Nos dias
18,
19 e 20 de outubro 2019,
estivemos
reunidos,
em
Tijucas do Sul, Paraná,
no
Eremitério Santa Clara,
para
a realização de um retiro.
Vou
contar para vocês
como
tudo aconteceu.
Lá
estávamos os cinco casais,
dez
pessoas.
O
drama litúrgico
começou
assim:
Primeiro
ato:
Tudo
programado.
Planejamento,
pregador do Retiro,
conteúdo,
via Sacra,
Terço
Meditado,
Orações
impressas,
Folhas
de Cantos,
horário
de deserto,
de
banho, das refeições,
partilha
em grupo,
Vigília.
Segundo
ato:
O
pregador do retiro não veio.
Uma
passagem brusca,
do
conforto, passividade,
para
o desconforto
da
responsabilidade.
Quem
está envolvido numa crise
recebe
junto com ela,
a
responsabilidade
para
achar uma solução.
O
que era para ser
um
período de passividade,
desenrolar
tranquilo
de
uma programação aprovada,
se
encaminhou
para
um envolvimento ativo,
de
cada um
para
opinar,
sugerir,
buscar
um novo caminho.
O
casal responsável
por
organizar o retiro
mostrava-se
preocupado.
Mil
perguntas
passeavam
pela
cabeça
de
cada um.
Neste
cenário
de
instabilidade,
encerramos
o segundo ato,
deixando
a plateia, em suspense.
Fecham-se
as cortinas.
Em
muitos casos,
o
drama termina assim,
sem
uma solução.
Os
que estão de fora,
não
envolvidos,
permanecem
no
campo da crítica da peça,
e
das pessoas
e
nas lamentações.
Terceiro
ato:
Um
dos participantes
desafiou
a equipe,
colocando
uma pergunta:
Qual
é a leitura
que
podemos fazer
desse
acontecimento?
Vamos
ouvir
as
opiniões de cada um.
O
primeiro a se manifestar
sugeriu
a ideia de fazermos um retiro
totalmente
em silêncio,
sem
falar nada,
e
até exagerou,
pedindo
para cada um
colocar
uma venda nos olhos
para
não vermos nada,
e
justificou com a frase:
Fecha
os olhos e verás.
Faça
silêncio e escutarás.
No
vasto campo do espírito,
é
assim que se consegue
ver
a fé funcionando.
Por
respeito ao opinante,
ninguém
se manifestou.
Todos
ficaram assustados,
pegos
de surpresa
com
a proposta.
E
aumentou ainda mais
a
dramaturgia
quando
se levantou,
pegou
a sua pasta,
e
tirou um punhado de folhas,
jogando-as,
esparramadas,
por
todo o centro da sala.
E
num tom
de
dramaticidade e revolta,
exclamou:
Olhem
aí, no chão,
estas
folhas:
são
as programações
e
o conteúdo
dos
últimos cinco retiros que fiz:
orações
prontas,
via-sacra
comentada,
terço
meditado,
palestras.
O
que isso representa?
Representa
que fiz retiros
que
foram mais
encontros
de formação,
palestras
em salas de aula,
aulas
de teologia,
repetições
de orações escritas,
feitas
lá no passado.
Os
retiros, feitos com fórmulas,
com
papéis, com alguém falando
e
nós passivamente escutando,
não
atendem minhas carências
na
minha dimensão filial,
de
encontro, com a intimidade
com
o nosso paizinho do céu.
Imediatamente lembrei
do Papa João XXIII,
na abertura do Concílio Ecumênico II,
onde ele,
abrindo as janelas escuras
do ambiente fechado
em que vivia a Igreja,
disse:
“Abramos as janelas.
Deixemos entrar
um ar novo
na Igreja”.
Ele se referia
em dar chances para o Espírito Santo
começar a sua missão,
outorgada lá atrás,
pelo próprio Jesus Cristo,
na hora da sua despedida.
Desde lá, o Espírito Santo está preso,
na hierarquia, na burocracia,
palestras, homilias,
e na teologia da Igreja Católica.
Não deixam Ele manifestar-se.
Não dão chances.
Enchem-nos de atividades
e de palavras,
de orientações,
cobranças,
pecados e omissões.
Estamos sempre sendo sobrecarregados
De ‘precisamos’, ‘temos que’,
‘devemos’.
Onde não há criatividade,
o Espírito não consegue
comunicar-se,
expressar-se,
revelar-se.
Nenhum
retiro satisfez minha sede,
minha
vontade, meu desejo profundo
de
me sentar aos pés ou no colo do Jesus,
e
em silêncio, sagrado e bendito silêncio,
sentir-me
amado.
E
finalizou:
essa
trágica falta do pregador
quero
transformar na maior das bençãos:
ficar
a sós,
na
maior profundidade
e
intimidade possível,
e
fazer a experiência de filho,
solicitando
o auxílio do Espírito Santo,
santificador,
animador, fortalecedor.
E
o mais longo silêncio
experimentado
por todos nós
se
fez presente naquela sala,
e
a atitude receptiva
dessa
proposta,
nos
mostrava
a
realidade.
Aí
um outro
meio
gaguejando,
interrompeu
o longo,
demorado,
e
angustiante mal-estar,
confessando
que não sabe ficar em silêncio,
que
precisa estar fazendo algo,
ocupado,
ouvindo algum som,
e
que só consegue meditar
com
algum texto nas mãos.
Nunca
me ensinaram a meditar.
Quem
poderia, religiosos, os padres,
que
também não aprenderam
ou
se aprenderam
não
tem tempo para ensinar,
pois
se ocupam de outras atividades
fora
das atividades fins
de
pais e pastores,
de
quem faz experiências
de
proximidade.
Dez
pessoas, reunidas numa capela,
sozinhas,
inseguras, aflitas
e
com medo,
esperávamos
um
vento soprar,
ou
um ar puro,
para
encher
nossos
pulmões
e
respirar, aliviados.
E
mais um,
se
manifestou:
Vamos
tentar relembrar
as
passagens dos evangelhos
que
tenham referências
ao
Espírito Santo.
Em
alguma parte dos Evangelhos
lembro
que o Jesus Cristo,
falando
para os apóstolos,
disse:
“É bom para vocês
que
eu vá, porque se eu não for
o
Espírito Santo não virá a vós”.
Alguém
comentou:
Se
veio, está preso,
no
lugar do Jesus,
porque
ninguém o conhece,
ninguém
fala dele.
Então
vamos brincar
de
bispos e cardeais,
convocar
um novo Concílio
sobre
o Espírito Santo.
Vamos
sair daqui,
fazer
um panelaço,
reclamações,
estardalhaços,
exigindo
a soltura
do
Deus Espírito Santo.
É,
e vamos pedir para eles
colocarem
nos Manuais de Teologia,
o
oitavo Dom do Espírito Santo,
a
Criatividade,
pois
é o que está faltando hoje
no
mundo das Igrejas.
O
Espírito Santo Veio.
Está
aqui, ainda preso,
nos
papéis, na burocracia.
Vamos
libertá-lo.
dar
chances
para
Ele expressar-se.
Façamos
então,
um
Retiro de Silêncio.
E
o silêncio é mais fértil
do
que homilias, palestras
teologias
e roteiros digitalizados,
libertando,
dando oportunidades
para
que o Espírito se solte
das
palavras verbais ou escritas.
As
cortinas
se
fecharam.
E
abriram-se de novo.
O
autor da peça apareceu
e pediu para a plateia
alguma
sugestão.
E o silêncio
de
novo se fez presente.
Se
você está presente,
questione-se
sobre esta peça,
converse
com alguém
ou
entre em contato comigo
comentando
ou sugerindo
correções,
cortes
ou
continuidade para o texto.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Criado em 23/10/2019.
eneaspb@gmail.com

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