domingo, 26 de janeiro de 2014

30.- Semente. A semente guarda uma nova forma de vida.




Em todas as criaturas 
existe um princípio de bondade, 
de finalidade intrínseca, 
como a força da semente 
querendo explodir.

 
Dentro do velho
ainda existem possibilidades.

 
A árvore velha,
por mais velha que seja,
produz sementes, sombras
e acolhimento aos pássaros. 

 
A semente guarda dentro de si
uma nova maneira de ser,
diferente do que aparenta.

 
Dentro de um casulo
está em evolução 
uma borboleta.

 
Se a semente ao explodir,
encontrar lá fora um pouco de umidade,
potencialmente tem a força
de revelar nova criatura.

 
A semente parece morta,
parece seca.

Ao explodir,
revela vida,
vida escondida,
vida diferente da original.

 
A natureza dos insetos assim nos mostra.

 
A natureza das coisas do campo
também assim nos atestam.

 
Pensei no meu pobre jeito de ser gente.
Macambuso, rabugento, pipoquento.

 
Muitas vezes, diminuindo meu potencial,
secando-me como semente,
como repolho me fechando,
diminuindo o  alcance do meu visual,
reduzindo a quase nada
a potência infinita que sou.

 
Que poder redutor tem a rotina.

 
Que poder negativo
tem a acomodação
e a preguiça.


No dia-a-dia da minha vida,
lavrador que fui e que sou,
na horta da vida, 
carrego a tendência
de só cultivar pepinos,
abóboras e ervas daninhas.

 
Moranguinhos, ameixas
e frutas gostosas, raramente colho,
porque quase não as semeio
e não as cultivo, e
porque exigem muito
da minha natureza acomodada.

 
Mas que burrice, meus amigos!

Se tenho o terreno à minha mão,
se tenho as ferramentas,
se tenho as sementes das boas frutas,
por que guardá-las,
e no pote da prateleira estocá-las?

Não são exatamente estes produtos 
que o mercado mais procura?

 
Passa inverno, passa verão,
passa rapidamente a primavera,
a estupenda primavera!

E os outonos também.

E eu aqui de novo
a cultivar erva daninha,
pepinos e repolhos.

 
Perdendo tempo precioso.
Acomodando e estocando energias.

 
Enterrando talentos
sem nada fazer.


A omissão me desclassifica 
como operário sem alma.


O despertador toca.

 
O relógio do tempo
convida a levantar.

 
Se dentro de mim
existe semente de eternidade,
sou herdeiro, objeto de promessas.


Não quero, não devo, 
não posso ficar na casca e na superfície,
lustrando e guardando aparências,
que não encontram eco na eternidade.

 
Uma jeito novo e diferente,
com alma, está agitando aqui dentro,
querendo sair e manifestar-se.


Um ser especial há de brotar,
nem que algo tenha de morrer.

 
‘Se a semente não morrer’... 
onde foi que li? E esqueci. 

 
Cultivar meu eu verdadeiro,
meu novo eu?

Que eu sou este,
que me cultivo?

 
É para aqui ou é para lá
que me guardo, que sou?

Sem alma ou com alma?

Qual possibilidade está aberta?

 
De dentro do velho homem
há de explodir, ou será, ressuscitar
qual broto que da casca sai
e em novo jeito re-aparece?

 
Ajude-me
a quebrar minha casca.

Liberte minha alma.

Meu ser definitivo quer viver. 

Não estou me vendo, como devo ser.

É o mistério escondido na semente 
que não sabe de que novo jeito vai nascer.

 
Só sei que deixarei de ser humano.

 
Só existe uma alternativa:
acreditar que serei divino.

 
A lagartixa,
rastejando,
renasce borboleta,
que voa.

 
A semente de feijão 
morreu e nasceu, 
não um feijão, 
mas uma árvore 
que produz mais feijão.

Que mistério sou eu,
para mim mesmo.

Que surpresas
minha semente
guarda para depois?

Eneas Paulo Budel Bogucheski         
    Atualizado em 02/02/2016
Atualizado em 18/05/2026

      
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