quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

522.- Não sou daqui. Estou de passagem. Tenho sentimentos de estrangeiro.



 

Engraçado este pressentimento,

essa sensação de me sentir

como se estivesse num país estrangeiro.

 

Não consigo me apegar nas coisas,

na geografia nem na cultura.

 

Tudo me parece tão familiar

e ao mesmo tempo, tão estranho.

 

Meus sentimentos,

minhas sensações

são tão passageiras

que não permitem tempo

para fincar raízes,

para estabelecer ligações

com a natureza nem com as pessoas.

 

Como é esquisita esse tipo de percepção,

que me mantém, assim, tipo desligado,

fora de órbita, desorientado, esquisito,

como se estivesse longe do meu país,

como se estivesse em lugar estranho,

fora do ninho, faltando aconchego.

 

Quantas e quantas vezes

já saí por aí, de madrugada

transportando-me lá para as estrelas,

passeando pelo infinito,

cavalgando nas asas da imaginação,

e em companhia do silêncio.

 

E como desperto, burrento,

com o barulho do mundo,

logo ao clarear do dia.

 

Quando acordo,

me sinto estranho,

como um estrangeiro,

longe da Pátria celeste.

 

Acho mesmo,

que não sou daqui.

 

Se daqui eu fosse,

seria muito mais sossegado.

 

Tem coisa dentro de mim

que cutuca a preguiça,

que desperta outro bicho,

escondido,

dentro da natureza humana,

projetada

para novos horizontes,

novos espaços,

novo jeito de ser,

ainda desconhecido.

 

Não me acostumo

com minhas limitações.

 

Meus limites temporários coçam,

 provocam inquietações,

fazem-me desejar

superar depressa

essa condição humana,

limitado pelos dois pés.

 

De vez em sempre,

experimento-me,

curtindo,

uma expectativa,

uma esperança,

ou uma ânsia,

uma saudade,

que parece

não ser minha,

uma sensação

de que não sou daqui.

 


Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 13/01/2019
Atualizado em 0/01/2024

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