quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

187.- Gratis. Gratuidade. Tudo é gratuidade. Curtindo o tempo presente.

 
 

Chegou o dia,

tinha de chegar,

em que compreendi

um montão de coisas.

 

 

Percebi, por exemplo,

que as reais necessidades,

as necessidades mais importantes

para a nossa vida é a saúde,

a vida, o sol, a chuva, o vento, a água

o dia e a noite, o chuveiro elétrico,

uma cama confortável, uma casinha

ou apartamento, comida, bebida, alegria

e alguém muito querido(a) com conviver

e partilhar todas estas coisas. Degustar a vida, cheios de vida. Partilhar a alegria de viver feliz.

 

Aí,

um amigo,

escutando-me,

olhando-me espantado,

com cara de decepcionado,

perguntou se eu conseguiria viver feliz

só com isso.

 

Sim, isto é o básico.

 

Só com ‘tudo isto’

já vale a pena ter existido.

 

“Cara,

você está fora do mundo.

Isso é idealismo infantil,

coisa de criança.

Você parece que amadureceu

e não olha para o mundo

que está aí, no teu nariz”.

 

Olhei para ele,

com aquele jeito de criança teimosa

e retruquei:

Quero continuar com este espírito,

com esta visão.

 

Por favor,

permita-me que eu seja assim.

 

Permita-me

que eu continue pensando assim.

 

Acho que permanece em mim

alguma coisa das crianças,

pois continuo me perguntando

onde está a lógica dos adultos.

 

Como pode ter lógica

aquilo que a maioria dos adultos dizem:

Sem dinheiro nada sou’,

sem dinheiro nada se consegue’,

com dinheiro tudo se compra’, ‘

com dinheiro todos os problemas se resolvem ...’.

 

Com este meu espírito infantil

percebi que com dinheiro

não compro a sabedoria da vida.

 

 

Sem a ambição do dinheiro

percebi que as melhores coisas da vida

são grátis.

 

 

As zonas mais profundas

da minha personalidade

sintonizavam e orientavam

para a gratuidade, para a bondade,

para a beleza da vida,

acompanhados da autenticidade,

da alegria, da amizade e do bom humor.

 

 

Não é necessário ter posses e dinheiro

para curtir a vida, o sol, a praia,

o vento suave, o calor gostoso,

os passeios nas florestas e nos parques,

escutar sons da natureza, dos pássaros,

dos riachos, das músicas selecionadas ...

 

 

Quase passei para o time

das pessoas sérias

que tentaram me amadurecer

para a vida,

para as preocupações

dos adultos enfezados,

estressados,

apressados em adoecer,

esquecendo de curtir

os presentes do momento presente.

 

Quanto custa?

Quanto devo?

 

 

Colecionadores de coisas.

 

 

Colecionadores de dívidas.

 

 

Eis o time dos apegados,

dos espíritos aprisionados,

dos mal humorados.

 

 

Sempre no prejuízo,

perdendo os presentes

do momento bem presente.

 

 

Inversão de valores.

 

 

Poluição

provocada pela cultura

do conforto e do consumo.

 

 

Onde está dormindo a consciência?

 

 

Se não estamos acordados,

estamos com o piloto automático ligado,

isto é, a subconsciência está no comando

e ela não sabe tomar decisões.

 

A subconsciência mora no porão,

escondida

e não gosta de sair do comodismo,

da zona do conforto.

 

 

Prefere as ilusões,

os sonhos, à realidade visível

e palpável.

 

Quase caí nos laços das propagandas.

Mesmo absorvido pelas avalanches

dos meios de comunicação,

dentro da bolha barulhenta,

prestei atenção, olhando lá para fora.

 

 

Será que sou eu

o errado?

 

 

Algo em mim gritava

por algo mais valioso.

 

 

Olhei de novo para fora de mim

e percebi o brilho do sol,

a bondade da vida,

a simplicidade das crianças,

brincando.

 

 

Olhei de novo

para dentro da bolha barulhenta

e vi os homens e mulheres correndo,

apressadas,

buzinando,

expressando o estresse

provocado pelas escolhas inconscientes.

 

 

 

Observando

para fora de mim

percebi que todas as coisas da natureza funcionam como despertadores,

como alertas, como convites, avisando:

saia para fora desta bolha,

reveja teus objetivos egoísticos;

perceba no que é que você está apegado;

pare de julgar a vida e os outros;

não resista;

tenha paciência histórica;

não se mate antes do tempo;

dê tempo ao tempo

para conquistar teus ideais;

aproveite o momento presente,

como um presente,

curta a vida, minuto após minuto ...”.

 

Olhei de novo para fora

e meus olhos perfeitos

mostraram-me um mundo de atrações.

 

O mundo, o cosmo, os astros celestes,

do nascer ao pôr do sol,

aparecem

como uma grande orquestra

tocando a sinfonia dos presentes,

dos sons e cores.

 

 

Aí sim, voltei-me para dentro

e percebi-me como um ser tão pequeno,

e ao mesmo tempo,

sujeito e objeto de tantos tesouros.

 

Existem momentos em nossa vida

em que vislumbramos,

em um segundo,

as realidades que nos cercam,

como se as estivéssemos vendo

pela primeira vez.

Neste segundo

nós perdemos a noção do tempo

e ficamos apenas admirando.

 

Admirar e adorar

é sair de si.

 

É praticar o melhor remédio

contra a depressão e o negativismo.

 

Adorar e admirar

é olhar para aquilo

que tem um conjunto de forma,

cor, textura, brilho, sombras, ...

diversos valores

que dão unidade

ao objeto que admiramos.

 

Admirar

é ver as realidades externas

com a mesma intensidade de emoção

que um cego

no momento em que recupera

a visão.

 

Do admirar

a pessoa percebe que tem um coração.

 

O coração

faz parte ou é a sede das emoções.

 

Para emocionar-se

é preciso sair de si,

contemplar,

admirar,

louvar,

amar.

 

Nestas boas experiências

gostaríamos de permanecer

o maior tempo possível.

 

Muitas pessoas

desejariam pagar

uma fabulosa soma de dinheiro

para ter experiências neste nível.

 

As reais necessidades das pessoas

que vivem neste universo

são tão inestimáveis

como os raios do sol

e são tão gratuitas

como a água e o ar que respiramos

e que nos permitem continuar vivendo.

 

Você nasceu e recebeu o dom da vida, gratuitamente.

 

Perceba esta maravilha.

 

Você já imaginou se,

ao nascer,

todo ser humano tivesse

que pagar uma taxa mensal

para continuar vivendo? –

 

Ou paga ou morre.

 

Felizmente não é assim.

 

Você não paga nada

e continua vivendo neste mundo

cheio de presentes para você.

 

Só falta você viver estes presentes,
presentemente.

 

 

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski


Atualizado em 26/05/2016.
 
 

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