quarta-feira, 9 de outubro de 2019

680.- Alma da Terra. O título mais esconde do que revela o conteúdo.




Quando olhamos para uma pessoa,
não vemos a sua alma.

A alma
não é produto de exposição.

Demora revelar-se,
e é difícil de ser percebida
e encontrada.

Tem-se que subir a montanha
e descer, pelos labirintos
das cavernas,
escuras e desconhecidas,
até às mais longínquas
profundidades.

Sonhador que fui,
sonhador que sou
sempre desejei conhecer
e ver a alma de perto,
sentindo-a pulsar.

Procurando uma,
descobri duas almas:
a alma da terra,
e a minha alma.

Este chão que piso
me é sagrado,
me sustenta,
e faz parte de mim.

A Terra,
é o pó que fui,
que sou
e que voltarei a ser.

Já tinha ouvido falar
das minhas origens.

Pesquisas,
de onde vim,
consumiram
minutos, horas, dias, semanas,
meses e anos.

Teimoso, ansioso,
lá fui eu,
a procura da alma,
no fundo, de mim mesmo,
no fundo da Terra.

Tudo aquilo que encontramos
E conhecemos, por pouco que seja,
e com as quais nos relacionamos,
revela um pouco de nós mesmos.

Em cada encontro
com esta ou aquela realidade,
com este ou aquele elemento,
deciframos um pouco
do mistério que somos.

Que estranho
a força do preconceito,
a força do símbolo
e das palavras.
Refiro-me ao nome,
Caverna do Diabo.

Sou curioso
pelas profundidades,
por aquilo que a profundidade esconde.

Convidei um grupo de amigos
e com uma parte da minha família,
fomos para dentro da Caverna do Diabo,
na cidade de Eldorado,
no Estado de São Paulo,
no dia primeiro de agosto
de dois mil e quatro.

E lá,
fitei meus olhos
na alma da terra,
e permiti que minha alma
interagisse com a alma da Terra.

Nada percebi que fosse
ou revelasse o diabo lá dentro.

Entramos
no interior da montanha,
por uma fresta,
uma fenda,
um buraco.

Do lado de fora é uma coisa.
Do lado de dentro,
no interior, é outra.

Do lado externo,
nada se vê
que revele
o que é por dentro.

Nem se imagina
o que dentro há,
e como por dentro é.

Por fora,
um tipo de natureza;
Por dentro,
uma natureza diferente,
produzida pela água,
em composição
com outros elementos.

O que é que uma caverna
tem a ensinar ou a ajudar
a interpretar quem sou,
quem fui,
quem serei?

Quando a água é branca
a alma se manifesta pura.

Dentro da caverna,
a água é transparente,
e límpida,
refrescante,
curadora,
promotora de mudanças,
e formação
de esculturas artísticas comuns,
e outras, como símbolos misteriosos.

Assim é nossa alma,
bela, transparente,
puríssima, misteriosa. 

Dentro do nosso corpo,
na fonte,
a alma
é pura, sadia
e transparente.

A alma da terra
também tem suas veias
um rio subterrâneo,
com seus contornos e cânticos,
como o sangue a circular
e a gerar oxigênio.

Não seria possível
suportar o silêncio,
a solidão da alma,
no fundo da caverna,
sem o suave barulho
do movimento das águas.

A alma da terra,
é formada pela harmonia
de poucos elementos:
o interior de uma montanha,
espaços entre a origem do pingo de água
e o chão, ou receptáculo,
onde cai a água,
modelando peças
ou personagens
que recebem nomes
por suas semelhanças
com objetos que conhecemos.

Não será esta mesma ação,
o efeito que a graça
vai nos modelando,
nos mantendo úmidos,
maleáveis,
alegres, vitais,
transformando-nos
em personagens renovados,
aprontando-nos
para o mundo novo
que desejamos?

A alma
é composta por grutas,
espaços insondáveis,
passarelas,
subidas,
descidas,
abismos,
alturas,
labirintos,
salões enormes,
corredores sem fim
e um clima de mistério.

A Caverna do Diabo
possui uma extensão de
quase seis mil metros,
explorada e conhecida
apenas por alguns poucos guias.

É conhecida,
iluminada e visitada
apenas por menos
de quinhentos metros,
onde recebeu algumas obras,
grades, passarelas,
e iluminação artificial,
que permitissem
condições de visitas
com segurança.

Quanta beleza
falta conhecermos.

Talvez seja assim
com a nossa alma,
inexplorada
a partir da superfície.

Tão pouco conhecemos dela.

Se não houver luz artificial,
não se consegue ver as belezas
estonteantes
que há na alma
da Terra.

Se quiseres aprofundar-se
sobre as belezas
que lá existem,
não tenhas pressa
em mudar seus passos,
ou em mudar de lugar.

Já na primeira vista
é de petrificar
e de não acreditar.

É a força da beleza
a exercer a sua missão.

É o gostinho do mistério
a alargar as brechas da razão.

É a força do mistério
insistindo
para entrar,
em outra dimensão.

A alma da terra,
fala da alma
que mora no nosso corpo.

Que mistério é esse
de uns enxergarem a beleza,
a existência
e a mensagem da alma,
e outros não?

A ignorância, a apatia,
ou a falta de conhecimento
revela-se como uma venda que colocamos
em nossos olhos, por opção,
não permitindo aventuras novas,
aceitação e exploração
dos mundos desconhecidos.

E não é porque não conhecemos
que teremos a autoridade de dizer,
“não acredito, não aceito, não existe”.

Abrir-se, aventurar-se
a explorar o desconhecido,
funciona como colírio,
que ajuda a abrir 
os olhos da alma.


Não me conformo
em estar quase no paraíso
e me comportar
como se ‘ainda não’ estivesse lá.

Por isso, busco mais cavernas,
que me revelem os mistérios
da minha alma.

Quanta gente
está empenhada,
procurando cavernas,
desejando encontrar-se
com a alma perdida.

No lado de dentro das coisas
está a verdade,
que se transforma em beleza,
que quer ser conhecida e amada.

Beleza que cativa,
beleza que faz discurso
sem pronunciar palavras.
E convence.

Reside na alma
o mapa do caminho.

O rio que entra na caverna,
faz caminho, acha uma saída
e sai enriquecido e promovido.

Se um dia me for possível sugerir,
o nome mais apropriado
para a Caverna do Diabo
proponho que seja
“Caverna Alma da Terra”.


Eneas Paulo Budel Bogucheski
Criado em 01/08/2004.
Atualizado em 09/10/2019.
eneaspb@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário