quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

68.- Entardecer. Pacotes de mansidão. Não me distraia: estou decifrando as mensagens das nuvens.






Em companhia do Entardecer. 


O dia já tinha dado o que podia.

Nada mais a esperar dele.




Só resta a tarde,

para dar-me,

o que agora necessito.





Se o dia, agitado, já está indo,

que venha agora, o entardecer,

e a noite que me acalma

e me prepara

para os meus bens.




A tarde estava enfeitada,

pintada

com as diferentes cores laranja,

azul e listras brancas no céu.




O sol estava se arrumando

para ir trabalhar

no outro continente.




      Imediatamente percebi 
que estava filosofando, 
perguntando-me como pode as pessoas, 
andarem indiferentes a tamanha beleza, 
gratuitamente exposta 
acima das nossas cabeças. 




Que mistério é este, 
de gente pobre, feliz 
e gente rica, pobre de visão? 




A agitação provocada 
pela ambição de tudo querer, 
tudo conseguir, tudo conquistar, 
de tudo tirar proveito, 
e não saber ler a vida, 
suas mensagens que todo dia, 
toda tarde, toda noite 
transmite a quem nada quer, 
a quem nada tem e de nada precisa. 




Tão pouca coisa necessitamos 
para fazer a alegria explodir. 

Basta perceber o ar que temos para respirar, 
colocar os olhos para ver e admirar, 
abrir os ouvidos para ouvir, 
perceber a natureza toda, 
as pessoas movimentando-se harmoniosamente. 




A vida está viva. 





Vivemos 
quando nos colocamos 
em contato com a vida, 
com o movimento.



 Assim é também com a vida: 
ela é bela 
quando entramos em contato 
com as belezas; 
ela é bondosa 
quando entramos em contato 
com a bondade; 
ela é sagrada 
quando percebemos 
que tudo foi feita por amor, 
pelo Pai, para nós, filhos e herdeiros.  
 






 Carros passam rapidamente 
pela esquerda e pela direita. 
E com que velocidade! 
E eu, a pé, andando. 




O barulho não incomoda 
quando se escolhe 
onde colocar a atenção.  




Minha atenção estava focada 
em outra tela. 




       Você já viu uma pintura viva, 
movimentando, mudando de cores, 
de maquiagem, a cada instante? 




Todo entardecer
 é uma obra de arte. 




     Todo entardecer 
é uma exposição de quadros belíssimos, 
que vão se transformando lentamente, 
alterando listras, rabiscos, 
rascunhos de imagens, 
ora reforçando cores, 
ora apagando 
ou desaparecendo cores e tonalidades. 




Logo ali, acima das nossas cabeças,

o céu se mostra imenso,

em constante movimento.




     Nuvens baixas, escuras, pesadas, 
voando rapidamente, 
carregadas de cinzas, 
ou de poluição, 
em constante mudanças 
em suas formas. 



     Contrastando com as pesadas e escuras nuvens, 
bem acima, como que contemplando 
a ilusão da correria, pequenas nuvens, 
pequenos rabiscos ou rabos de galo, 
as pequenas e delicadas nuvens brancas. 



     As nuvens grossas, baixas, 
dão a impressão 
de que estão correndo na contramão, 
desfazendo-se ou evaporando-se, 
alterando suas formas muito rapidamente.  



     As nuvens leves, de cima, 
calmas e serenas, 
com poucas mudanças em seus contornos, 
mantém um desfile lento e leve, 
permanecem inalteradas por mais tempo. 



     Em menos de uma hora
as transformações são muitas. 



     Enquanto este espetáculo 
está se apresentando 
não há como ficar indiferente. 



Achei, achei um tempinho

para a contemplação.




     Quando estamos envolvidos 
por este processo de admirar 
o que está acontecendo fora de nós, 
é o momento em que ocorre em nosso interior 
um processo de reconhecimento 
da nossa pequenez
diante de um universo tão grande. 



     Surgem sentimentos 
que depressa despertam 
pensamentos de gratidão 
por estes momentos de bem estar. 



     A tardinha vem chegando. 



     Nossos olhos contemplam 
espetáculos ao ar livre 
que estão acontecendo 
a dezenas e centenas de quilômetros, 
sem nenhum som. 



     Sem nenhum som ... 
e não faz falta. 



     O show não fica prejudicado. 



     A coloração do laranja para o vermelho 
vai evoluindo lentamente. 




     O barulho vai reduzindo seu poder 
e o silencio vai se apresentando. 




          A caminhada já está acontecendo 
na etapa da volta, 
e não se percebe. 

A ida é bela.


A volta é leve.



            A companhia escolhida 
é aquela que faz bem, 
aquela em que decido concentrar 
minha atenção.


Nos lados, a agitação.

No fundo, a tranquilidade.

No céu, shows do entardecer.




Em casa, minha família esperando

e eu voltando, com pacotes de mansidão.





Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 21/01/2017


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