Quando olhamos para uma pessoa,
não vemos a sua alma.
A alma
não é produto de
exposição.
Demora revelar-se,
e é difícil de ser percebida
e encontrada.
Tem-se que subir a
montanha
e descer, pelos
labirintos
das cavernas,
escuras e
desconhecidas,
até às mais
longínquas
profundidades.
Sonhador
que fui,
sonhador
que sou
sempre
desejei conhecer
e
ver a alma de perto,
sentindo-a
pulsar.
Procurando uma,
descobri duas almas:
a alma da terra,
e a minha alma.
Este
chão que piso
me
é sagrado,
me
sustenta,
e
faz parte de mim.
A
Terra,
é
o pó que fui,
que
sou
e
que voltarei a ser.
Já tinha ouvido falar
das minhas origens.
Pesquisas,
de onde vim,
consumiram
minutos, horas, dias,
semanas,
meses e anos.
Teimoso, ansioso,
lá fui eu,
a procura da alma,
no fundo, de mim
mesmo,
no fundo da Terra.
Tudo
aquilo que encontramos
E
conhecemos, por pouco que seja,
e
com as quais nos relacionamos,
revela
um pouco de nós mesmos.
Em
cada encontro
com
esta ou aquela realidade,
com
este ou aquele elemento,
deciframos
um pouco
do
mistério que somos.
Que estranho
a força do
preconceito,
a força do símbolo
e das palavras.
Refiro-me ao nome,
Caverna do Diabo.
Sou
curioso
pelas
profundidades,
por
aquilo que a profundidade esconde.
Convidei um grupo de
amigos
e com uma parte da
minha família,
fomos para dentro da
Caverna do Diabo,
na cidade de
Eldorado,
no Estado de São
Paulo,
no dia primeiro de
agosto
de dois mil e quatro.
E
lá,
fitei
meus olhos
na
alma da terra,
e
permiti que minha alma
interagisse
com a alma da Terra.
Nada
percebi que fosse
ou
revelasse o diabo lá dentro.
Entramos
no
interior da montanha,
por
uma fresta,
uma
fenda,
um
buraco.
Do
lado de fora é uma coisa.
Do
lado de dentro,
no
interior, é outra.
Do
lado externo,
nada
se vê
que
revele
o
que é por dentro.
Nem
se imagina
o
que dentro há,
e
como por dentro é.
Por
fora,
um
tipo de natureza;
Por
dentro,
uma
natureza diferente,
produzida
pela água,
em
composição
com
outros elementos.
O que é que uma
caverna
tem a ensinar ou a
ajudar
a interpretar quem
sou,
quem fui,
quem serei?
Quando a água é branca
a alma se manifesta
pura.
Dentro
da caverna,
a
água é transparente,
e
límpida,
refrescante,
curadora,
promotora
de mudanças,
e
formação
de
esculturas artísticas comuns,
e
outras, como símbolos misteriosos.
Assim
é nossa alma,
bela,
transparente,
puríssima,
misteriosa.
Dentro
do nosso corpo,
na
fonte,
a
alma
é
pura, sadia
e
transparente.
A
alma da terra
também
tem suas veias
um
rio subterrâneo,
com
seus contornos e cânticos,
como
o sangue a circular
e
a gerar oxigênio.
Não
seria possível
suportar
o silêncio,
a
solidão da alma,
no
fundo da caverna,
sem
o suave barulho
do
movimento das águas.
A
alma da terra,
é
formada pela harmonia
de
poucos elementos:
o
interior de uma montanha,
espaços
entre a origem do pingo de água
e
o chão, ou receptáculo,
onde
cai a água,
modelando
peças
ou
personagens
que
recebem nomes
por
suas semelhanças
com
objetos que conhecemos.
Não
será esta mesma ação,
o
efeito que a graça
vai
nos modelando,
nos
mantendo úmidos,
maleáveis,
alegres,
vitais,
transformando-nos
em
personagens renovados,
aprontando-nos
para
o mundo novo
que
desejamos?
A
alma
é
composta por grutas,
espaços
insondáveis,
passarelas,
subidas,
descidas,
abismos,
alturas,
labirintos,
salões
enormes,
corredores
sem fim
e
um clima de mistério.
A Caverna do Diabo
possui uma extensão
de
quase seis mil
metros,
explorada e conhecida
apenas por alguns
poucos guias.
É conhecida,
iluminada e visitada
apenas por menos
de quinhentos metros,
onde recebeu algumas
obras,
grades, passarelas,
e iluminação
artificial,
que permitissem
condições de visitas
com segurança.
Quanta
beleza
falta
conhecermos.
Talvez
seja assim
com
a nossa alma,
inexplorada
a
partir da superfície.
Tão
pouco conhecemos dela.
Se
não houver luz artificial,
não
se consegue ver as belezas
estonteantes
que
há na alma
da
Terra.
Se
quiseres aprofundar-se
sobre
as belezas
que
lá existem,
não
tenhas pressa
em
mudar seus passos,
ou
em mudar de lugar.
Já
na primeira vista
é
de petrificar
e
de não acreditar.
É
a força da beleza
a
exercer a sua missão.
É
o gostinho do mistério
a
alargar as brechas da razão.
É
a força do mistério
insistindo
para
entrar,
em
outra dimensão.
A alma da terra,
fala da alma
que mora no nosso corpo.
Que mistério é esse
de uns enxergarem a
beleza,
a existência
e a mensagem da alma,
e outros não?
A
ignorância, a apatia,
ou
a falta de conhecimento
revela-se
como uma venda que colocamos
em
nossos olhos, por opção,
não
permitindo aventuras novas,
aceitação
e exploração
dos
mundos desconhecidos.
E
não é porque não conhecemos
que
teremos a autoridade de dizer,
“não
acredito, não aceito, não existe”.
Abrir-se,
aventurar-se
a
explorar o desconhecido,
funciona
como colírio,
que
ajuda a abrir
os
olhos da alma.
Não
me conformo
em
estar quase no paraíso
e
me comportar
como
se ‘ainda não’ estivesse lá.
Por
isso, busco mais cavernas,
que
me revelem os mistérios
da
minha alma.
Quanta
gente
está
empenhada,
procurando
cavernas,
desejando
encontrar-se
com
a alma perdida.
No
lado de dentro das coisas
está
a verdade,
que
se transforma em beleza,
que
quer ser conhecida e amada.
Beleza
que cativa,
beleza
que faz discurso
sem
pronunciar palavras.
E
convence.
Reside
na alma
o
mapa do caminho.
O
rio que entra na caverna,
faz
caminho, acha uma saída
e
sai enriquecido e promovido.
Se um dia me for
possível sugerir,
o nome mais apropriado
para a Caverna do
Diabo
proponho que seja
“Caverna Alma da
Terra”.
Eneas
Paulo Budel Bogucheski
Criado
em 01/08/2004.
Atualizado
em 09/10/2019.
eneaspb@gmail.com

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