quinta-feira, 27 de março de 2014

106.- Tias. A escola das nossas tias.



             Você conhece bem,
             bem mesmo, 
             todas as suas tias?

Acho que sim,
mas tem gente
que ainda não conhece.

Vou apresentá-las.

Mas antes de conversar sobre elas 
vamos colocar um princípio 
que vai nos ajudar a penetrar mais profundamente 
na raiz da personalidade de cada uma delas.


"Todo ser como tal é bom,
isto é, é capaz de satisfazer
as necessidades de um outro ser
e de lhe comunicar
as perfeições que lhe faltam."
Aristóteles.

Dentro da área da psicologia humana 
estamos sempre esperando, 
desejando e procurando 
padrões de relacionamentos perfeitos, 
alegres, cordiais, afetivos e carinhosos, 
carregados de emoções 
e extravasando entusiasmo.

Minha mãe sugeriu 
que eu fosse visitar as irmãs dela 
para aprender, com cada uma, 
algumas lições importantes. 

     Ops! ... quase esquece de avisar, 
     cada uma das minhas tias 
     é diretora de uma escola.

     Lá fui eu ...

Na ida, enquanto caminhava (fui a pé), 
fui pensando com meus botões: 
Qual é o tipo de relacionamento 
que mais gostamos?

     Qual o tipo ideal de relacionamento?

Toda e qualquer pessoa
por mais madura que seja,
que não pratica a arte
do relacionamento suave e sábio,
justo e amoroso, leve e profundo,
com as outras pessoas,
consciente ou inconscientemente,
sentirá muita dificuldade nos seus relacionamentos. 

Temos, portanto,
muitas lições para aprender
com nossas “tias”.

      Para facilitar nosso relacionamento 
      com nossos irmãos, 
      fui pesquisar as fundamentações 
      do nosso relacionamento.

Por que algumas pessoas 
vencem fácil na vida, 
às vezes sem muito estudo?

Acho que a resposta é a seguinte: 
É só dizer ‘sim’ para a tia.

         Gostaria de apresentar a nossa família.
         Todos nós temos quatro tias ... ou mais.

A mãe de todas se chama Patia. 
Se você for procurar 
a raiz grega ou latina do termo ‘patia’ 
vai aprender que a palavra significa
‘comportamento’.  

Antecipando todo o texto, 
resumimos dizendo que a pessoa 
pode ter um comportamento simpático, 
gostoso, alegre, suave, atraente, 
dentro do contexto de sim-patia.

Quando a pessoa se identifica 
com o comportamento do outro,
quando entende o outro,
quando compreende o outro,
quando ri com o outro,
quando chora com o outro,
dizemos que está havendo
um comportamento
ou relacionamento
de em-patia,
empático, isto é,
sentir o mesmo que o outro.

Quando o nosso comportamento
é de total indiferença diante do outro,
quando estamos com o outro,
na frente do outro,
e estamos pensando outras coisas,
como quem está fora da órbita,
fora de sintonia,
estamos demonstrando
o quanto a Tia Apatia
exerceu influência
na formação ou deformação
da estrutura da personalidade,
prejudicando, empobrecendo
e provocando rupturas
em nosso próximo
bem próximo.

     Finalmente,
     a tia rejeitada
também tem que ser apresentada.
Ela se apresenta ou melhor,
ela se esconde
atrás de uma roupagem
que não é dela.
Nem é necessário falar
da tia Antipatia
porque ela é muito conhecida
      e reconhecida, e, rejeitada. 

Portanto, agora apresentadas, 
estaremos a falar das tias:

A tia Simpatia.
A tia Empatia.
A tia Apatia.
A tia Antipatia.

Vamos procurar conhece-las 
um pouco mais profundamente 
e perceber que elas 
influenciaram demais 
a formação do nosso caráter 
e personalidade.

Muitas das nossas atitudes 
se encaixam dentro do jeitão 
de cada uma delas.

Em cada uma delas
encontramos identificações.

Com algumas
cultivamos e mantemos
proximidade e amizade.

Com a outra não damos bola nenhuma 
e a outra até tentamos excluir da família. 
Tentamos ...

Vocês já perceberam que a tia-mãe, 
a tia Patia
é aquela que se apresenta 
com o comportamento normal.

Nas outras tias, em cada uma, 
há um diferencial bem visível, 
que provoca em nós reações 
boas e menos boas. 

          Estamos agora a falar
          da tia Simpa.

Na tia Simpatia
encontramos atração,
ou aproximação cativante.

Simpatia o que é? 
É uma relação fisiológica entre dois órgãos 
mais ou menos afastados; 
é uma tendência instintiva 
para uma pessoa ou para uma coisa; 
é uma inclinação recíproca 
entre duas pessoas 
ou entre duas coisas ou mais; 
é uma correspondência; é afinidade.

Esta é uma das nossas tias preferidas. 
Dá gosto conviver com ela. 

Viver é sentir, e sentir é captar
o valor das coisas, é sentir-se atraído.

Valor é o caráter precioso dos seres; 
é aquilo que os torna dignos de ser, 
e os faz apetecíveis. 

A tia Simpatia
conquista, comove,
convence e agrada mais.

Na tia Empatia 
encontramos e efetuamos 
uma relação de identificação.

São emoções e comportamentos sadios, 
benéficos, enriquecedores, 
em relação a outra pessoa.

É identificação. É o sentir junto com.

Significa dançar no ritmo da música;
é um sentir-se afetado positiva
e entusiasticamente
pela própria existência
e pelo mundo todo;
é principalmente
um fazer-se ativo
e tomar a iniciativa de sentir
e de identificar-se com a realidade sentida.

É aquela força
que nos faz buscar
a união com as coisas
que sentimos e apreciamos,
com nossa própria realização,
com as pessoas significativas
de nossos contatos,
com nossos ideais,
com nossa vocação,
com o nosso Pai celestial,
fonte, razão, origem e fim
do nosso existir.

A tia Empatia é responsável
pela inspiração do artista e do poeta.

É responsável pela mística
que abrasa o cientista
em busca de fórmulas
decifradoras das estruturas do real.

A tia Empatia
não significa apenas um sentir,
mas um consentir.

Não significa
apenas um dar-se conta
da paixão do mundo,
mas ter compaixão.

A tia Empatia
não é um viver enriquecido
com sensibilidade,
mas é um conviver,
um  simpatizar,
e entrar em comunhão.

A tia Empatia quer é unir
o sujeito com o objeto,
com compaixão,
entusiasmo e com ardência.

A tia Empatia
é geradora da fantasia,
da criatividade,
da irrupção do novo,
do surpreendente,
do maravilhoso.

A tia Empatia
é um impulso permanente
para a busca do mais alto ideal,
para cima,
para o mais belo,
para o mais verdadeiro,
para o mais justo,
para o mais humano,
para o mais divino.

É através da tia Empatia
que conseguimos nos aproximar
do nosso Pai do céu.

A tia Empatia
nos arrebata
para os vôos místicos
da união com o nossa origem,
em êxtase.

Pensar como Jesus pensa.
Amar como Jesus amou e ama.
Ver o mundo com os olhos do Jesus.

A tia Empatia
possui um monte de filhas,
primos e afilhados.

A tia Empatia
é a mãe da ternura
e do cuidado.

O cuidado e a ternura
são dois irmãos inseparáveis,
compassivos, capaz de sentir
e comungar com todos os outros,
descansar no colo do irmão Carinho
ou do irmão Amor.

Estes irmãos,
primos e primas,
exigem atenção ao outro,
um estar atento
à sua estrutura,
mostrar solicitude,
andar e crescer juntos.

A ternura e o cuidado
possuem mais um parente
muito próximo
que se chama
Espírito de Fineza.

O ser humano
quando ativa a sua afetividade,
desperta o espírito de fineza.

O espírito de fineza
produz a cordialidade,
que é sinônimo de ternura e cuidado.

A afetividade racional
é a capacidade do ser humano
de captar o caráter de valor do ser,
seu fascínio e seu  brilho.

O ser humano,
quando usa sua afetividade,
aciona o coração
e as virtudes fundamentais
da existência humana.

O coração ou a afetividade
e o espírito de fineza
constituem
os personagens mais importantes
do ser humano.

Estes personagens
são responsáveis
por uma cultura
que humaniza e aperfeiçoa
os passos seguintes
em direção àquilo
que nos plenificará.

É a afetividade
e toda a família
originária da matriarca bondade
e do patriarca amor,
que vieram as outras filhas e filhos
como a Ternura,
o Cuidado, o Carinho,
a Atenção, a Fineza,
as Compreensões e Aceitações
que criam o universo
das excelências,
das significações existenciais,
daquilo que vale
e ganha importância,
em função da qual
se pode sacrificar o tempo
e empenhar a própria vida.

A raiz básica da nossa crise cultural 
reside na aterradora falta 
de ternura e de carinho 
uns para com os outros.

Martim Heidegger, filósofo alemão, 
considera a ternura e o cuidado 
como os dois fenômenos estruturantes 
da existência humana.


      Recomendo a leitura do livro:
      “Saber Cuidar”,
      do escritor Leonardo Boff,
      publicado pela Editora Vozes,
      para aprofundar e enriquecer
      este saboroso tema do cuidado,
      cuidado como atenção,
      como concentração maternal
      sobre o querido filho.

Foi a partir da leitura deste livro 
que tomei a decisão de montar este texto 
sobre as tias.

Na tia Apatia 
percebemos nela a indiferença, 
a insensibilidade, a frieza, a falta de energia.

Ela é a geladeira lá de casa. 

A frieza, a falta de entusiasmo pela vida, 
o sentimento de que nada tem importância, 
é comportamento típico dela.

É a tia do vasto campo da indiferença.

Não dá para contar com ela 
para quase nada. 
É tudo do contra. 

Não quero fofocar, 
mas tem gente que falou o seguinte sobre ela: 
O pior pecado contra nossos semelhantes 
não é o de odiá-los, 
mas de sermos indiferentes para com eles”, 
disse o escritor irlandês George Bernard Shaw.

E, finalmente, não podemos de deixar de falar 
da tia Antipatia.

Ela também é da nossa família.

Toda vez que queremos falar com ela, 
nos deparamos com a rejeição.

Ela nem nos percebe.
Nem liga para nós.
Ela até nos rejeita.

A tia Antipatia 
utiliza um comportamento 
de aversão espontânea e instintiva. 
Ao nos olhar, demonstra repugnância. 

É a tia oposta à simpatia.

Vamos dar uma de antipáticos, 
recusando-nos a falar sobre ela. 
Ela não tem nada mesmo 
que atrai nossa atenção 
ou exerça atração.

A tia Antipatia, 
mesmo com diplomas e capacidades extras, 
não agrada.

“Pessoas antipáticas
apresentam determinados comportamentos
que despertam sentimentos negativos
e hostis com relação a elas.
A boa notícia
é que mudando o comportamento
(e comportamentos são gerenciáveis),
essas mesmas pessoas
podem tornar-se simpáticas
e fazer com que sua vida
fique mais fácil”.
José Antônio Rosa


Enriqueceremos a nossa existência 
com a companhia das nossas boas titias.


A tia Empatia e a tia Simpatia,
juntas, geram o fascínio e a atração.


Produzem a ânsia, o desejo
e a eterna procura da expansão.

 
São as manifestações
da vida do espírito
que jamais se apresenta
como algo pronto e feito,
mas como um processo
e projeto sempre se fazendo,
se aprofundando,
buscando formas novas
e alçando-as para além
de qualquer determinação.


Ao entrar em contato 
com nossas boas tias, 
percebemos o quanto elas são importantes 
como educadoras.

Aceitando e acolhendo-as 
para conviverem conosco, 
elas vão facilitar nossos passos 
nos caminhos desta vida.


Onde se encontram
todos estes parentes?


Por aí, onde existam pessoas
ocupadas e preocupadas
com sementes que alegram,
constroem e imortalizam.

Estão nas bibliotecas,
nas escolas,
nas faculdades, Universidades,
Igrejas ou templos,
nas famílias,
nos grupos organizados,
nos movimentos de casais,
nos cursos de aperfeiçoamento.

Estão lá, onde se vive como irmãos,
como parentes bem próximos.


Estes nossos parentes e amigos,
muito queridos,
imortalizam
porque possuem valores
visíveis e invisíveis,
que projetam
para além das fronteiras materiais.

Você logo nota:
estão sempre ocupados
e preocupados
com as coisas importantes
da vida.

As coisas mais importantes 
não dizem respeito 
somente a esta vida que vemos.

A partir das coisas que se vêem,
nossas tias, primos e parentes
constroem pontes ou trampolins
para as coisas que não se veem.

Elas ensinam
que os valores principais
conquistam-se com relacionamentos
na esfera do amor,
na profundidade da fé,
nas alturas das esperanças
e nas obras da caridade,
aplicadas no campo da vida,
no dia-a-dia.

Cada ser humano é um irmão.

Cada irmão é um parente carente,
como eu e você.

Ninguém é completo sozinho.
Ninguém se realiza sozinho.

Vivemos uns ao lado dos outros,
por isso valorizamos imensamente 
nossos relacionamentos,
aprendidos com nossas TI-TIAS.


Eneas Paulo Budel Bogucheski.

Atualizado em 21/03/2016.
Atualizado em 12/04/2026

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