quarta-feira, 5 de março de 2014

84.- IRATI. Algo novo está agitando aqui dentro, querendo sair, manifestar-se, IR A TI.



Pensei 
no meu jeito de ser homem,
assim,
daquele jeito macambuso,
rabugento, rotineiro, 
desgastado.


Diminuindo meu potencial,
secando-me como semente,
escondendo algo.


Como repolho
me fechando,
diminuindo o alcance
dos olhos, da ternura.


Reduzindo a quase nada
a potência infinita.


- Que poder desgastante
tem a rotina.


- Que poder redutor
tem a acomodação
e a preguiça.


No dia a dia da vida,
lavrador que sou,
na horta da vida
só cultivo pepinos,
abóboras
e ervas daninhas.


Moranguinhos,
ameixas
e frutas gostosas,
raramente colho,
porque quase não as semeio,
e não as cultivo,
e porque exigem esforços
da minha natureza acomodada.


Se tenho o terreno
à minha mão
se tenho as ferramentas,
se tenho as sementes
das boas frutas,
por quê guardá-las
e no pote da prateleira
estocá-las?


Não são exatamente 
estes produtos
que o mercado 
mais procura?


Passa ano,
passa inverno, passa verão,
passa rapidamente a primavera,
a estupenda primavera
e os outonos também se vão.


E eu aqui de novo
a cultivar erva daninha,
pepinos e repolhos,
produtos indigestos
que ninguém gosta.


Perdendo tempo precioso.


Acomodando
e estocando energias.


Enterrando talentos
sem nada fazer.


A omissão
me desclassifica
como operário.


O despertador toca.


O final do ano 
se chegou.


Um novo ano
vem vindo, 
na mão, 
para uns,
na contramão, 
para outros.


Até parece mesmo,
que é o Ano Novo
que vem vindo.


Não sou eu
que estou indo
na direção dele.


Assim é o novo,
vem, 
nem que não queiramos.


Vem
nem que não estejamos 
preparados.


Vem,
nem que não tenhamos 
cumprido
as metas
que a natureza humana 
exige.


Vem vindo, rápido,
apressando-se cada vez mais,
com pressa querendo ensinar
ou entregar algo, muito valioso.


Os anos pintam os cabelos,
esculpem sulcos e rugas
em nosso corpo,
endurecem nossos músculos. 


Pois estamos acomodados,
estacionados, parados,
curtindo as velhas conquistas,
que mais nos diminuíram
do que impulsionaram
para o mais.


Com medo do novo
que promete mais
ficamos curtindo o mofo
que nos despersonaliza,
escondendo o principal.   


O relógio do tempo
convida a levantar,
prontidão, alerta.


Se dentro de cada um de nós
existe a semente de eternidade,
se cada um é filho do Deus Pai,
somos potencial herdeiros
das promessas eternas.


Não quero, não devo,
não posso mais
ficar só na casca
e na superfície,
lustrando
e guardando aparências,
que não encontram eco,
naqueles que esperam de mim,
algo novo,
diferente do rotineiro.


Sim, algo novo
está agitando aqui dentro,
querendo sair,
manifestar-se.


Um ser novo,
especial
há de brotar,
nem que algo
tenha que morrer.


‘Se a semente não morrer...’,
Está escrito em algum lugar sagrado,
“...não há de viver”.


Cultivarei 
meu eu verdadeiro,
meu novo eu,
ainda
escondido,
ou camuflado, gestando,
já nascido, ou a nascer?



Outro eu,
será outro eu,
que aqui está,
que está para chegar?


Quantos dois eu sou,
se na frente do espelho
só me vejo um?


O homem que envelhece,
 aparece no espelho,
e os anos vividos,
revelam-se.


E o outro eu,
de dentro,
que não aparece,
aquele eu invisível,
alegre,
permanece igual,
imutável,
todos os anos.


Um é visível,
e já não encanta,
só manca.


O outro, invisível,
encanta e agrada,
quando se expressa
na fisionomia 
do visível.


Neste ano que passou,
qual dos dois eu,
mais viveu?


É este eu invisível
que hei de explodir,
de ressuscitar
qual broto que da casca sai
e de novo jeito re-aparece
querendo, desejando,
sonhando,
 sair de mim
e
 IR   A    TI.


É com ele,
o novo eu
que se esconde
dentro do velho,
é com ele
que vocês gostam
de conviver.



“Por favor,
quando o novo
não estiver aparecendo,
desperte-o,
ele está apenas dormindo,
lá dentro, do velho”.



Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 31/12/2016


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