Nesta noite
sonhei que estava sendo assaltado.
E aí acordei, suado, gritando:
“Por favor, acudam-me,
estão levando todo meu tempo”.
Um sentimento de
esvaziamento,
como se estivessem sugando minha fortuna,
disponibilidades recebidas
e acumuladas ao longo dos anos.
Meio acordado e meio dormindo
assistia-me sendo roubado.
O barulho vinha,
batia e me atordoava.
A correnteza vinha
e me derrubava.
A fúria da tempestade
na forma de avalanche,
uivando sons confusos e anestesiantes,
me assaltavam.
Tentava fincar o pé no chão,
querendo permanecer
na posição vertical e alerta,
mas vinha de novo o vento
tentando me derrubar.
Faltava-me no que segurar-me
porque todos os suportes,
tudo o que havia de seguro,
já estava caído,
rolando na correnteza,
deitado, como sem vida,
entregues na posição
e condição de desistência.
Deitado, rolava,
rodovida abaixo.
Quanto mais rolava,
na horizontal, sem forças,
menos resistências sobrava.
Esvaziava ideias e ideais.
Despersonalizava meu ser.
Ficava sem norte e sem sul,
sem bússola e sem GPS.
Saia de mim o que era meu.
Não estavam levando
só meu tempo:
eu estava indo
junto com ele.
Eu não mais me pertencia.
Eu estava sendo roubado
de mim mesmo.
E resistia, mas permitia.
Esperneava e me entregava.
Não queria, mas cedia.
De vez em quando
um ídolo, um artista,
um poeta, um profeta,
ainda de pé, resistindo
tentava me segurar
colocando-me de novo em pé,
insistindo, ‘finca teu pé
na profundidade do chão
e levante as mãos para o céu”.
Nestes momentos
levantava as mãos
e esticava meus braços,
tentando segurar
em apoios invisíveis.
É inacreditável, mas é a verdade:
assim provam as experiências
e os testemunhos
de quem sobreviveu
e não sucumbiu.
A história
conta o número
de mártires e santos,
que investiram tempo
na conquista da eternidade.
A história testemunha
que as promessas se cumprem.
Quem no alto se apoia,
mesmo que caia,
não se entrega.
A fé e a esperança
alimentam
quem quer eternizar-se.
Nestes momentos
em que conseguia permanecer em pé,
recuperava as forças,
o ar entrava pelos pulmões,
a consciência recobrava.
Em alerta
de novo me posicionava.
De novo, me via
gritando socorro:
Estão levando meu tempo.
Os ladrões
são inofensivos e atraentes.
Estes bons e inofensivos
instrumentos de 'progresso'
semeiam propagandas de entretenimentos,
e roubam a parte do tempo
que me foi dado
para investir
na eternidade.
Então é de pé
que devo permanecer.
Então tenho que recuperar
e conservar o tempo.
A correnteza e as ventanias
da vida horizontal
não querem deixar-me
cultivar este bem,
este valor do espírito,
no tempo.
Estão roubando o tempo que tenho
para construir minha eternidade.
Se deitar rolo
e entro no rolo
e me acomodo,
e desisto.
Só resta-me uma esperança:
permanecer de pé,
manter-me ocupado com o tempo
que me sobra, para construir o futuro,
na segurança da eternidade,
no porto seguro, valor absoluto.
Se me roubam
todo o tempo útil que tenho,
como vou investir
num bem permanente e eterno?
Preciso defender-me.
Quem fará isso por mim?
Quem me devolverá
o tempo que perdi
ou que me roubaram?
Sem tempo,
como hei de conquistar
a eternidade?
Posso ter uma segunda chance?
Devolva meu tempo.
Devolva-me, minha vida.
Finalizando,
duas questões são colocadas na mesa:
1) Sou eu o dono do meu tempo?
2) O que faço com o tempo que tenho?
Eneas Paulo Budel Bogucheski
Atualizado em 21/06/2016
Atualizado em 07/05/2026
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