quarta-feira, 23 de outubro de 2019

687.- Retiro. Um retiro programado pelo Espírito Santo.





Nos dias

18, 19 e 20 de outubro 2019,

estivemos reunidos,

em Tijucas do Sul, Paraná,

no Eremitério Santa Clara,

para a realização de um retiro.





Vou contar para vocês

como tudo aconteceu.





Lá estávamos os cinco casais,

dez pessoas.





O drama litúrgico

começou assim:





Primeiro ato:

Tudo programado.





Planejamento, pregador do Retiro,

conteúdo, via Sacra,

Terço Meditado,

Orações impressas,

Folhas de Cantos,

horário de deserto,

de banho, das refeições,

partilha em grupo,

Vigília.





Segundo ato:

O pregador do retiro não veio.



Uma passagem brusca,

do conforto, passividade,

para o desconforto

da responsabilidade.





Quem está envolvido numa crise

recebe junto com ela,

a responsabilidade

para achar uma solução.





O que era para ser

um período de passividade,

desenrolar tranquilo

de uma programação aprovada,

se encaminhou

para um envolvimento ativo,

de cada um

para opinar,

sugerir,

buscar um novo caminho.





O casal responsável

por organizar o retiro

mostrava-se preocupado.





Mil perguntas

passeavam

pela cabeça

de cada um.





Neste cenário

de instabilidade,

encerramos o segundo ato,

deixando a plateia, em suspense.





Fecham-se as cortinas.





Em muitos casos,

o drama termina assim,

sem uma solução.





Os que estão de fora,

não envolvidos,

permanecem

no campo da crítica da peça,

e das pessoas

e nas lamentações.





Terceiro ato:



Um dos participantes

desafiou a equipe,

colocando uma pergunta:





Qual é a leitura

que podemos fazer

desse acontecimento?





Vamos ouvir

as opiniões de cada um.





O primeiro a se manifestar

sugeriu a ideia de fazermos um retiro

totalmente em silêncio,

sem falar nada,

e até exagerou,

pedindo para cada um

colocar uma venda nos olhos

para não vermos nada,

e justificou com a frase:





Fecha os olhos e verás.

Faça silêncio e escutarás.





No vasto campo do espírito,

é assim que se consegue

ver a fé funcionando.





Por respeito ao opinante,

ninguém se manifestou.





Todos ficaram assustados,

pegos de surpresa

com a proposta.





E aumentou ainda mais

a dramaturgia

quando se levantou,

pegou a sua pasta,

e tirou um punhado de folhas,

jogando-as,

esparramadas,

por todo o centro da sala.





E num tom

de dramaticidade e revolta,

exclamou:





Olhem aí, no chão,

estas folhas:

são as programações

e o conteúdo

dos últimos cinco retiros que fiz:

orações prontas,

via-sacra comentada,

terço meditado,

palestras.





O que isso representa?

Representa que fiz retiros

que foram mais

encontros de formação,

palestras em salas de aula,

aulas de teologia,

repetições de orações escritas,

feitas lá no passado.





Os retiros, feitos com fórmulas,

com papéis, com alguém falando

e nós passivamente escutando,

não atendem minhas carências

na minha dimensão filial,

de encontro, com a intimidade

com o nosso paizinho do céu.





Imediatamente lembrei

do Papa João XXIII,

na abertura do Concílio Ecumênico II,

onde ele,

abrindo as janelas escuras

do ambiente fechado

em que vivia a Igreja,

disse:

“Abramos as janelas.

Deixemos entrar

um ar novo

na Igreja”.





Ele se referia

em dar chances para o Espírito Santo

começar a sua missão,

outorgada lá atrás,

pelo próprio Jesus Cristo,

na hora da sua despedida.





Desde lá, o Espírito Santo está preso,

na hierarquia, na burocracia,

palestras, homilias,

e na teologia da Igreja Católica.





Não deixam Ele manifestar-se.





Não dão chances.

Enchem-nos de atividades

e de palavras,

de orientações,

cobranças,

pecados e omissões.





Estamos sempre sendo sobrecarregados

De ‘precisamos’, ‘temos que’,

‘devemos’.





Onde não há criatividade,

o Espírito não consegue

comunicar-se,

expressar-se,

revelar-se.





Nenhum retiro satisfez minha sede,

minha vontade, meu desejo profundo

de me sentar aos pés ou no colo do Jesus,

e em silêncio, sagrado e bendito silêncio,

sentir-me amado.





E finalizou:

essa trágica falta do pregador

quero transformar na maior das bençãos:

ficar a sós,

na maior profundidade

e intimidade possível,

e fazer a experiência de filho,

solicitando o auxílio do Espírito Santo,

santificador, animador, fortalecedor.





E o mais longo silêncio

experimentado por todos nós

se fez presente naquela sala,

e a atitude receptiva

dessa proposta,

nos mostrava

a realidade.





Aí um outro

meio gaguejando,

interrompeu o longo,

demorado,

e angustiante mal-estar,

confessando que não sabe ficar em silêncio,

que precisa estar fazendo algo,

ocupado, ouvindo algum som,

e que só consegue meditar

com algum texto nas mãos.





Nunca me ensinaram a meditar.





Quem poderia, religiosos, os padres,

que também não aprenderam

ou se aprenderam

não tem tempo para ensinar,

pois se ocupam de outras atividades

fora das atividades fins

de pais e pastores,

de quem faz experiências

de proximidade.





Dez pessoas, reunidas numa capela,

sozinhas, inseguras, aflitas

e com medo,

esperávamos

um vento soprar,

ou um ar puro,

para encher

nossos pulmões

e respirar, aliviados.





E mais um,

se manifestou:





Vamos tentar relembrar

as passagens dos evangelhos

que tenham referências

ao Espírito Santo.





Em alguma parte dos Evangelhos

lembro que o Jesus Cristo,

falando para os apóstolos,

disse: “É bom para vocês

que eu vá, porque se eu não for

o Espírito Santo não virá a vós”.





Alguém comentou:

Se veio, está preso,

no lugar do Jesus,

porque ninguém o conhece,

ninguém fala dele.





Então vamos brincar

de bispos e cardeais,

convocar um novo Concílio

sobre o Espírito Santo.





Vamos sair daqui,

fazer um panelaço,

reclamações, estardalhaços,

exigindo a soltura

do Deus Espírito Santo.





É, e vamos pedir para eles

colocarem nos Manuais de Teologia,

o oitavo Dom do Espírito Santo,

a Criatividade,

pois é o que está faltando hoje

no mundo das Igrejas.





O Espírito Santo Veio.





Está aqui, ainda preso,

nos papéis, na burocracia.





Vamos libertá-lo.

dar chances

para Ele expressar-se.





Façamos então,

um Retiro de Silêncio.





E o silêncio é mais fértil

do que homilias, palestras

teologias e roteiros digitalizados,

libertando, dando oportunidades

para que o Espírito se solte

das palavras verbais ou escritas.





As cortinas

se fecharam.





E abriram-se de novo.





O autor da peça apareceu

e pediu para a plateia

alguma sugestão.





E o silêncio

de novo se fez presente.





Se você está presente,

questione-se sobre esta peça,

converse com alguém

ou entre em contato comigo

comentando ou sugerindo

correções, cortes

ou continuidade para o texto.





Eneas Paulo Budel Bogucheski

Criado em 23/10/2019.

eneaspb@gmail.com

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