quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

75.- Compreensão. Avaliando o ponto de vista de quem está me olhando: condenando ou compreendendo?



Certamente já ouvimos e já falamos esta expressão: “este é o meu ponto de vista”.  

 

Talvez a expressão mais simpática fosse:

 

"Do ponto em que estou,

estou vendo da seguinte forma...",

 

ou então:

 

"No estágio cultural onde me encontro,

consigo ver o seguinte ..."

 

Este tipo de manifestação ocorre quando dizemos nossa opinião sobre algum evento ou acontecimento.

 

São expressões que podem ocorrer quando nosso pensamento e nossas ações não correspondem

com a opinião de alguém com quem estamos conversando.

 

É algo muito natural , pois que somos diferentes e tivemos experiências diferentes.

 

Não fomos feitos em série.

 

Esse é mais um dos valores enriquecedores da cultura e do nosso aperfeiçoamento como seres humanos.

 

Na vida existe um equilíbrio

entre o bom senso e a sabedoria,

entre o normal e o aceitável.

 

O que não é normal

é conviver junto

com o errado e inaceitável.  

 

Quando algo sai da normalidade,

soltamos a expressão: ‘isso é loucura’!

 

Ou então: ‘você está ficando maluco’!

E apenas ouvimos e nada dizemos.

 

Ou então, o espanto se manifesta.

 

Ou soltamos o bicho irracional,

e chingamos.  

 

Aceitar e assumir o ponto de vista dos outros, deve, em primeira mão, tão somente provocar o diálogo.

 

Em toda vida comunitária e fraterna aceitamos princípios de convivência onde se busca a paz, a harmonia, o desenrolar discreto da busca de soluções para nossas problemas.

 

Em toda vida comunitária e fraterna desaprovamos atitudes de autoritarismo, de superioridade, de discussões para demonstrar poder ou força ou inteligência impositiva.

 

Todos procuram se dar bem quando existe a compreensão de que somos diferentes uns dos outros.

 

As diferenças começam

na nossa própria fisionomia.

 

Aparecem diferenças

na maneira de andar.

 

Existem diferenças no paladar,

no olfato, na sensibilidade.  

 

Existem diferenças na nossa maneira de interpretar e viver a religião, analisar e participar da vida política, diferentes formas e níveis de integração na sociedade.

 

Cada um olha o mundo

com seus próprios olhos.

 

Cada um possui um senso crítico adquirido e formado através das experiências que cada um teve ao longo dos anos.

 

Estas cargas todas, individuais, proporcionaram a cada um de nós uma maneira muito pessoal, individual, especialíssima de ser e existir só minha ou só tua.  

 

Somos fruto ou resultado ou uma série de experiências educativas que foram construindo o caráter e a personalidade única, por isso, rica, merecedora de respeito e atenção.

 

O caráter e a personalidade de cada um foi forjado com o martelo, a pua e o formão, ferramentas do escultor.

 

 

Do bloco de pedras brutas que cada um de nós foi e é, aceitamos e impomos uma série de disciplinas que tiraram lascas da carne, mexeram nos nossos nervos e imprimiram marcas profundas na nossa própria mentalidade e personalidade.

 

Quanta paciência e impaciência.

 

Quantas angústias e alegrias.

 

Quantas dúvidas e certezas.

 

 

Quantas perguntas

e tão poucas respostas definitivas.

 

Quantos amigos,

quantos benfeitores.

 

Quantos conselhos e apoio.

 

Quantos puxões de orelhas.

 

Quantos tropeços e recomeços.  

 

A disciplina

transformou-nos num ser

que foi aos poucos adquirindo brilho, esparramando entusiasmo,

semeando simpatia. 


Foram nossos defeitos,

nossos melhores professores

ou então, nossos maiores deformadores. 


Aprendemos com nossos defeitos

a entrar no pátio da escola da sabedoria. 


Se aprendermos

a conviver com a humildade,

no relacionamento humano,

conquistaremos todos os troféus possíveis.

 

Todas as portas se abrirão.

 

Caso contrário,

não chegamos ainda no estágio da obra

que o grande Artista

planejou para cada um de nós.

 

Mas como gostaríamos de lá estar, pacificamente. 

 

Mas como é difícil.

 

Leva a vida inteira.

 

Se as pessoas olham para nós

e nos avaliam ou nos julgam

de acordo com a formação ou educação

que receberam,

temos de respeitar a característica,

as experiências e a carga que carregam. 


Podem estar certos.

 

É o ponto de vista deles. 

 

O melhor posicionamento

que podemos ter é subir

sobre nossa própria humildade,

e de lá, lá de baixo, ver o outro,

interpretar o outro,

respeitar a visão

e a posição dos outros.

 

Este é o caminho da compreensão.

 

Não nos cabe julgar.

Cabe sim, compreender.

 

Diferentes são as reações

a cada uma destas duas atitudes:

 

Se julgares,

estarás demonstrando

falta de cultura, de educação

e de inteligência.

Estarás demonstrando que és superior.  

 

Se compreenderes,

estarás demonstrando sabedoria, aprendizado, respeito e igualdade de condições

e situação existencial, humana.

 

Cada um de nós veio de terras diferentes.  

 

Diferentes pessoas foram os nossos modelos.

 

De cada um de nós recebeu influências boas e ruins, educativas ou danosas.

 

Aprendemos a assimilar a força do exemplo.

 

Escolhemos e definimos uma filosofia de vida.

 

Escolheremos um jeitão de viver.

 

Bem diferente é o modo de ver e avaliar os outros, quando auxiliados com os elementos da compreensão e da tolerância.

 

Bem diferente

é ser olhado

com olhos destituídos

destas virtudes.

 

O olhar amoroso

é que vem acompanhado com a tolerância.

 

Aprendemos com a compreensão a entender o ponto de vista dos outros, nossos irmãos.

 

Olhamos para eles, como irmãos, que são compreendidos nas dificuldades que carregam neste ou naquele estilo de vida.

 

Nossa tendência é julgar e condenar.

 

Mas, quando julgamos nos armamos com os sentimentos de fracasso e de impotência.

 

Somos responsáveis por este tipo de orfandade, até certo ponto. 

 

Podemos justificar dizendo que não é nossa atribuição, não é nossa responsabilidade chamá-los a imitar-nos, intimando-os a colocarem seus passos neste caminho onde pisamos.

 

Perguntamos para os outros nossos irmãos:

onde estamos errados?

 

Não estamos nós, de certa forma,

acomodados?

 

Mais do que ir na direção deles, estamos aguardando que eles venham até nós. 

 

 

Nossa culpa é confirmada

quando percebemos

que são os pobres

que nos procuram

para pedir alguma coisa.

 

Dificilmente somos nós

que procuramos os pobres

para oferecer-lhes algo.

 

 

Eles caminham na nossa direção.

Nós caminhamos para outras direções.  

 

 

Este olhar, nesta luneta,

pode clarear um pouco nossas atitudes.

 

Se a nossa alegria não contagia,

se nosso agir humano não desperta,

não acorda, não atrai,

talvez algo esteja ofuscado,

meio sujo, qual cisco em nossos olhos,

impedindo-nos de ver direito.

 

Se nosso jeito de ouvir e falar

não motiva a mudar o agir

dos nossos irmãos diferentes,

algo está faltando

ou esteja em desequilíbrio.

 

Se temos e cultivamos

esperanças na Pátria

além dos horizontes

sofremos por não convencer

de que nesta nova Pátria,

há lugar reservado

também para estes outros,

nossos irmãos sofredores.

 

Tudo que fizemos

para educar a nossa sensibilidade

para o amor, para o serviço gratuito,

para suavizar as cargas da vida,

não foi por motivos egoísticos,

para buscar

nossa própria perfeição e felicidade,

mas sim, para nos tornarmos

irmãos melhores

e mais capacitados

para ajudar os outros,

menos equipados.

 

Todo o esforço que fizemos

para instruir nossa sensibilidade

ajudou-nos a perceber nos outros,

carências e necessidades.

 

 

Nada fazer para colocar em ação

estes dons,

é enterrar os talentos.

 

Recebemos mais de dez talentos

e apresentaremos, no final da vida,

mais de vinte.

 

 

Que não sejamos aqueles

aos quais será dirigida a palavra

pelo dispensador de todos os talentos:

 


 “Que fizestes com o teu talento”,

 


 ... e tenhamos que responder: ‘enterrei’.  

 

 

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 19/02/2016.

eneaspb@gmail.com 



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