sábado, 15 de março de 2014

98.- Poetas. Na falta de profetas que venham os poetas.


      Lá, bem longe, existiram os profetas.
      Depois, meio perto, vieram os poetas.
      Hoje, meio longe, estão os políticos. 


      Como seria bom 

      e o mundo mais moderno e fraterno

      se os políticos hoje, 

      exercessem as funções 

      dos profetas e dos poetas. 


      Ah, se os políticos fossem poetas!

      O mundo teria poesia nas leis,

      na ruas, nas casas, na burocracia,

      nas profissões e até no congresso.  


No passado os profetas
falavam em nome do Deus
que os inspirava,
instigava e até exigia
que transmitissem o que Ele queria.

A leitura
dos livros dos profetas,
que estão na Bíblia
revelam a personalidade
dos personagens dessa profissão
tão rara na história.

Os profetas eram pessoas
totalmente envolvidas no meio social
em que estavam inseridos.

Faziam a leitura
do que estava acontecendo,
e levavam ao conhecimento dos anciãos,
as possíveis soluções. 

Demonstravam preocupação
e descontentamento.

Eram autênticos e coerentes.

Quase todos foram martirizados.
Se escapou algum, foi por milagre.

     Hoje não há mais profetas,
     mas profecias continuam aparecendo
     e são comunicadas muito claramente.

     E quem capta
     são aqueles que estão antenados.

          Não havendo profecia,
            o povo se corrompe,
                diziam os antigos.

Ora, se não tem mais profetas
temos que produzi-los.

Mas ninguém mais arrisca ser profeta.
É perigoso.
Há muita exposição.
Há muita incompreensão.

      É difícil interpretá-los
      de acordo com os nossos interesses. 

      Mas temos que dar um jeito.

      Somos brasileiros.
      Damos um jeitinho.

                            Hoje não temos mais profetas.

                            Mas hoje eles estão ativos
                            exercendo a profissão camuflada
                            de poetas.

       Veja bem
       como a função de poeta
       se identifica
       com a dos antigos profetas.

"O poeta
quando escreve seus versos,
exerce a função de professor,
ensinando a teima da esperança."
Jean Giono

Leia poesia 
e perceba nas linhas e entrelinhas, 
como “o poeta se desgasta 
diante da indiferença”
Otto Lara Resende      

      Se não existir mais profetas,
      quem vai iluminar,
      quem vai acender a chama
      do fogo que queima?

"O poeta
é o alimento vivo
da chama com que ilumina”.
José Martí Y Perez

Dentro do campo 
em que estamos envolvidos,
"O poeta é o sacerdote
do invisível."
Wallace Stevens

Mais do que os políticos,
"O poeta é o senhor
e despertador
de todas as exaltações humanas."
Erasmo Shallkytton

"Os poetas odeiam o ódio
e fazem guerra à guerra."
Pablo Neruda

"Os poetas são como pássaros.
A menor coisa os faz cantar."
François René Auguste de Chateaubriand

      Vejo na personalidade dos poetas
      a incorporação do peso
      da existência humana.

Até parece
que querem carregar
os conflitos e desequilíbrios
de todas as pessoas,
nas suas próprias costas.

Não se parecem
com alguém lá de longe,
trazido para a memória,
bem pertinho de nós, os profetas?

"Não é o poeta,
o profeta dos nossos dias,
aqueles que mais despertam o bem
que dorme no fundo do nosso coração?"
Rubem Alves

      Percebam como na história, os profetas,
      os livros, os intelectuais, os escritores
      e os poetas foram os grandes inspiradores
      dos mais elevados ideais da humanidade.

Todos os políticos
tiveram oportunidade
para direcionar a sociedade
para o bem comum
e para a construção da cidade celeste,
mas poucos estão cadastrados
nas páginas de honra do livro da história.

Muitos profetas
foram sacrificados
porque indicavam os faróis,
as rotas e as mensagens libertadoras.

A história
profetiza os acontecimentos do futuro,
revelando as lições
que estavam escondidas no passado.

Se no passado
o profeta lia o presente
e se reportava ao futuro,
hoje o poeta
tira as lições do passado,
compara com o presente
e, como engenheiro e arquiteto,
descreve nitidamente o futuro.

O poeta
lembra que existe o futuro.

Talvez sejam os poetas,
os legisladores ideais,
os vereadores, deputados e senadores
que o mundo futuro está esperando.

Você já imaginou como seria este mundo?

As ruas não teriam nomes
de políticos famosos,
mas de poesias alegres.

As lembranças
que as ruas nos trariam,
seriam benfazejas,
como as rimas das melodias
e as harmoniosas notas musicais.

Certamente os poetas
ensinariam a lei do amor.

Certamente
os hospitais não faleceriam
por insuficiência de amor.

Certamente
as empresas não iriam para a falência
porque a gratuidade
seria a moeda em circulação.

 Certamente.

"Para os poetas,
os filósofos e os santos,
tudo é fraterno e sagrado.
Todos os acontecimentos são úteis,
todos os dias são santos,
todos os homens são divinos”.
Ralph Waldo Emerson

Pois assim é,
o poeta escreve,
e cada um se lê
naquilo que ele escreve.

Mais do que qualquer outro personagem,
o poeta tem o potencial da interpretação,
e com sua sensibilidade 
coloca em rimas e harmonia
as soluções pacíficas e benfazejas 
para todas as classes sociais. 


Eu gosto de ler assim.
É carinhoso saber assim.
É afetivo que seja assim e assado.

O poeta
possui algumas características
que são proféticas,
pois se empenham sempre
na busca do sentido,
do significado.

Procuram penetrar na profundidade,
descobrindo as pérolas preciosas
e tesouros escondidos.

Domam a rotina,
chicoteiam as mesmices,
constroem escadas imaginárias
desejando tirar-nos
dos buracos da existência,
insistindo no destino superior
da humanidade.

Ao fazer poesia da vida,
o poeta descreve a própria vida
na sua simplicidade
e, ao mesmo tempo
descomplica as tramas
nas quais nos envolvemos.

Quantas vezes
nos sentimos anestesiados,
insensíveis às realidades chocantes,
achando normal o que é agressivo,
apático o que merece resposta emotiva.

O poeta e a poesia
devolvem-nos a natureza crua,
original, sem máscaras.

O poeta e a poesia
devolve a criança
que se perdeu 
no meio dos adultos.

O poeta e a poesia
despertam-nos do sono,
revelando alegria
na experiência do sentir-se vivo.

Há nas linhas e entrelinhas da poesia
o sentido oculto
que nossa personalidade
anseia realizar.

O poeta aciona a vontade
de ser livre como um pássaro,
e voar por todos os espaços do mundo,
curtindo todos os lugares lindos
que a sensibilidade treinada
aprendeu a contemplar.

O que é um poeta?

É um artista,
músico, compositor ou profeta?

Não é só isso. É mais.
É o acúmulo de todas as coisas imperfeitas
borbulhando, como vulcão em seu ventre,
procurando saídas e soluções.  

Veja que não há violência nos poetas.

Perceba como é suave,
mansa e convincente
a sua comunicação.

A poesia é a partitura
e o poeta é o instrumento
que toca a melodia.

E o compositor não aparece.

O poeta se reporta com a vida
e com as portas,
com as entradas e saídas.
São realistas. 

O poeta se arrebenta
ou se compromete,
mas insiste em reabrir as portas
das soluções, do paraíso e da imortalidade.

O poeta
é um inconformado com limites,
túmulos ou fronteiras.

São livres.

Não obedecem as regras
dos complexos de inferioridade
ou superioridade.

Não se deixam encabrestar
por censuras pessoais,
grupais ou societárias.

Não possuem pátria,
nem raça, nem religião.

O único poder
ao qual prestam honras é à autoridade
que lhes impõem a própria sensibilidade.

No poeta não há falsidade,
nem máscara, nem compra 
ou troca de favores.

Há a coerência
com a verdade universal.

A verdade transmitida pelos poetas,
caindo em nossa interioridade,
brota espontaneamente,
sem recursos artificiais.

A maquiagem é permitida,
se for para embelezar
e revelar a interioridade,
conhecida através dos símbolos e códigos.

De dia os homens trabalham.

Os poetas, quando trabalham,
acordam com suas poesias,
aqueles que dormem de dia.


Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 10/03/2016. 
Atualizado em 31/03/2026

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