domingo, 26 de janeiro de 2014

23.- Eternidade. Não me deixem acostumar por aqui.




Não me deixem
acostumar por estas terras.

 
Não permitam
que eu goste de morar por aqui.


Não se acostumem também.

Cutuquemos a acomodação.

 
Não insistamos em fincar raízes
na terra árida.

 
Procuremos a terra fértil
onde se encontram os principais
e mais importantes nutrientes
que alimentam o impossível,
sonhável e desejável.

 
Procurem,
decifrem e deem-me
os mistérios
que alimentem
a minha natureza infinita.

 
Saciem minha sede
com água pura,
da verdadeira fonte,
e forneçam-me alimentos
que me eternizem.

 
Queiramos junto,
adquirir a virtude da teimosia,
buscando o caminho e o alimento certo,
que contenham nutrientes apropriados.


Teimemos contra a própria correnteza,
nem que seja oposição à nossa própria
natureza.

 
Não posso
e não podemos aceitar
que a própria natureza
nos reduza ainda mais.

 
Não aceitemos, passivamente,
entregar-nos para os limites.

 
Não fomos criados
para permanecer
no mundo do fechado,
do pouco, do túmulo lacrado,
da morte sem sentido,
sem aberturas para o futuro,
sem dar chances ao infinito
para ser nosso parceiro permanente.


Quero encontrar abertura
para a eternidade.

 
Não tiremos de nós
as poucas esperanças
que nos vêm dos bons profetas
e dos sensíveis poetas.

 
Afastemos de nós
os profetas do mau agouro,
que não avistam nada
além das fronteiras.

 
Estes, não nos fazem pensar,
nem imaginar sobre ‘algo a mais’
que possa existir.


Não acho próprio da natureza humana
permanecer preso
só no que vemos e tocamos.


Não suporto a ideia de ser só isso.
É muito pouco.
Deve ter muito mais.


Não, não quero estar satisfeito.


Não aceitemos permanecer
no campo limitado da matéria
ou nos limites geográficos horizontais
da natureza visível e palpável.


Ainda há a explorar,
a dimensão de profundidade
e a dimensão da verticalidade.


Asas não as temos.
Não conseguimos ainda,
mas sonhamos voar.


Nossa existência
não é só natural.


Ela é também,
sobrenatural.


Sentimos isso.
Fazemos esta experiência.


Queremos viver mais
o sobrenatural
do que a dimensão perecível
do natural.


Algo nos diz,
talvez um anjo sussurrando
em nossos ouvido
insistindo que acreditemos
que a natureza essencial,
que não aparece,
é sobrenatural.


Muito mais do que para os lados,
forças íntimas e profundas
empurram-nos para cima,
para o alto,
exigindo alicerces
de profundidade.


Não é o chão da rotina
que trará novidades.


Até as árvores,
no reino irmão da natureza,
crescem para cima
e abrem seus galhos,
alargando os braços,
numa atitude de acolhimento
e ansiosos para crescer para o céu.


E até nós, humanos,
crescemos bem menos em estatura,
muito mais em compreensão e espichamento
do desejo para ir além
do que até onde já chegamos.


Mais do que com pesadelos,
povoamos e alimentamos
nossa imaginação
com sonhos e ideais.


Onde está a resposta
do por quê vivemos?

Onde está a essência
e o essencial?


Tem que ter algo mais.


O que até hoje tivemos
é muito pouco.
Não nos contentou.


Não deram respostas satisfatórias.


Deve ter muito mais aí,
pelo mundão afora.


Onde estão os garçons,
aqueles que servem pratos especiais?

 

O essencial
ainda não foi posto na mesa.

 
Muito mais do que a passividade,
é o movimento 
que nos remete para o alto.

 
Muito mais do que as resistências,
são as motivações
que despertam sonhos e ideais.

Nossos irmãos ancestrais
não se contentaram
nem se realizaram 
no mundo das cavernas.

 
Procuraram o progresso no fogo
na caça, na agricultura,
na indústria,
no domínio dos mar
no voar com os aviões pelos ares.


E jamais chegaram dizendo: 
chegamos.

 

Nos espaços siderais, irmãos nossos,
já voaram procurando o infinito.

 
Não, não somos órfãos.

Traços e pistas do nosso Pai 
e Pai dos céus
existem por toda parte.

 
Não, não somos só humanos.


A alegria nos diz isso.
Queremos sempre 
a alegria por perto.

 
Desejamos cultivar
a fonte da alegria
na nossa horta.


Somos pessoas humanas,
com potencial espiritual infinito,
abertos ao ilimitado,
pela imagem e semelhança
com o Cientista,
Criador da Terra e dos Céus,
que cria para a eternidade.

 

Extasia-nos e nos desperta,
um convite, um aceno,
um chamado lá das estrelas.

 
Quem saciará a fomee o desejo 
de conhecer o céu?

 
Estes escritores procuramos.
Estes cientistas esperamos.

 
Que mãe parirá estes necessários
novos escritores, novos profetas,
novos poetas, cientistas do além?

 
Por favor, reitores,
cientistas, filósofos,
artistas e poetas,
rabisquem linhas
e profiram palavras
que alarguem e prolonguem
estes sonhos, necessidades básicas,
das nossas esperanças.

 
Políticos, assinem projetos ousados,
capazes de fazer acontecer,
a esperança brotar de novo, de verde,
em todos os povos.


Teólogos, alimentem nossa fé
no Criador do Universo.
Ele é nosso Pai.
Revelem-nos o rosto Dele
e as moradas
que está preparando para nós.

 
Profissionais de todas as ocupações,
insistam, percam o sono,
invistam neste financiamento,
nas provas e demonstrações
que os mistérios não são fechados
ou impossíveis de serem lidos.


Queremos provas
desta filiação.


Não queremos ser filhos
sem heranças.


Queremos acreditar
nas promessas
de que somos herdeiros dos céus.


Não esvaziem
o conteúdo misterioso do Criador,
nosso Pai.


Não nos deixem famintos,
alimentando-nos
com a ignorância destas verdades.


Falem do nosso Papai do céu.
Nós, filhos, não queremos nos sentir órfãos.
Não aceitamos essa condição.


Não escondam as verdades eternas.


Permitam-nos curtir
o mistério da natureza Divina,
e abram os espaços, mostrando-nos
o impossível, o infinito e o Incognoscível.

Demonstrem as evidências do espírito.

Falem da ressurreição após a morte,
da vida, da vida eterna.


Queremos continuar
vivendo eternamente.


Não nos deixem
curtindo ilusões e fantasias
ou mentiras que viajam pelos séculos.


O livro da história
já nos contou muitas verdades.


Verdades eternas permanecem
com o passar dos anos.

 
Já temos um sul.
Já temos a esperança
de que tais ideais são possíveis.

 

Águias que somos,(*)
feitos para voar nas alturas,
não aceitemos permanecer
como galinhas,
que também possuem asas,
mas não voam mais,
porque a cultura do conforto acomodou.


Caminhemos juntos.


Sejamos parceiros nessa pesquisa,
nessa ânsia de coisas melhores e maiores.



Prefiro ser um iludido
e viver nesta esperança
a sofrer numa vida triste
sem saída para a imortalidade.

      *Leia o livro do escritor Leonardo Boff, 
A águia e a Galinha, uma metáfora da condição humana 
/ Petrópolis, RJ : Vozes.

 
Eneas Paulo Budel Bogucheski                  
Atualizado em 01/02/2016
Atualizado em 27/04/2026

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