sexta-feira, 14 de março de 2014

96.- Riqueza. Paradoxo entre riqueza e pobreza.



Um dos recursos valiosos
da pedagogia da cultura oriental
é ensinar através dos paradoxos.

 
Neste texto
vamos procurar perceber
como esta pedagogia
pode ter resultados surpreendentes
em nossa maneira de ver as coisas.

 
Fazendo uma leitura
da sociedade da qual fazemos parte,
percebemos que não aprendemos ainda,
a viver a vida
dentro das excelentes regras
da convivência humana.

 
As influências da sociedade 
econômica e capitalista
nos transformaram
em consumidores.

 
Criaram necessidades perucas
e sufocaram as necessidades essenciais
do ser humano.

 
Elegeram o dinheiro
como moeda corrente
da felicidade e da realização humana.

 
E o quanto nos despersonalizamos
porque fazemos do dinheiro,
e de tudo o que a ele está relacionado,
o deus das nossas vidas.

 
A consequência desta escolha
é a transformação dos nossos irmãos
em concorrentes e inimigos.

 
A Sociologia
criou as classes sociais.

 
As diferenças nas classes sociais
são fundamentadas no dinheiro.

 
A diferença entre rico e pobre
é medida pela quantidade de dinheiro
que cada um demonstra possuir.

 
Os primeiros lugares
e os privilégios
estão nas mãos
de quem tem mais dinheiro.

 
Aquele que possui mais dinheiro
tem mais cultura, mais conhecimento,
mais influência, mais acesso às conquistas
e por isso tem mais poder.



Mas é interessante observar
que o dinheiro escraviza.

 
O pobre é livre.
O rico é escravo.


É um paradoxo interessante.

 
O rico é triste.
O pobre é feliz.

 
O dinheiro
cria desigualdade e
discriminações.

 
Cria preconceitos.
Exclui.
Exige proteção e segurança.

 
E as consequências
do reinado deste valor
viola os direitos humanos
e desconsidera a lei moral.

 

Por causa do dinheiro,
a ganância entra em campo.

 

Entra no campo e entra no jogo.

 
Veja claramente
quais as consequências do dinheiro
como deus: as injustiças, a corrupção
e a pobreza material.

 
Estas três geram as consequências
que os ricos não gostam:
a violência, insegurança,
sequestros, roubos, assaltos.

 
A má distribuição da riqueza
produz efeitos colaterais
indesejáveis.

 
A sobrevivência
é uma das necessidades básicas
da vida.

 
Para quem sente falta do que é essencial,
a animalidade,
o instinto de sobrevivência
prevalece.

 
A pessoa humana
não quer passar fome.

 
Não consegue viver
com a barriga vazia.

 
Imagine a situação
de um pai e uma mãe
que não sabe como conseguir ‘alimento’
para seus filhos:
Vai roubar, assaltar ...
praticar a violência.

 
Pratica a violência
porque não conhece outro meio,
mais rápido,
para conseguir
o que está necessitando.

 
Para roubar
enfrenta o medo,
domina o medo,
sufoca o medo.


O instinto de sobrevivência
desperta o animal
que está no DNA
dos nossos ancestrais.


Por isso, a educação para todos,
geraria meios necessários
para conseguir empregos
ou meios de sobrevivência humana.

 
Por isso, a ignorância,
a falta de meios
mantém as pessoas
num nível de subdesenvolvimento,
sub nutrição, sub respeito, ... no sub mundo.

 
Como seria bom
se todos fossem solidários
com todos.


Se não falta nada a ninguém,
não haveria necessidade de roubar,
assaltar, violentar.

 
E os pobres ficaram
com a solidariedade entre eles,
a moeda que os mantém vivos.

 
Há riqueza
escondida na pobreza.


              Uma meta a ser buscada.

               Estrela a ser perseguida.

              Verdade a ser cultivada.

 
Observemos a vida:


Os pobres
não possuem nada
e riem gostosamente,
com uma autoridade
que provoca inveja.

 

Os pobres
são os verdadeiros atores
da autenticidade.

 

Poucas coisas
os contentam.

 
Não são ambiciosos.

 
Não possuem nada
para esconder.


O nada e o tudo
que possuem
estão às claras.

 
São totalmente dependentes dos outros.

 
Estão morando
dentro do Jardim da casa do Pai,
no bairro Terra.

 
E são os preferidos
do Paizão do céu.


Foram contemplados
com muitos ‘aparelhos e lugares’ gratuitos.

 
Têm o ar,
o sol,
a água,
a chuva,
as estrelas,
o dia e a noite,
as estradas,
as piscinas dos mares,
para banharem-se de graça (ainda).

 
Sentem-se
como os lírios dos campos:
sustentados, vestidos,
alimentados pelo Pai do céu,
que sensibiliza alguns irmãos
para cuidarem deles.


São livres
como os pássaros dos céus.

 
Observemos os Evangelhos.

 
Neles estão escondidas
e reveladas várias verdades.

 
Estas verdades,
são para nós,
os paradoxos educadores.

 
São os pobres,
os bem-aventurados.

 
São eles,
os herdeiros dos céus.



São eles,
os sujeitos
das promessas
do Pai Criador do Universo.

 
Estes possuem a convicção
de que são guiados
pela mão do Pai Eterno,
e sustentados por sua bondade
e misericórdia.

 
Além de tudo isto,
são animados por sua presença
e alimentados pela bondade
dos doadores de esmolas,
praticantes da caridade
ensinada pelo Filho Jesus Cristo.

 

Os pobres
são capazes de amar,
gratuitamente,
apesar das humilhações públicas.

 

Os pobres
são pacientes nas tribulações
e aflições.

 
Não possuem neuroses
nem depressões.

 
São fortes
na adversidade.

 
Estão sempre disponíveis.

 
Não possuem campos para cuidar,
nem bens para administrar.

 
Os pobres
são ricos em esperança.

  
Só um pouco de comida,
todo dia, basta.

 
Não temos aqui a cidade permanente.
Estamos de passagem.


Só o Pai dos céus é o necessário, finalmente.

 
A verdadeira pobreza
está no fundo das coisas
e relaciona-se com o Espírito.

 
A pobreza
é o lugar privilegiado do divino:
o filho do Pai Criador do céu
nasceu numa gruta,
numa manjedoura.

 

Verdadeira pobreza
é a mais elevada escola
de cursos superiores:
a escola do amor gratuito.

 

É na pobreza
que estão revelados
os grandes testemunhos concretos
de amor gratuito.

 
A pobreza
é o lugar maior
da poderosa atração
da misericórdia divina.

 

Na pobreza
facilita-se o encontro
com o nosso Pai amoroso
e misericordioso,
como no exemplo do Filho Pródigo.

 

A pobreza
é o barco mais seguro
para atravessar o rio da vida
nesta terra passageira
cheia de piratas e marajás.

  
É ... quem quer ser pobre?
Ninguém.

 
... É a força da cultura.
É a força da economia. 
É o deus conforto.

  
É o deus egoísmo
que se impõe
à nossa natureza humana.

 
A riqueza
pode ser benfazeja,
quando vê na pobreza,
a caderneta de poupança
dos rendimentos dos valores do céu.

 
Não temos semeado
entre nós cristãos,
a cultura da pobreza,
nem invejamos a riqueza dos pobres.


Não dá pontos nas pesquisas.

 
Não agrada os gregos,
nem os americanos, judeus,
brasileiros, espanhóis ou argentinos,
nem políticos, religiosos,
evangélicos ou cristãos.


Não agrada os filhos
deste século
nem os filhos de qualquer milênio.

  

Será apenas um prêmio eterno
para os autênticos pobres.

 
Não frequentamos
a escola da pobreza,
dos pobres.

 
Quando percebemos que somos ricos?

 
Há, sim... esta resposta está pronta:

- basta responder
quem se aproxima primeiro,
um do outro?
 

- basta ver
quem é que vai em direção ao outro,
para pedir;

  
- basta ver
quem é que toma a decisão
de ir em direção ao outro.

 
É sempre o pobre
que nos procura.

 
É sempre o pobre
que pede.

 
Raramente é o rico
que procura o pobre.

 

Quem são os pobres?
Eles são de outra classe social,
a classe mais favorecida
para entrar no reino dos céus.

 
Paradoxo infernal ou celestial?

 
Há aqui
mais um grande paradoxo:
Os pobres e incultos,
os excluídos da sociedade,
nosso Pai dos céus
escolheu
para serem exemplos
e modelos
para ensinar aos instruídos,
as fórmulas
de como fazer
para ter parte na herança
dos céus.


Por isso não aprendemos ainda,
como funciona
este Dom da pobreza,
muito mais por teimosia
do que opção pessoal.

  
Não queremos
e não aceitamos
ser pobres.

  
E por isso não sabemos curtir
com sabedoria a gratuidade da vida
e a bondade do nosso Pai.

 

Há riqueza na pobreza?

 
É a pobreza
que nos tem constituído herdeiros
e reis do reino dos céus
e não as falsas riquezas.
São Francisco de Assis

 
Sua pobreza inesperada
abriu os olhos
que a riqueza tinha mantido fechados.
Boccaccio.

 

A maior pobreza
não é a da fome,
mas a da ausência
do Deus Pai na vida.
Jacques Loew

 
À virtude da pobreza,
acrescenta-se a da coragem,
fruto da liberdade da pessoa humana
no que diz respeito à sua própria vida. 

Da pobreza
e da coragem
resultarão a partilha,
a solidariedade,
a luta pela igualdade
e pela justiça.
Padre Jaldemir Vitório, SJ.

 
O espírito de pobreza
não consiste em parecer pobre,
mas em viver pobremente,
o que é a mesma coisa.
O espírito de pobreza
não consiste na ausência de ideias,
mas em estar desprendido
das próprias ideias.
O espírito de pobreza
não consiste na ausência da vontade,
mas em ser dócil à vontade do Deus Pai.
Não há espírito de pobreza
sem humildade.
Cardeal Saliège
 

A bem-aventurança da pobreza.

Esta renúncia
supõe abrir mão
de todas as ambições pessoais,
de todo anseio de acumular
e de buscar segurança
nos bens deste mundo.
Quem segue o Jesus Cristo
deve dispor-se a segui-lo
no despojamento
não só dos bens materiais,
mas também dos seus apegos e preconceitos,
de modo a fazer-se
totalmente livre
para o serviço
do reino do Pai dos céus.
Padre Jaldemir Vitório, SJ.

 

Que ninguém chore
a sua pobreza:
a todos está aberto o reino do nosso Pai.
Que ninguém deplore seus pecados:
o perdão se levantou do túmulo.
Que ninguém tema a morte:
a morte do Senhor
já nos tornou livres.
Santo Hipólito.

 

O Deus dos céus,
sendo rico,
se fez pobre por nós,
a fim de nos enriquecer
com sua pobreza.
Segunda Carta do Apóstolo São Paulo
aos Coríntios, capítulo 8 versículo 9.

 
Não é esta,
a riqueza escondida
que procuramos?

 
A verdadeira riqueza
está escondida
fora do lugar
onde a procuramos.


Mas não queremos perder a oportunidade, por isso, transcrevemos algumas frases e seus respectivos autores, sobre a riqueza.

 
A riqueza diante do Deus Pai
é uma vida aberta ao Evangelho,
que abre a vida ao mistério
para além das fronteiras da morte.
Frei Luiz Henrique F. de Aquino. OFM

  

Ajuntai riquezas no céu,
onde nem traça
nem ferrugem os corroem,
onde nem arrombam
nem roubam os ladrões.
Mateus 6,20

                            
A maior riqueza
é a alegria
de um coração
que ama.
Carlos Afonso Schmitt

 
Tenho uma riqueza
que não poderá ser roubada,
que nunca poderei gastar toda,
que não poderá ser afetada
pelas crises econômicas
e quedas de títulos:
essa riqueza
é a minha alegria de viver.
Napoleão Hill
 

          A verdadeira riqueza
de um homem
é o bem que ele faz
ao seu semelhante.
Mahatma Gandhi

 
Serás sempre rico
das riquezas que doaste.
Marcial

 

Sei, Senhor,
que toda riqueza
que não vem de ti
é pobreza para mim.
Santo Agostinho.

  

O Jesus Cristo
não condena as riquezas em si,
mas o apego às riquezas.
Não amaldiçoa a classe rica,
tal como um demagogo.
Um homem rico
pode estar desprendido
de suas riquezas
e um pobre obcecado
pelo dinheiro.


O fato de ser rico
é uma responsabilidade.
Os que mais receberam
em bens materiais,
em cultura e em dons,
têm obrigação
de dividi-los.


Os homens
têm o dever estrito
não tanto de dar,
mas de dividir.
Este é o único sentido
aceitável da esmola,
na visão cristã do mundo.

A Esmola
não é uma obrigação facultativa,
dependendo do capricho individual,
mas um dever categórico.


Dever
que à semelhança dos outros,
deve ser feito com inteligência
e humildade.
H. M. Oger

 

Quando as pessoas
se apegam às riquezas
ficam insensíveis
e perdem a capacidade
de amar.
Anízio Freire

 

Somente os mendigos
podem contar suas riquezas.
William Shakespeare

 
Quem não considera
o que tem
como a maior riqueza,
será sempre desditoso,
ainda que seja
dono do mundo. 
Epicuro

  

A porta
mais solidamente trancada
não resiste aos ladrões.
As únicas riquezas verdadeiras,
que não nos podem tirar,
são as riquezas divinas.

Fulton Sheen

 
Após a colocação das duas maneiras de ser, pobre e rico, das duas atitudes, pobreza e riqueza, as considerações paradoxais que carregam, e as mensagens que transmitem, levam-nos a concluir que são duas portas diante das quais a escolha trará consequências eternas. A lógica indica fugir da pobreza e buscar a riqueza.

 
Mas o que é mesmo ser pobre?


Qual a riqueza vantajosa?
 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 05/03/2016.
Atualizado em 20/03/2026 

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