quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

63.- Alma. Caverna do diabo ou Alma da Terra?




Sonhador que fui,

sonhador que sou

um dia querer conhecer e ver

a alma de perto.

 

Procurando a alma descobri, duas almas:

A alma da terra e a minha própria alma.

 

Este chão que piso

me é sagrado

me sustenta 

e faz parte de mim.

 

Já tinha ouvido falar das minhas origens.

 

Pesquisas, de onde vim,

consumiram

 minutos,

horas, dias, semanas,

meses e anos.

 

Mas lá fui eu,

a procura da alma.

 

Que estranha a força do preconceito;

quão bela a força do símbolo;

quanto de significados na força das palavras;

quanta eloquência na força do silêncio.

 

Quanta paz também se encontra

na falta de luz.

 

Foi dentro da Caverna do Diabo,

na cidade de Eldorado, no Estado de São Paulo,

dia primeiro de agosto de dois mil e quatro,

às 13 horas,

que encontrei e encontrei-me.

 

Fitei meus olhos na alma da terra.

 

Nada que sabia do diabo lá dentro vi.

 

Entrei no interior da montanha,

por uma fresta, uma fenda, um buraco.

 

Do lado de fora é uma coisa.

 

Do lado de dentro, no interior, é outra.

 

Do lado externo nada se vê

que revele o que é por dentro.

 

Nem se imagina

o que dentro há,

e como por dentro é.

 

Por fora, um tipo de natureza;

lá dentro, uma natureza diferente,

produzida pela água, em composição

com outros elementos.

 

A alma da terra é composta

por alguns poucos elementos:

um rio subterrâneo,

com seus contornos e cânticos,

como que sendo

o sangue a circular

e a gerar oxigênio.

 

Não seria possível

suportar o silêncio,

a solidão da alma

sem o suave barulho

do movimento das águas.

 

A alma da terra é uma unidade composta

pela harmonia de poucos elementos:

a água pingando continuamente,

de cima para baixo,

modelando peças

ou personagens

que recebem nomes

por suas semelhanças

com coisas que conhecemos.

 

Não será isso, a graça,

que recebemos todos os dias

e nos mantém úmidos,

modelando-nos

como personagens

de um mundo novo

que desejamos?

 

A alma é composta por grutas,

passarelas, subidas,

descidas, abismos, alturas,

labirintos,

salões enormes,

corredores sem fim.

 

A Caverna do Diabo

possui uma extensão de

quase seis mil metros,

explorada e conhecida

apenas por alguns poucos guias.

 

É conhecida, iluminada e visitada

apenas por uma curta distância

de quinhentos metros,

onde recebeu acabamentos,

grades, passarelas, e iluminação,

para segurança dos visitantes.

 

Quanta beleza

falta ainda

para conhecermos.

 

Talvez seja assim também a nossa alma.

 

Tão pouco conhecemos dela.

 

Se não houver uma luz artificial,

na alma da terra,

não se consegue ver a beleza

estonteante que há nesta alma.

 

Se você quiser aprofundar-se

sobre as belezas

que lá existem,

não tenha pressa

em mudar seus passos,

ou em mudar de lugar.

 

Já na primeira vista

é de petrificar

e de não acreditar.

 

É a força da beleza

a exercer a sua missão.

 

É o gostinho do mistério

a alargar as brechas da razão;

é a força do mistério insistindo

para entrar numa outra dimensão.

 

A alma da terra, por analogia,

fala da alma que mora na nossa carne.

 

Que mistério é esse

de uns enxergarem a beleza,

a mensagem da alma,

e outros não?

 

Deixemos entrar

a questão do desconhecimento.

 

Desconhecer é argumento

para afirmar a não existência?

 

O desconhecimento,

a desordem e a confusão,

são por acaso, professoras?

 

É a falta de norte

ou a falta de visão do objeto

que nos torna incrédulos?

 

A ignorância

ou a falta do conhecimento

é uma venda que coloco

em meus olhos, por opção,

não permitindo uma aventura nova

que, como colírio,

ajuda a abrir bem os outros olhos que

apreendem a contemplar as verdades

escondidas, que despertam emoção.

 

Não me conformo

em estar quase no paraíso

e me comportar como se ‘ainda não’.

 

Por isso, busco mais cavernas,

que me revelem os mistérios

da minha alma.

 

Quero continuar procurando cavernas.

 

Quero crer na alma, pesquisar a alma

e ser um cientista da alma.

 

No lado de dentro das coisas

está a verdade,

que se transforma em beleza.

 

Beleza que cativa,

beleza que faz discurso

sem pronunciar palavras...

 ... e convence.

 

Reside na alma o mapa do caminho.

 

O rio que entra na caverna,

faz caminho, acha uma saída

e sai enriquecido e promovido.

 

Se um dia me for possível sugerir,

o nome correto da Caverna do Diabo

quero que seja o corpo que abriga a

 Alma da Terra.

 

 

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 13/02/2016



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