De novo, caminhando à
tardinha, pela Avenida Arthur Bernardes, em Curitiba, Pr, e, de novo com aquele
bom velhinho apaixonado por caminhadas.
Esta vez quem começou o diálogo fui eu.
E logo perguntei? Quantos anos o Sr. tem?
Aparento 60 a 65 anos. Mas me sinto como
quem está com 27 anos.
Como é ter 65 e sentir-se com 27 anos?
Ele pegou-me gentilmente pelos braços, afastando-nos um pouco para o lado da
pista e respondeu-me mais ou menos com estas palavras:
- Ter 65 anos e
viver como quem tem 27 é viver de uma forma adaptada sem fugir do momento
presente, sem ficar retido no passado, nos ‘bons tempos’. Minha carga veio
comigo, minha idade, mas meu espírito me renova.
- Ter 27 anos ou
não ter é viver intensamente o momento presente. Isso é um sentimento tão nobre
que me dá a sensação de que sou eterno, sem nenhuma idade.
- Sinto-me
privilegiado e honrado por já ter vivido quase vinte e quatro mil dias.
- Quem considera
este número uma boa soma de dias e noite? Vinte e quatro mil dias e noites,
vividos.
- Não me assusto com
este número.
- A partir do
instante em que tomei consciência de já ter vivido tanto tempo fiz uma
reavaliação da minha vida.
- Decidi descer do
trem automático da vida.
- Percebi que a
pressa empobrece alguns elementos importantes do viajar.
- Belezas e valores
existem por toda parte.
- Andar mais
lentamente, dando as mãos à vida, caminhando junto com a vida e com os vivos,
escolhendo valores melhores, aqueles nossos, profundamente humanos, como este
que estamos convivendo juntos, agora.
Ele
falou sobre a sua filosofia de vida atual, seus sonhos, amigos e afazeres. Com
os ouvidos bem abertos e boquiaberto ia absorvendo baldes de sabedoria em doses
de comprimidos concentrados, como alimento de astronauta.
Continuamos a caminhada conversando (ou melhor, eu só ia escutando) sobre um
mundão de assuntos que ele dominava: a vida com suas faces e interfaces, sobre
a cara e “o coroa” da vida, brincava ele.
Ele falava das coisas que atualmente mais gosta, principalmente caminhar à
tardinha para curtir as cores do entardecer... e alguém com quem caminhar e
partilhar estas coisas boas.
Não vimos o tempo passar.
Anoiteceu rapidamente e nos despedimos.
Disse a ele que foi bom tê-lo como
companheiro de caminhada. E ele disse: igualmente. Então lhe fiz uma nova
pergunta:
- Podemos
continuar caminhando juntos? Que tal amanhã, neste mesmo horário?
- Sim, até amanhã,
aqui, neste mesmo horário.
Anoiteceu.
As luzes naturais foram embora.
Imediatamente as luzes artificiais se apresentaram e eu voltava para casa
acompanhado pelos bons pensamentos e bons sentimentos, enriquecidos pela amizade
conquistada e bem cultivada com este senhor com mais idade e muito mais
sabedoria do que eu.
Chegando em casa contei para minha esposa que tinha encontrado aquele senhor com
quem havia caminhado dias atrás.
Comentei com ela a pessoa maravilhosa que ele é e que se dava a conhecer
enquanto estávamos caminhando.
Aquela noite foi especial. Não consegui tirar dos meus pensamentos aquela
simpática pessoa.
À noite fiquei pensando com quantas pessoas eu já tinha cruzado nas minhas
caminhadas.
Grande parte das pessoas com quem cruzamos no dia a dia, são conhecidas.
Reconheço-as, familiarizadas pelo jeito de andar ou correr ou mesmo pelo
‘uniforme’ ou trajes costumeiros.
São vizinhos ou caminhantes de rotina.
Não há nada de especial nelas.
Mas neste senhor grisalho, com apenas dois encontros, encontrei muito ‘pano
para manga’ e questionamentos para minhas filosofadas.
De
banho tomado, deitado, e pronto para dormir, aparece na tela da minha mente, a
visita do velhinho. A visita mental desperta meu sono.
Bem acordado, aceito o sono perder para me perguntar sobre as características
fundamentais e também das diferentes formas de viver das pessoas humanas.
Nas nossas andanças encontramos pessoas que vivem expressando alegria, contentamento,
satisfação; e outras que demonstram tristeza, preocupações, fechadas, sem
nenhuma demonstração de que são recheadas de emoções.
E nos perguntamos
o porquê de tais expressões.
Quantas pessoas encontramos
todos os dias
que não nos chamam
a atenção.
De repente,
uma única pessoa, diferente,
ainda não sei no quê, me chama a atenção, despertando em mim, algo que
estava dormindo ou atrofiada: a sensibilidade para perceber
nos outros aquilo que de mais valioso existe
em cada um de nós, humanos,
viventes nesta pequena bolinha
dentro do Universo infinito.
Como é interessante e necessário conhecer
a vastidão do universo, a grandiosidade
sem limites do macrocosmo e, ao mesmo tempo, voltar os olhos e a
reflexão
sobre a grandiosidade
e o mistério da nossa ‘pequenez’.
É estupendo constatar
que somos capacitados
para penetrar os mistérios
do Universo Infinito
e ao mesmo tempo
da nossa própria personalidade,
que é também um infinito universo,
decifrável, mas ainda muito,
muito misteriosa.
Dentro do finito
do nosso universo próximo e diário,
dentro da nossa cidade,
no nosso bairro,
centenas de pessoas cruzam-se
umas esbarrando-se nas outras,
todos os dias, todas as horas.
A experiência do dia a dia
escala a rotina para influir
no grau de qualidade
das nossas relações.
A rotina
produz efeitos de esvaziar,
de apagar, de anestesiar,
de descolorir,
de ofuscar nossos olhos,
nossa sensibilidade,
mantendo-nos
na periferia das aparências.
A rotina
possui uma irmã,
a preguiça
e um irmão,
o comodismo,
e a desistência de pensar.
A ação desta família
interfere na profundidade
que nossa inteligência precisa
para alcançar e perceber
os valores da verdade,
quase sempre escondidas
num nível de maior profundidade,
como o ouro e o diamante,
escondidos no fundo da terra,
na natureza.
De repente, ali na minha
frente, em cima do chão lavado pela chuva e varrido pelo vento, um tesouro, um
diamante ou uma pepita de ouro.
Continuei soltando
as rédeas dos meus pensamentos.
A imaginação voava
e dançava e deslizava na maionese.
E sem perceber acabei dormindo.
Dormindo
sonhei com o senhor de mais idade.
Sonhei
que já estava de novo conversando com ele.
Sonhando eu quis acordar ligeiro para transformar meu sonho em
realidade.
Acordei
e quis que o dia se apressasse
para chegar logo a parte da tarde,
porque a tardinha, a tardinha seria especial.
Eu iria encontrar de novo
aquele senhor de mais idade.
Quem é este senhor grisalho?
Não sei nada dele,
só sei que existe nele algo,
algo que não sei ainda definir.
Mas sabe de uma coisa:
nem quero mesmo defini-lo.
Definir
é próprio de
filósofos e cientistas
que ao definirem,
dissecam todos os
mistérios
dos objetos
pesquisados.
Há muito de mistério e de sabedoria dentro daquele ser
humano tão simples, marcado pela vida, esculpido de arte pela sabedoria.
A tarde estava chegando.
O que não ia embora
era a impaciência.
Aí eu lembrei que estava ansioso para o novo encontro, mas
não havia feito nenhum planejamento.
Apenas esperava o momento de encontrar-me de novo com o
senhor de mais idade.
Eis então o tempo certo para elaborar um planejamento
para este encontro.
Quando
olhei para o relógio de parede, faltavam quinze minutos para as dezessete
horas.
Já vou
indo. Quero chegar antes dele.
Antes das cinco,
lá estava ele, esperando-me.
- Olá, eu disse e ele respondeu olá,
agitando a mão direita para cima.
E começamos a caminhada,
avenida abaixo.
Em total silêncio
andamos algumas dezenas de metros sem que nenhum de nós falasse qualquer
palavra.
.
Um incrível silêncio
Se colocou no meio de nós.
Um silêncio
que exigia uma preparação interna, íntima, criando uma atmosfera de
respeito,
sugerindo a veneração.
Mais alguns segundos
e eu não conseguiria segurar-me.
Mas foi
ele quem tomou a iniciativa
como quem já soubesse da pergunta que eu faria.
Rompendo o silêncio mais longo
que já tinha
experimentado até então,
ele falou:
- ‘Boa tarde. Que você tenha uma tarde maravilhosa”.
- Sei da tua
curiosidade sobre o meu nome e vou procurar te contar a minha história.
- Hoje você me vê
assim, extrovertido e alegre, caminhando quase dançando, mas não fui sempre assim.
- Hoje sou alegre
e extrovertido porque não consigo conter dentro de mimo sentimento de gratidão e
de admiração por estar vivendo neste mundo.
- Você seria capaz
de dar um grito, bem alto, aqui nesta pista pública, na Avenida Arthur
Bernardes, nesta hora do dia, sem ficar nem um pouco desapontado ou encabulado?
- Não, não precisa
responder.
- Sei que você não
conseguirá porque te falta razões e motivações para tanto.
- Para você seria
um ato não condizente com a tua idade.
- Adultos não
fazem isso.
- Adultos sentem
aversão diante de situações embaraçosas e humilhantes.
- Se você fosse
uma criança, com alegria espalhada na face, faria isso facilmente e repetiria
dezenas de vezes, dando gargalhadas de si mesmo e das reações dos adultos
curiosos em volta.
- Crianças fariam
isso porque não estão carregando ainda nas suas mochilas, conceitos e
preconceitos, próprio dos adultos egoístas, interessados em manter um padrão de
normalidade.
Sem que eu esperasse
ou me preparasse
para o que estava para acontecer,
me vi diante de um senhor grisalho,
gritando: HHHEEEEEEEIIIIIIPPPPPPOO.
Me dei conta
de que eu estava diante
de uma pessoa 'anormal'.
Se ao menos ele esperasse
o momento
em que poucas pessoas
estivessem por perto ...
Mas nem percebi
se ele escolheu aquele momento ou não,
pois eu não estava prestando atenção
no ambiente externo.
Para mim,
até aquele momento
só existiam nós dois
no deserto do mundo.
- Você está escandalizado com o que fiz?
Olha, digamos, bem ...
Gaguejei, sem ter coragem de responder.
- Veja bem, eu fiz isso porque
recuperei a minha infância original.
- Rompi com os preconceitos.
-
Sou de novo livre.
- Estou me sentindo
como uma criança no quintal da minha casa e junto com alguém que me deixa à
vontade.
- Não quero que
fique escandalizado ou com vergonha, querendo esconder-se ou ir embora.
-
O que acabei de fazer foi soltar a pressão da minha
panela de pressão.
-
Este grito demonstra a mais perfeita e genuína
alegria.
-
Este grito é o resultado de uma explosão.
-
É uma explosão de energias boas.
- É um escape da panela de pressão, resultado da
assimilação de tudo o que é bom, artístico, belo, justo e digno de ser
cultivado.
Aí, falei apenas uma frase: este teu gesto foi um grito de liberdade e de gratidão.
É como o grito do Tiradentes:
“Independência ou morte”.
A tarde também já estava indo embora.
A noite já tinha chegado sem avisar.
E nós dois, absortos, trocamos olhares.
E desejamos um ao outro: Boa noite ...
- Boa noite, e até amanhã.
Sim, até amanhã,
neste mesmo horário,
Sr. Heipo grisalho.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 17/02/2016.
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