Chegou o dia,
tinha de chegar,
em que compreendi
um montão de coisas.
Percebi, por exemplo,
que as reais
necessidades,
as necessidades mais
importantes
para a nossa vida é a
saúde,
a vida, o sol, a
chuva, o vento, a água
o dia e a noite, o
chuveiro elétrico,
uma cama confortável,
uma casinha
ou apartamento,
comida, bebida, alegria
e alguém muito
querido(a) com conviver
e partilhar todas
estas coisas. Degustar a vida, cheios de vida. Partilhar a alegria de viver
feliz.
Aí,
um amigo,
escutando-me,
olhando-me espantado,
com cara de
decepcionado,
perguntou se eu
conseguiria viver feliz
só com isso.
Sim, isto é o básico.
Só com ‘tudo isto’
já vale a pena ter
existido.
“Cara,
você está fora do
mundo.
Isso é idealismo
infantil,
coisa de criança.
Você parece que
amadureceu
e não olha para o
mundo
que está aí, no teu
nariz”.
Olhei para ele,
com aquele jeito de
criança teimosa
e retruquei:
Quero continuar com
este espírito,
com esta visão.
Por favor,
permita-me que eu
seja assim.
Permita-me
que eu continue
pensando assim.
Acho que permanece em
mim
alguma coisa das
crianças,
pois continuo me
perguntando
onde está a lógica
dos adultos.
Como pode ter lógica
aquilo que a maioria
dos adultos dizem:
“Sem dinheiro nada
sou’,
‘sem dinheiro nada
se consegue’,
com dinheiro tudo se
compra’, ‘
com dinheiro todos os
problemas se resolvem ...’.
Com este meu espírito
infantil
percebi que com
dinheiro
não compro a
sabedoria da vida.
Sem a ambição do
dinheiro
percebi que as
melhores coisas da vida
são grátis.
As zonas mais
profundas
da minha
personalidade
sintonizavam e
orientavam
para a gratuidade, para
a bondade,
para a beleza da
vida,
acompanhados da
autenticidade,
da alegria, da
amizade e do bom humor.
Não é necessário ter
posses e dinheiro
para curtir a vida, o
sol, a praia,
o vento suave, o
calor gostoso,
os passeios nas
florestas e nos parques,
escutar sons da
natureza, dos pássaros,
dos riachos, das
músicas selecionadas ...
Quase passei para o
time
das pessoas sérias
que tentaram me
amadurecer
para a vida,
para as preocupações
dos adultos
enfezados,
estressados,
apressados em
adoecer,
esquecendo de curtir
os presentes do
momento presente.
Quanto custa?
Quanto devo?
Colecionadores de
coisas.
Colecionadores de
dívidas.
Eis o time dos
apegados,
dos espíritos
aprisionados,
dos mal humorados.
Sempre no prejuízo,
perdendo os presentes
do momento bem
presente.
Inversão de valores.
Poluição
provocada pela cultura
do conforto e do
consumo.
Onde está dormindo a
consciência?
Se não estamos
acordados,
estamos com o piloto
automático ligado,
isto é, a
subconsciência está no comando
e ela não sabe tomar
decisões.
A subconsciência mora
no porão,
escondida
e não gosta de sair
do comodismo,
da zona do conforto.
Prefere as ilusões,
os sonhos, à
realidade visível
e palpável.
Quase caí nos laços
das propagandas.
Mesmo absorvido pelas
avalanches
dos meios de
comunicação,
dentro da bolha
barulhenta,
prestei atenção,
olhando lá para fora.
Será que sou eu
o errado?
Algo em mim gritava
por algo mais valioso.
Olhei de novo para
fora de mim
e percebi o brilho do
sol,
a bondade da vida,
a simplicidade das
crianças,
brincando.
Olhei de novo
para dentro da bolha
barulhenta
e vi os homens e
mulheres correndo,
apressadas,
buzinando,
expressando o
estresse
provocado pelas
escolhas inconscientes.
Observando
para fora de mim
percebi que todas as
coisas da natureza funcionam como despertadores,
como alertas, como
convites, avisando:
“saia para fora
desta bolha,
reveja teus objetivos
egoísticos;
perceba no que é que
você está apegado;
pare de julgar a vida
e os outros;
não resista;
tenha paciência
histórica;
não se mate antes do
tempo;
dê tempo ao tempo
para conquistar teus
ideais;
aproveite o momento
presente,
como um presente,
curta a vida, minuto
após minuto ...”.
Olhei de novo para
fora
e meus olhos
perfeitos
mostraram-me um mundo
de atrações.
O mundo, o cosmo, os
astros celestes,
do nascer ao pôr do
sol,
aparecem
como uma grande
orquestra
tocando a sinfonia
dos presentes,
dos sons e cores.
Aí sim, voltei-me
para dentro
e percebi-me como um
ser tão pequeno,
e ao mesmo tempo,
sujeito e objeto de
tantos tesouros.
Existem momentos em
nossa vida
em que vislumbramos,
em um segundo,
as realidades que nos
cercam,
como se as
estivéssemos vendo
pela primeira vez.
Neste segundo
nós perdemos a noção
do tempo
e ficamos apenas
admirando.
Admirar e adorar
é sair de si.
É praticar o melhor
remédio
contra a depressão e
o negativismo.
Adorar e admirar
é olhar para aquilo
que tem um conjunto
de forma,
cor, textura, brilho,
sombras, ...
diversos valores
que dão unidade
ao objeto que
admiramos.
Admirar
é ver as realidades
externas
com a mesma
intensidade de emoção
que um cego
no momento em que
recupera
a visão.
Do admirar
a pessoa percebe que
tem um coração.
O coração
faz parte ou é a sede
das emoções.
Para emocionar-se
é preciso sair de si,
contemplar,
admirar,
louvar,
amar.
Nestas boas
experiências
gostaríamos de
permanecer
o maior tempo
possível.
Muitas pessoas
desejariam pagar
uma fabulosa soma de
dinheiro
para ter experiências
neste nível.
As reais necessidades
das pessoas
que vivem neste
universo
são tão inestimáveis
como os raios do sol
e são tão gratuitas
como a água e o ar
que respiramos
e que nos permitem
continuar vivendo.
Você nasceu e recebeu
o dom da vida, gratuitamente.
Perceba esta
maravilha.
Você já imaginou se,
ao nascer,
todo ser humano
tivesse
que pagar uma taxa
mensal
para continuar
vivendo? –
Ou paga ou morre.
Felizmente não é
assim.
Você não paga nada
e continua vivendo
neste mundo
cheio de presentes
para você.
Só falta você viver
estes presentes,
presentemente.
Eneas
Paulo Budel Bogucheski
Atualizado
em 26/05/2016.
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