Em companhia do Entardecer.
O dia já tinha
dado o que podia.
Nada mais a
esperar dele.
Só resta a tarde,
para dar-me,
o que agora
necessito.
Se o dia, agitado, já
está indo,
que venha agora, o
entardecer,
e a noite que me
acalma
e me prepara
para os meus bens.
A tarde estava
enfeitada,
pintada
com as diferentes
cores laranja,
azul e listras
brancas no céu.
O sol estava se
arrumando
para ir trabalhar
no outro continente.
Imediatamente
percebi
que estava filosofando,
perguntando-me como pode as pessoas,
andarem
indiferentes a tamanha beleza,
gratuitamente exposta
acima das nossas
cabeças.
Que mistério é
este,
de gente pobre, feliz
e gente rica, pobre de visão?
A agitação
provocada
pela ambição de tudo querer,
tudo conseguir, tudo conquistar,
de tudo
tirar proveito,
e não saber ler a vida,
suas mensagens que todo dia,
toda
tarde, toda noite
transmite a quem nada quer,
a quem nada tem e de nada
precisa.
Tão pouca coisa
necessitamos
para fazer a alegria explodir.
Basta perceber o ar que temos para
respirar,
colocar os olhos para ver e admirar,
abrir os ouvidos para ouvir,
perceber a natureza toda,
as pessoas movimentando-se harmoniosamente.
A vida está viva.
Vivemos
quando nos
colocamos
em contato com a vida,
com o movimento.
Assim é também com a vida:
ela é bela
quando
entramos em contato
com as belezas;
ela é bondosa
quando entramos em contato
com a bondade;
ela é sagrada
quando percebemos
que tudo foi feita por amor,
pelo Pai, para nós, filhos e herdeiros.
Carros passam rapidamente
pela esquerda e pela
direita.
E com que velocidade!
E eu, a pé, andando.
O barulho não
incomoda
quando se escolhe
onde colocar a atenção.
Minha atenção
estava focada
em outra tela.
Você já
viu uma pintura viva,
movimentando, mudando de cores,
de maquiagem, a cada
instante?
Todo
entardecer
é uma obra de arte.
Todo entardecer
é uma
exposição de quadros belíssimos,
que vão se transformando lentamente,
alterando
listras, rabiscos,
rascunhos de imagens,
ora reforçando cores,
ora apagando
ou
desaparecendo cores e tonalidades.
Logo ali, acima das
nossas cabeças,
o céu se mostra
imenso,
em
constante movimento.
Nuvens baixas, escuras,
pesadas,
voando rapidamente,
carregadas de cinzas,
ou de poluição,
em
constante mudanças
em suas formas.
Contrastando com as
pesadas e escuras nuvens,
bem acima, como que contemplando
a ilusão da
correria, pequenas nuvens,
pequenos rabiscos ou rabos de galo,
as pequenas e
delicadas nuvens brancas.
As nuvens grossas, baixas,
dão a impressão
de que estão correndo na contramão,
desfazendo-se ou
evaporando-se,
alterando suas formas muito rapidamente.
As nuvens leves, de cima,
calmas e serenas,
com poucas mudanças em seus contornos,
mantém um desfile
lento e leve,
permanecem inalteradas por mais tempo.
Em menos de uma hora
as
transformações são muitas.
Enquanto este espetáculo
está se apresentando
não há como ficar indiferente.
Achei, achei um
tempinho
para a contemplação.
Quando estamos envolvidos
por este processo de admirar
o que está acontecendo fora de nós,
é o momento em
que ocorre em nosso interior
um processo de reconhecimento
da nossa pequenez
diante de um universo tão grande.
Surgem sentimentos
que
depressa despertam
pensamentos de gratidão
por estes momentos de bem estar.
A tardinha vem chegando.
Nossos olhos contemplam
espetáculos ao ar livre
que estão acontecendo
a dezenas e centenas de
quilômetros,
sem nenhum som.
Sem nenhum som ...
e não
faz falta.
O show não fica
prejudicado.
A coloração do laranja
para o vermelho
vai evoluindo lentamente.
O barulho vai reduzindo
seu poder
e o silencio vai se apresentando.
A
caminhada já está acontecendo
na etapa da volta,
e não se percebe.
A ida é bela.
A volta é leve.
A
companhia escolhida
é aquela que faz bem,
aquela em que decido concentrar
minha
atenção.
Nos lados, a agitação.
No fundo, a tranquilidade.
No céu, shows do entardecer.
Em
casa, minha família esperando
e
eu voltando, com pacotes de mansidão.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 21/01/2017
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