Espelho, espelho meu
quem
te deu autoridade
para
mudar, pintar, enrugar
enfeiar
e alterar meu semblante físico?
Também
conheço teus defeitos:
não
consegues me ver por dentro,
além
do que vês e pensa que sou.
Ficas
apenas com minha geografia
e
ignoras toda minha psicologia.
Para
que serves, espelho de vidro
se
não consegues ver nem refletir
meu
ser espiritual, sempre jovem,
que
permanece inalterado,
dentro
desta casca
sujeita
a enfeites e desgastes.
Meu
eu original permanece escondido,
lá
dentro, nas profundidades
das
minhas raízes e origem,
imagem
e semelhança com meu Criador,
imutável,
perfeito e eterno.
Seria
bom se não existisse o espelho,
esse
danado retrovisor da vida
que
revela para nós que o tempo
vai
deixando marcas em nossa fisionomia,
alterando
os traços e as cores
das
nossas antigas fotografias.
O
espelho
é
mais amigo da mentira
do
que da verdade,
mais
da dimensão visível,
menos,
quase nada, da invisível.
Se
não fossem os espelhos,
(que
apenas revelam
o
que somos por fora,
mas
não enxergam
o
que somos por dentro),
seríamos
sempre jovens.
Se
não fossem os espelhos,
teríamos
menos defeitos para revelar.
Sem
o espelho do mundo,
sem
os critérios de seleção,
de
separação e divisão,
a
simplicidade e a coerência
seriam
sempre naturais e assim
voaríamos
e existiríamos
como
as borboletas e os pássaros.
O
meu eu não é captado
pelos
espelhos do mundo.
O
meu eu não é deste mundo visível.
O
meu eu é de dentro, da eternidade
já
presente no interior desta casca
que
o espelho não consegue penetrar,
nem
sequer ler e interpretar.
Os
espelhos deste mundo
tentam
seduzir-me, pintar-me,
maquiar-me
com seus produtos,
que
desbotam e deformam minha essência.
Mas,
se brigo com o espelho,
e
oponho-lhe resistências,
mantenho
minha imagem
identificada
com o modelo
de
perfeição eterno
que
me foi proposto
em
minha formação.
Não
permito que seja deformada
minha
primeira imagem, original.
Gosto
demais de mim,
tal
qual sou,
com
ou sem o uso do espelho.
Demorei
para conquistar-me
descobrir-me,
enamorar-me.
Não
permito perder-me, de novo.
Existe
uma vida independente
dentro
de mim.
Meu
mundo interior é infinito,
do
tamanho do universo inexplorado.
Sou
um ser distinto,
diferente
de qualquer objeto,
de
lugar, tempo ou circunstância.
Sou
consciência de mim,
sou
o eu com o qual me relaciono
e
me comunico no mundo, com outros mundos,
visíveis
ou invisíveis, reais ou virtuais.
Não
me identifico com o espelho.
Não
sou o que o espelho sugere.
Não
sou o espelho.
Nem
o reflexo vivo
que
dele reflete.
Se
saio da sua frente
o
espelho já não tem mais
nenhuma
utilidade.
Meu
eu subsisto fora do espelho.
Não
sou um mundo imóvel, fechado.
Sou
aberto a outros mundos.
Sou
maior, pessoa, emancipada,
aberta,
projetada para a eternidade.
Querido
espelho,
todo
dia quase todo mundo olha para ti,
mas
não me custa dizer-te,
que
eu sou melhor,
porque
fui construído
para
ver além das aparências,
para
ler as intenções,
e
interpretar as motivações
que
cada ser carrega dentro de si.
Eneas
Paulo Budel Bogucheski
41.98854-5166
Criado e publicado no FACE em 07/09/2023.
Publicado no Blog em 27/10/2023

Nenhum comentário:
Postar um comentário