quarta-feira, 25 de outubro de 2023

828.- Escritores. A tristeza dos escritores.



É triste o escritor

que escreve

mas não consegue

escutar o eco,

o retorno emotivo do leitor.

 

O escritor

deseja, sentindo,

semear suas letras

no coração do universo.

 

Há tantos tipos de solos,

pedregoso, arenoso, poluído,

espinhoso, seco, lavado, invadido,

há também a terra boa, que produz frutos.

 

O escritor

deseja, com emoções,

alimentar o humus do ser humano,

a fome de afetividade e de realização. 

 

O escritor não se sente realizado

se não consegue irrigar, umedecer

a ‘flor da pele’ da mulher.

 

É triste o escritor

que escreve para os ventos.

Suas letras perdem-se,

nos ares e mares,

e afundam nas águas paradas.

 

O escritor fica triste

porque as palavras, as ideias,

as letras, nascem e logo morrem,

quando colocadas no túmulo dos papeis,

e não são vivificadas no coração da gente.

 

Endereçadas para a interioridade,

morreram na periferia do pensar árido.

 

As letras, as palavras

desejam ultrapassar

as barreiras do juízo,

do julgamento,

dos erros de ortografia,

da falta de rima,

para aterrissar no coração.

 

O escritor

escreve para o coração,

mais do que para a razão.

 

O leitor que se deixa envolver pela crítica

não absorve, não degusta o sabor do alimento.

 

A mente que sempre quer ter razão,

não deixa espaço e nem condições

para a palavra chegar ao coração.

 

Ela, a razão,

quer sempre estar no comando.

 

Mais do que a racionalidade

o ser humano sobre-existe ou sobrevive

por causa da sensibilidade.

 

Eu não me sei vivo.

Não me penso,

não me leio

como pensamento.

 

Eu me leio, me ‘sinto’ um ser vivo,

mais sensível, sujeito a variações

em meu humor.  

 

A mente é neutra.

 

É o sentir, a sensibilidade,

que me dá a certeza da vida.

 

É de afeto, de ternura,

de carinho e de compreensão

que encho de entusiasmo

e alegria os meus dias.

 

O escritor

escreve as letras

que nascem lá das raízes,

da profundidade, da sensibilidade.

 

O escritor leu a vida,

lê-se a si mesmo e se conhece.

 

Sabe que o que falta lá dentro,

aquilo que preenche o vazio

de cada ser humano

não cabe na cabeça

mas tem o espaço

a ser preenchido,

no coração.

 

É o sentir, os sentimentos, as emoções

que fazem a diferença nas pessoas,

não a inteligência.  

 

É o coração poeta

que semeia.

 

É o coração poeta

que colhe.

 

Quando você lê,

você se posiciona

e ativa sua cabeça pensante.

 

Terias muito mais deleite e prazer

se deixasse que seu coração

comandasse o destino

do que teus olhos colhem.

 

Se lês com a mente,

o coração não sente.

 

Se lês com os olhos do coração,

a emoção te surpreende. 

 

Se lês com todo o teu seu,

com sua mente, com coração

e com os sentimentos,

você consegue entrar

e participar do cenário,

onde as letras se unificam,

onde o conteúdo da leitura se desenvolve,

e então você sente esquentar lá dentro

as energias que brotam do coração.

 

E é bem aí que você se sente vivo,

junto com os vivos.


Eneas Paulo Budel Bogucheski

Atualizado em 01/04/2023

eneaspb@gmail.com  

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