
com a frágil fé e a
verde esperança,
não posso correr o
risco de perdê-lo.
E se fico sem este
tempo,
em qual outro tempo,
terei tanto tempo?
Não posso deixar que levem,
não posso perdê-lo
aqui,
nesta cidade,
gastá-lo
o tempo todo,
e depois,
ficar outro tanto de
tempo,
esmolando migalhas,
de eternidade.
Quem fará isso por
mim,
senão eu?
Eneas
Paulo Budel Bogucheski
Atualizado
em 08/10/2019.
eneaspb@gmail.com

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