sexta-feira, 27 de outubro de 2023

859.- Espelho, não me iluda.


Espelho, espelho meu

quem te deu autoridade

para mudar, pintar, enrugar

enfeiar e alterar meu semblante físico?

 

Também conheço teus defeitos:

não consegues me ver por dentro,

além do que vês e pensa que sou.

 

Ficas apenas com minha geografia

e ignoras toda minha psicologia.

 

Para que serves, espelho de vidro

se não consegues ver nem refletir

meu ser espiritual, sempre jovem,

que permanece inalterado,

dentro desta casca

sujeita a enfeites e desgastes.

 

Meu eu original permanece escondido,

lá dentro, nas profundidades

das minhas raízes e origem,

imagem e semelhança com meu Criador,

imutável, perfeito e eterno.

 

Seria bom se não existisse o espelho,

esse danado retrovisor da vida

que revela para nós que o tempo

vai deixando marcas em nossa fisionomia,

alterando os traços e as cores

das nossas antigas fotografias.

 

O espelho

é mais amigo da mentira

do que da verdade,

mais da dimensão visível,

menos, quase nada, da invisível.

 

Se não fossem os espelhos,

(que apenas revelam

o que somos por fora,

mas não enxergam

o que somos por dentro),

seríamos sempre jovens.

 

Se não fossem os espelhos,

teríamos menos defeitos para revelar.

 

Sem o espelho do mundo,

sem os critérios de seleção,

de separação e divisão,

a simplicidade e a coerência

seriam sempre naturais e assim

voaríamos e existiríamos

como as borboletas e os pássaros.

 

O meu eu não é captado

pelos espelhos do mundo.

 

O meu eu não é deste mundo visível.

 

O meu eu é de dentro, da eternidade

já presente no interior desta casca

que o espelho não consegue penetrar,

nem sequer ler e interpretar.

 

Os espelhos deste mundo

tentam seduzir-me, pintar-me,

maquiar-me com seus produtos,

que desbotam e deformam minha essência.

 

Mas, se brigo com o espelho,

e oponho-lhe resistências,

mantenho minha imagem

identificada com o modelo

de perfeição eterno

que me foi proposto

em minha formação.

 

Não permito que seja deformada

minha primeira imagem, original.

 

Gosto demais de mim,

tal qual sou,

com ou sem o uso do espelho.

 

Demorei para conquistar-me

descobrir-me, enamorar-me.

 

Não permito perder-me, de novo.

 

Existe uma vida independente

dentro de mim.

 

Meu mundo interior é infinito,

do tamanho do universo inexplorado.

 

Sou um ser distinto,

diferente de qualquer objeto,

de lugar, tempo ou circunstância.

 

Sou consciência de mim,

sou o eu com o qual me relaciono

e me comunico no mundo, com outros mundos,

visíveis ou invisíveis, reais ou virtuais.

 

Não me identifico com o espelho.

Não sou o que o espelho sugere.

 

Não sou o espelho.

Nem o reflexo vivo

que dele reflete.

 

Se saio da sua frente

o espelho já não tem mais

nenhuma utilidade.

 

Meu eu subsisto fora do espelho.

 

Não sou um mundo imóvel, fechado.

 

Sou aberto a outros mundos.

 

Sou maior, pessoa, emancipada,

aberta, projetada para a eternidade.

 

Querido espelho,

todo dia quase todo mundo olha para ti,

mas não me custa dizer-te,

que eu sou melhor,

porque fui construído

para ver além das aparências,

para ler as intenções,

e interpretar as motivações

que cada ser carrega dentro de si.

 

Eneas Paulo Budel Bogucheski

eneaspb@gmail.com

41.98854-5166

Criado e publicado no FACE em 07/09/2023.

Publicado no Blog em 27/10/2023

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