quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

71.- Espírito. Idade espiritual. Só nós dois no deserto do mundo.

      



De novo, caminhando à tardinha, pela Avenida Arthur Bernardes, em Curitiba, Pr, e, de novo com aquele bom velhinho apaixonado por caminhadas.

 

Esta vez quem começou o diálogo fui eu.

 

E logo perguntei? Quantos anos o Sr. tem?

 

     Aparento 60 a 65 anos.  Mas me sinto como quem está com 27 anos.

 

     Como é ter 65 e sentir-se com 27 anos?

 

     Ele pegou-me gentilmente pelos braços, afastando-nos um pouco para o lado da pista e respondeu-me mais ou menos com estas palavras:

 

- Ter 65 anos e viver como quem tem 27 é viver de uma forma adaptada sem fugir do momento presente, sem ficar retido no passado, nos ‘bons tempos’. Minha carga veio comigo, minha idade, mas meu espírito me renova.

 

- Ter 27 anos ou não ter é viver intensamente o momento presente. Isso é um sentimento tão nobre que me dá a sensação de que sou eterno, sem nenhuma idade.  

 

- Sinto-me privilegiado e honrado por já ter vivido quase vinte e quatro mil dias. 

 

- Quem considera este número uma boa soma de dias e noite? Vinte e quatro mil dias e noites, vividos.  

 

- Não me assusto com este número.

 

- A partir do instante em que tomei consciência de já ter vivido tanto tempo fiz uma reavaliação da minha vida.

 

    

- Decidi descer do trem automático da vida.

 

- Percebi que a pressa empobrece alguns elementos importantes do viajar.

 

 

- Belezas e valores existem por toda parte. 

 

- Andar mais lentamente, dando as mãos à vida, caminhando junto com a vida e com os vivos, escolhendo valores melhores, aqueles nossos, profundamente humanos, como este que estamos convivendo juntos, agora.  

 

             Ele falou sobre a sua filosofia de vida atual, seus sonhos, amigos e afazeres. Com os ouvidos bem abertos e boquiaberto ia absorvendo baldes de sabedoria em doses de comprimidos concentrados, como alimento de astronauta.  

 

       Continuamos a caminhada conversando (ou melhor, eu só ia escutando) sobre um mundão de assuntos que ele dominava: a vida com suas faces e interfaces, sobre a cara e “o coroa” da vida, brincava ele.

 

     Ele falava das coisas que atualmente mais gosta, principalmente caminhar à tardinha para curtir as cores do entardecer... e alguém com quem caminhar e partilhar estas coisas boas.

    

     Não vimos o tempo passar.

 

     Anoiteceu rapidamente e nos despedimos.

 

       Disse a ele que foi bom tê-lo como companheiro de caminhada. E ele disse: igualmente. Então lhe fiz uma nova pergunta:

 

- Podemos continuar caminhando juntos? Que tal amanhã, neste mesmo horário?

 

- Sim, até amanhã, aqui, neste mesmo horário.

 

 

                          Anoiteceu.

 

            As luzes naturais foram embora.

 

     Imediatamente as luzes artificiais se apresentaram e eu voltava para casa acompanhado pelos bons pensamentos e bons sentimentos, enriquecidos pela amizade conquistada e bem cultivada com este senhor com mais idade e muito mais sabedoria do que eu.

 

 

     Chegando em casa contei para minha esposa que tinha encontrado aquele senhor com quem havia caminhado dias atrás.  

 

Comentei com ela a pessoa maravilhosa que ele é e que se dava a conhecer enquanto estávamos caminhando.

 
 

     Aquela noite foi especial. Não consegui tirar dos meus pensamentos aquela simpática pessoa.

 
 
     À noite fiquei pensando com quantas pessoas eu já tinha cruzado nas minhas caminhadas.

 

 

     Grande parte das pessoas com quem cruzamos no dia a dia, são conhecidas.

     Reconheço-as, familiarizadas pelo jeito de andar ou correr ou mesmo pelo ‘uniforme’ ou trajes costumeiros.

 

     São vizinhos ou caminhantes de rotina.

 

     Não há nada de especial nelas.  

 

     Mas neste senhor grisalho, com apenas dois encontros, encontrei muito ‘pano para manga’ e questionamentos para minhas filosofadas.   

 

 

    De banho tomado, deitado, e pronto para dormir, aparece na tela da minha mente, a visita do velhinho. A visita mental desperta meu sono.

 

     Bem acordado, aceito o sono perder para me perguntar sobre as características fundamentais e também das diferentes formas de viver das pessoas humanas.  

 

     Nas nossas andanças encontramos pessoas que vivem expressando alegria, contentamento, satisfação; e outras que demonstram tristeza, preocupações, fechadas, sem nenhuma demonstração de que são recheadas de emoções.  

 

E nos perguntamos

o porquê de tais expressões.

 

Quantas pessoas encontramos

todos os dias

que não nos chamam

a atenção.

 

De repente,

uma única pessoa, diferente,

ainda não sei no quê, me chama a atenção, despertando em mim, algo que estava dormindo ou atrofiada: a sensibilidade para perceber

nos outros aquilo que de mais valioso existe

em cada um de nós, humanos,

viventes nesta pequena bolinha

dentro do Universo infinito.

 

 

Como é interessante e necessário conhecer

a vastidão do universo, a grandiosidade

sem limites do macrocosmo e, ao mesmo tempo, voltar os olhos e a reflexão

sobre a grandiosidade

e o mistério da nossa ‘pequenez’.

 

 

É estupendo constatar

que somos capacitados

para penetrar os mistérios

do Universo Infinito

e ao mesmo tempo

da nossa própria personalidade,

que é também um infinito universo,

decifrável, mas ainda muito,

muito misteriosa.

 

 

Dentro do finito

do nosso universo próximo e diário,

dentro da nossa cidade,

no nosso bairro,

centenas de pessoas cruzam-se

umas esbarrando-se nas outras,

todos os dias, todas as horas.

 

 

A experiência do dia a dia

escala a rotina para influir

no grau de qualidade

das nossas relações.

 

 

A rotina

produz efeitos de esvaziar,

de apagar, de anestesiar,

de descolorir,

de ofuscar nossos olhos,

nossa sensibilidade,

mantendo-nos

na periferia das aparências.

 

 

A rotina

possui uma irmã,

a preguiça

e um irmão,

o comodismo,

e a desistência de pensar.

 

 

A ação desta família

interfere na profundidade

que nossa inteligência precisa

para alcançar e perceber

os valores da verdade,

quase sempre escondidas

num nível de maior profundidade,

como o ouro e o diamante,

escondidos no fundo da terra,

na natureza.

 

 

     De repente, ali na minha frente, em cima do chão lavado pela chuva e varrido pelo vento, um tesouro, um diamante ou uma pepita de ouro.

 

 

Continuei soltando

as rédeas dos meus pensamentos.

 

 

A imaginação voava

e dançava e deslizava na maionese.

 

 

E sem perceber acabei dormindo.

 

 

Dormindo

sonhei com o senhor de mais idade.

 

 

Sonhei

que já estava de novo conversando com ele.

 

 

Sonhando eu quis acordar ligeiro para transformar meu sonho em realidade.

 

 

Acordei

e quis que o dia se apressasse

para chegar logo a parte da tarde,

porque a tardinha, a tardinha seria especial.

 

 

Eu iria encontrar de novo

aquele senhor de mais idade.

 

 

Quem é este senhor grisalho?

 

 

Não sei nada dele,

só sei que existe nele algo,

algo que não sei ainda definir.

 

 

Mas sabe de uma coisa:

nem quero mesmo defini-lo.

 

 

 

Definir

é próprio de filósofos e cientistas

que ao definirem,

dissecam todos os mistérios

dos objetos pesquisados.

 

 

         Há muito de mistério e de sabedoria dentro daquele ser humano tão simples, marcado pela vida, esculpido de arte pela sabedoria.  

 

 

A tarde estava chegando.

 

 

O que não ia embora

era a impaciência.

 

 

         Aí eu lembrei que estava ansioso para o novo encontro, mas não havia feito nenhum planejamento.

 

         Apenas esperava o momento de encontrar-me de novo com o senhor de mais idade.

 

          Eis então o tempo certo para elaborar um planejamento para este encontro.

 

         Quando olhei para o relógio de parede, faltavam quinze minutos para as dezessete horas.

 

           Já vou indo. Quero chegar antes dele.

 

 

Antes das cinco,

lá estava ele, esperando-me.

 

 

- Olá, eu disse e ele respondeu olá,

agitando a mão direita para cima.

 

 

E começamos a caminhada,

avenida abaixo.

 

 

Em total silêncio andamos algumas dezenas de metros sem que nenhum de nós falasse qualquer palavra.

.

Um incrível silêncio

Se colocou no meio de nós.

 

 

Um silêncio

que exigia uma preparação interna, íntima, criando uma atmosfera de respeito,

sugerindo a veneração.

 

 

 

Mais alguns segundos

e eu não conseguiria segurar-me.

 

 

         Mas foi ele quem tomou a iniciativa

como quem já soubesse da pergunta que eu faria.

 

 

         Rompendo o silêncio mais longo

que já tinha experimentado até então,

ele falou:

 

- ‘Boa tarde.  Que você tenha uma tarde maravilhosa”.

 

- Sei da tua curiosidade sobre o meu nome e vou procurar te contar a minha história.

 

 

- Hoje você me vê assim, extrovertido e alegre, caminhando quase dançando, mas não fui sempre assim.

 

 

- Hoje sou alegre e extrovertido porque não consigo conter dentro de mimo sentimento de gratidão e de admiração por estar vivendo neste mundo.

 

    

- Você seria capaz de dar um grito, bem alto, aqui nesta pista pública, na Avenida Arthur Bernardes, nesta hora do dia, sem ficar nem um pouco desapontado ou encabulado?

 

 

- Não, não precisa responder.

 

- Sei que você não conseguirá porque te falta razões e motivações para tanto.

 

 

- Para você seria um ato  não condizente com a tua idade.

 

 

- Adultos não fazem isso.

 

- Adultos sentem aversão diante de situações embaraçosas e humilhantes.

 

 

- Se você fosse uma criança, com alegria espalhada na face, faria isso facilmente e repetiria dezenas de vezes, dando gargalhadas de si mesmo e das reações dos adultos curiosos em volta.

 

 

- Crianças fariam isso porque não estão carregando ainda nas suas mochilas, conceitos e preconceitos, próprio dos adultos egoístas,  interessados em manter um padrão de normalidade.

 

                                          Sem que eu esperasse 

ou me preparasse

para o que estava para acontecer, 

me vi diante de um senhor grisalho,

gritando: HHHEEEEEEEIIIIIIPPPPPPOO.

 

    

Me dei conta

de que eu estava diante

de uma pessoa 'anormal'.

 

Se ao menos ele esperasse

o momento

em que poucas pessoas

estivessem por perto ...

 

Mas nem percebi

se ele escolheu aquele momento ou não,

pois eu não estava prestando atenção

no ambiente externo.

 

Para mim,

até aquele momento

só existiam nós dois

no deserto do mundo.

 

 

 - Você está escandalizado com o que fiz?

 

Olha, digamos, bem ...

Gaguejei, sem ter coragem de responder.

 

 

  - Veja bem, eu fiz isso porque recuperei a minha infância original.

 

- Rompi com os preconceitos.

 

- Sou de novo livre.

 

- Estou me sentindo como uma criança no quintal da minha casa e junto com alguém que me deixa à vontade.

 

- Não quero que fique escandalizado ou com vergonha, querendo esconder-se ou ir embora.

 

- O que acabei de fazer foi soltar a pressão da minha panela de pressão.

 

- Este grito demonstra a mais perfeita e genuína alegria.

 

- Este grito é o resultado de uma explosão.

 

- É uma explosão de energias boas.

 

- É um escape da panela de pressão, resultado da assimilação de tudo o que é bom, artístico, belo, justo e digno de ser cultivado.

 

 

Aí, falei apenas uma frase: este teu gesto foi um grito de liberdade e de gratidão.

 

 

É como o grito do Tiradentes:

“Independência ou morte”.

 

 

A tarde também já estava indo embora.

A noite já tinha chegado sem avisar.

E nós dois, absortos, trocamos olhares.

 

 

E desejamos um ao outro: Boa noite ...

 

 

- Boa noite, e até amanhã.

 

 

Sim, até amanhã,

neste mesmo horário,

Sr. Heipo grisalho.

 

 

 

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 17/02/2016. 


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