Certamente já ouvimos e já falamos esta expressão: “este
é o meu ponto de vista”.
Talvez a expressão mais simpática fosse:
"Do ponto em que estou,
estou vendo da seguinte forma...",
ou então:
"No estágio cultural onde me encontro,
consigo ver o seguinte ..."
Este tipo de manifestação ocorre quando dizemos
nossa opinião sobre algum evento ou acontecimento.
São expressões que podem ocorrer quando nosso
pensamento e nossas ações não correspondem
com a opinião de alguém com quem estamos
conversando.
É algo muito natural , pois que somos diferentes e
tivemos experiências diferentes.
Não fomos feitos em série.
Esse é mais um dos valores enriquecedores da
cultura e do nosso aperfeiçoamento como seres humanos.
Na vida existe um equilíbrio
entre o bom senso e a sabedoria,
entre o normal e o aceitável.
O que não é normal
é conviver junto
com o errado e inaceitável.
Quando algo sai da normalidade,
soltamos a expressão: ‘isso é loucura’!
Ou então: ‘você está ficando maluco’!
E apenas ouvimos e nada dizemos.
Ou então, o espanto se manifesta.
Ou soltamos o bicho irracional,
e chingamos.
Aceitar e assumir o ponto de vista dos outros, deve,
em primeira mão, tão somente provocar o diálogo.
Em
toda vida comunitária e fraterna aceitamos princípios de convivência onde se
busca a paz, a harmonia, o desenrolar discreto da busca de soluções para nossas
problemas.
Em
toda vida comunitária e fraterna desaprovamos atitudes de autoritarismo, de
superioridade, de discussões para demonstrar poder ou força ou inteligência impositiva.
Todos
procuram se dar bem quando existe a compreensão de que somos diferentes uns dos outros.
As diferenças começam
na nossa própria fisionomia.
Aparecem diferenças
na maneira de andar.
Existem diferenças no paladar,
no olfato, na sensibilidade.
Existem diferenças na nossa maneira de interpretar
e viver a religião, analisar e participar da vida política, diferentes formas e
níveis de integração na sociedade.
Cada um olha o mundo
com seus próprios olhos.
Cada um possui um senso crítico adquirido e formado
através das experiências que cada um teve ao longo dos anos.
Estas cargas todas, individuais, proporcionaram a
cada um de nós uma maneira muito pessoal, individual, especialíssima de ser e existir
só minha ou só tua.
Somos fruto ou resultado ou uma série de
experiências educativas que foram construindo o caráter e a personalidade
única, por isso, rica, merecedora de respeito e atenção.
O caráter e a personalidade de cada um foi forjado
com o martelo, a pua e o formão, ferramentas do escultor.
Do bloco de pedras brutas que cada um de nós foi e
é, aceitamos e impomos uma série de disciplinas que tiraram lascas da carne,
mexeram nos nossos nervos e imprimiram marcas profundas na nossa própria
mentalidade e personalidade.
Quanta paciência e impaciência.
Quantas angústias e alegrias.
Quantas dúvidas e certezas.
Quantas perguntas
e tão poucas respostas definitivas.
Quantos amigos,
quantos benfeitores.
Quantos conselhos e apoio.
Quantos puxões de orelhas.
Quantos tropeços e recomeços.
A disciplina
transformou-nos num ser
que foi aos poucos adquirindo brilho, esparramando
entusiasmo,
semeando simpatia.
Foram nossos defeitos,
nossos melhores professores
ou então, nossos maiores deformadores.
Aprendemos com nossos defeitos
a entrar no pátio da escola da sabedoria.
Se aprendermos
a conviver com a humildade,
no relacionamento humano,
conquistaremos todos os troféus possíveis.
Todas as portas se abrirão.
Caso contrário,
não chegamos ainda no estágio da obra
que o grande Artista
planejou para cada um de nós.
Mas como gostaríamos de lá estar, pacificamente.
Mas como é difícil.
Leva a vida inteira.
Se as pessoas olham para nós
e nos avaliam ou nos julgam
de acordo com a formação ou educação
que receberam,
temos de respeitar a característica,
as experiências e a carga que carregam.
Podem estar certos.
É o ponto de vista deles.
O melhor posicionamento
que podemos ter é subir
sobre nossa própria humildade,
e de lá, lá de baixo, ver o outro,
interpretar o outro,
respeitar a visão
e a posição dos outros.
Este é o caminho da compreensão.
Não nos cabe julgar.
Cabe sim, compreender.
Diferentes são as reações
a cada uma destas duas atitudes:
Se julgares,
estarás demonstrando
falta de cultura, de educação
e de inteligência.
Estarás demonstrando que és superior.
Se compreenderes,
estarás demonstrando sabedoria, aprendizado,
respeito e igualdade de condições
e situação existencial, humana.
Cada um de nós veio de terras diferentes.
Diferentes pessoas foram os nossos modelos.
De cada um de nós recebeu influências boas e ruins,
educativas ou danosas.
Aprendemos a assimilar a força do exemplo.
Escolhemos e definimos uma filosofia de vida.
Escolheremos um jeitão de viver.
Bem diferente é o modo de ver e avaliar os outros, quando
auxiliados com os elementos da compreensão e da tolerância.
Bem diferente
é ser olhado
com olhos destituídos
destas virtudes.
O olhar amoroso
é que vem acompanhado com a tolerância.
Aprendemos com a compreensão a entender o ponto de
vista dos outros, nossos irmãos.
Olhamos para eles, como irmãos, que são
compreendidos nas dificuldades que carregam neste ou naquele estilo de vida.
Nossa tendência é julgar e condenar.
Mas, quando julgamos nos armamos com os sentimentos
de fracasso e de impotência.
Somos responsáveis por este tipo de orfandade, até
certo ponto.
Podemos justificar dizendo que não é nossa
atribuição, não é nossa responsabilidade chamá-los a imitar-nos, intimando-os a
colocarem seus passos neste caminho onde pisamos.
Perguntamos para os outros nossos irmãos:
onde estamos errados?
Não estamos nós, de certa forma,
acomodados?
Mais do que ir na direção deles, estamos aguardando
que eles venham até nós.
Nossa culpa é confirmada
quando percebemos
que são os pobres
que nos procuram
para pedir alguma coisa.
Dificilmente somos nós
que procuramos os pobres
para oferecer-lhes algo.
Eles caminham na nossa direção.
Nós caminhamos para outras direções.
Este olhar, nesta luneta,
pode clarear um pouco nossas atitudes.
Se a nossa alegria não contagia,
se nosso agir humano não desperta,
não acorda, não atrai,
talvez algo esteja ofuscado,
meio sujo, qual cisco em nossos olhos,
impedindo-nos de ver direito.
Se nosso jeito de ouvir e falar
não motiva a mudar o agir
dos nossos irmãos diferentes,
algo está faltando
ou esteja em desequilíbrio.
Se temos e cultivamos
esperanças na Pátria
além dos horizontes
sofremos por não convencer
de que nesta nova Pátria,
há lugar reservado
também para estes outros,
nossos irmãos sofredores.
Tudo que fizemos
para educar a nossa sensibilidade
para o amor, para o serviço gratuito,
para suavizar as cargas da vida,
não foi por motivos egoísticos,
para buscar
nossa própria perfeição e felicidade,
mas sim, para nos tornarmos
irmãos melhores
e mais capacitados
para ajudar os outros,
menos equipados.
Todo o esforço que fizemos
para instruir nossa sensibilidade
ajudou-nos a perceber nos outros,
carências e necessidades.
Nada fazer para colocar em ação
estes dons,
é enterrar os talentos.
Recebemos mais de dez talentos
e apresentaremos, no final da vida,
mais de vinte.
Que não sejamos aqueles
aos quais será dirigida a palavra
pelo dispensador de todos os talentos:
“Que fizestes com o teu talento”,
... e tenhamos que responder: ‘enterrei’.
Eneas
Paulo Budel Bogucheski
Atualizado
em 19/02/2016.
eneaspb@gmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário