Pensei
no meu jeito de ser homem,
assim,
daquele jeito macambuso,
rabugento, rotineiro,
desgastado.
Diminuindo meu potencial,
secando-me como semente,
escondendo algo.
Como repolho
me fechando,
diminuindo o alcance
dos olhos, da ternura.
Reduzindo a quase nada
a potência infinita.
- Que poder desgastante
tem a rotina.
- Que poder redutor
tem a acomodação
e a preguiça.
No dia a dia da vida,
lavrador que sou,
na horta da vida
só cultivo pepinos,
abóboras
e ervas daninhas.
Moranguinhos,
ameixas
e frutas gostosas,
raramente colho,
porque quase não as semeio,
e não as cultivo,
e porque exigem esforços
da minha natureza acomodada.
Se tenho o terreno
à minha mão
se tenho as ferramentas,
se tenho as sementes
das boas frutas,
por quê guardá-las
e no pote da prateleira
estocá-las?
Não são exatamente
estes produtos
que o mercado
mais procura?
Passa ano,
passa inverno, passa verão,
passa rapidamente a primavera,
a estupenda primavera
e os outonos também se vão.
E eu aqui de novo
a cultivar erva daninha,
pepinos e repolhos,
produtos indigestos
que ninguém gosta.
Perdendo tempo precioso.
Acomodando
e estocando energias.
Enterrando talentos
sem nada fazer.
A omissão
me desclassifica
como operário.
O despertador toca.
O final do ano
se chegou.
Um novo ano
vem vindo,
na mão,
para uns,
na contramão,
para outros.
Até parece mesmo,
que é o Ano Novo
que vem vindo.
Não sou eu
que estou indo
na direção dele.
Assim é o novo,
vem,
nem que não queiramos.
Vem
nem que não estejamos
preparados.
Vem,
nem que não tenhamos
cumprido
as metas
que a natureza humana
exige.
Vem vindo, rápido,
apressando-se cada vez mais,
com pressa querendo ensinar
ou entregar algo, muito valioso.
Os anos pintam os cabelos,
esculpem sulcos e rugas
em nosso corpo,
endurecem nossos músculos.
Pois estamos acomodados,
estacionados, parados,
curtindo as velhas conquistas,
que mais nos diminuíram
do que impulsionaram
para o mais.
Com medo do novo
que promete mais
ficamos curtindo o mofo
que nos despersonaliza,
escondendo o principal.
O relógio do tempo
convida a levantar,
prontidão, alerta.
Se dentro de cada um de nós
existe a semente de eternidade,
se cada um é filho do Deus Pai,
somos potencial herdeiros
das promessas eternas.
Não quero, não devo,
não posso mais
ficar só na casca
e na superfície,
lustrando
e guardando aparências,
que não encontram eco,
naqueles que esperam de mim,
algo novo,
diferente do rotineiro.
Sim, algo novo
está agitando aqui dentro,
querendo sair,
manifestar-se.
Um ser novo,
especial
há de brotar,
nem que algo
tenha que morrer.
‘Se a semente não morrer...’,
Está escrito em algum lugar sagrado,
“...não há de viver”.
Cultivarei
meu eu verdadeiro,
meu novo eu,
ainda
escondido,
ou camuflado, gestando,
já nascido, ou a nascer?
Outro eu,
será outro eu,
que aqui está,
que está para chegar?
Quantos dois eu sou,
se na frente do espelho
só me vejo um?
O homem que envelhece,
aparece no espelho,
e os anos vividos,
revelam-se.
E o outro eu,
de dentro,
que não aparece,
aquele eu invisível,
alegre,
permanece igual,
imutável,
todos os anos.
Um é visível,
e já não encanta,
só manca.
O outro, invisível,
encanta e agrada,
quando se expressa
na fisionomia
do visível.
Neste ano que passou,
qual dos dois eu,
mais viveu?
É este eu invisível
que
hei de explodir,
de ressuscitar
qual broto que da casca sai
e de novo jeito re-aparece
querendo, desejando,
sonhando,
sair de mim
e
IR A TI.
É com ele,
o novo eu
que se esconde
dentro do velho,
é com ele
que vocês gostam
de conviver.
“Por favor,
quando o novo
não estiver aparecendo,
desperte-o,
ele está apenas dormindo,
lá dentro, do velho”.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 31/12/2016
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