Dentro da casca
está hospedada a semente.
Hospedada, sim, porque ali dentro da casca
não é o lugar definitivo dela.
E se a semente não morrer
não explodirá para outro estilo de vida.
Se ela não morrer, secará ou apodrecerá.
Frustrará a sua finalidade
que é a de viver livre, fora da casca.
A semente tem finalidade definida:
sair de dentro do provisório.
A semente tem,
em potência, a ânsia de sair.
A semente cultiva a impaciência:
quer sair para outro mundo.
A semente não aceita ficar
na natureza fechada.
A semente vegetal
aceita morrer
para continuar a viver,
de uma forma diferente.
A semente humana não aceita morrer.
Não aceita morrer
porque não compreende
o mistério da sua vida.
Há muito ainda a aprender
sobre a vida.
Ainda está em aberto o capítulo:
A vida da Vida.
Dentro das aparências
estão escondidas outras verdades
e outras possibilidades.
Dentro do que é velho, por exemplo,
ainda existe uma possibilidade.
Há algo de novo dentro daquilo
que está gasto e envelhecido.
Existem novidades
dentro dos velhos e das velhas.
A semente em grão, que é um fruto,
potencialmente tem a força de explodir
e se transformar de novo, num vegetal.
A natureza dos insetos
também assim nos mostra:
3de um verme que rasteja,
nasce a borboleta que voa.
A natureza das coisas do campo
e da lavoura ou da agricultura
contém exemplos que comprovam
estas proposições.
Fazer a transposição
para o reino humano,
(e sobre-humano)
com o auxílio
destas comparações,
pode servir como ponto de partida
para algumas conclusões.
Dentro do reino vegetal,
existe uma capacidade interna
de transformação:
a semente, a casca da semente morre
e do seu interior, invisível,
nasce outra vida.
No reino dos insetos,
também ocorre transformação:
O bicho-da-seda morre
e nasce a borboleta.
Houve aqui, nos insetos,
a transformação muito mais sofisticada.
No reino humano, está programada
uma transformação muito,
mas muito mais especial.
Em todas as sementes,
há uma potencialidade
para mais uma sobrevida.
Porém, nos reinos inferiores,
a morte fenece para sempre
(pelo que ainda é sabido).
No reino humano, a passagem,
a mudança com a morte
gerará uma nova vida,
e esta, será para sempre,
pois que o espírito,
já presente no humano,
é unidade indivisível
que não sofre corrupção.
Pensando no nosso jeitão,
macambuzo e rabugento,
reduzimos nosso potencial,
secando-nos como semente,
como repolho nos fechando,
prejudicando o alcance
do nosso visual,
reduzindo a quase nada,
uma potência infinita.
Que poder danado tem a rotina.
Que poder redutor
tem a acomodação
e a preguiça.
Quanto prejuízo sofremos
quando não desenvolvemoso
o potencial de observação,
reflexão e contemplação.
No dia a dia da vida,
lavrador que fomos e somos,
na horta da existência,
quase só cultivamos pepinos,
abóboras e ervas daninha.
Moranguinhos, ameixas
e frutas gostosas,
raramente colhemos,
porque não
as semeamos
e não as cultivamos,
e porque exigem muito
da nossa natureza
acomodada.
Mas que burrice.
Que cegueira.
Sentimentos de inutilidade
florescem como mato na nossa horta.
A autoestima desce aos porões
das prisões escuras.
Sentimentos de depressões
obscurecem nossa vista.
Teimamos em ficar rastejando
como insetos.
Entramos no elevador da vida
e apertamos o botão: “desce”.
Há uma inversão
a ser feita nos botões.
Mas é necessário
sair do automático.
Há que se tomar
o controle manual
e procurar o botão ‘sobe’.
Se o campo de ação
está próximo das nossas mãos,
se temos as ferramentas,
se temos as sementes das boas frutas,
porque guardá-las,
e no pote da prateleira estocá-las?
Não são exatamente estes produtos
que o mercado mais procura?
Vem o inverno, passa o inverno,
vem o verão e passa também o verão,
vem a explosiva primavera
e passa rapidamente.
E os outonos também veem e passam.
E nós aqui de novo
a cultivar ervas daninhas,
pepinos e repolhos.
Perdendo tempo precioso.
Enterrando talentos sem nada fazer.
A omissão, a preguiça e a apatia
nos desclassificam como operários
destinados a não merecer
qualquer tipo de herança.
O despertador toca.
O relógio do tempo
convida a levantar.
Dentro da vida, dentro de nós,
existe a semente de eternidade.
Se formos filhos
do nosso Pai que está nos céus,
somos potencialmente herdeiros
de promessas divinas.
Não queremos, não devemos,
não podemos mais ficar
na casca e na superfície,
lustrando e guardando aparências
que não encontram eco
naqueles que esperam de nós
um jeito novo de ser pessoa humana.
Um jeito novo e bom,
um ser novo está agitando aqui dentro;
querendo sair, querendo manifestar-se.
Um ser especial há de brotar,
nem que algo tenha de morrer.
O despertador fala:
‘Heipo, Heipo, acorde’.
Se a semente não morrer,
não viverá para sempre.
Mas se aceitar doar-se, morrer-se,
praticará as obras que a eternizarão.
Todos nós nascemos originalmente
para cultivar
essa verdadeira personalidade.
Há um Heipo escondido
dentro de cada um de nós
querendo manifestar-se.
De dentro da já velha natureza humana
há um inconformismo agitando, esfolando,
forçando as paredes para sair,
igual ao broto novo
que da casca sai de um novo jeito,
e reaparece esperto,
na forma do Heipo.
*Leia
os primeiros textos sobre o Heipo
para você perceber que em cada um de nós
existe uma
personalidade escondida,
a personalidade do Heipo,
querendo manifestar-se,
explodir para fora,
como a semente.
É com o Heipo
que vocês gostam de conviver.
E é com este personagem
que vocês gostam de estar.
“Por favor,
quando este Heipo não estiver acordado,
desperte-o”.
Com o passar do tempo
vamos construindo armaduras
de proteção.
Estes mecanismos de proteção
vão endurecendo e atrofiando
nossa sensibilidade original.
Lentamente fomos perdendo
a maleabilidade das qualidades infantis.
E fomos criando algo parecido
com as cascas das tartarugas.
Agora há um retrabalho:
para recuperar este bem precioso,
teremos de quebrar a casca dura
que nos envolve.
Convém ligar o desconfiômetro
e raciocinar se podemos ou não,
estarmos vivendo na ilusão,
achando que a casca
realmente nos oferece
verdadeira proteção.
... Pura ilusão.
Não, a casca não está nos protegendo.
A casca prejudica.
A casca são representações
ou símbolos das nossas máscaras.
O autêntico Heipo está lá dentro,
no fundo, ansioso por manifestar-se,
e libertar-se definitivamente.
Há uma filosofia de vida nova,
ou renovada,
que pode ser decidida
a partir deste ponto.
Prestar atenção nestas resistências
e planejar atitudes de reviravolta
é a placa indicativa
para virar na próxima esquina.
Se procurarmos viver
a partir desta posição,
estaremos correspondendo
às expectativas de todos e
recolocando o Heipo no caminho
da evolução.
É possível incentivar o Heipo
a expressar-se.
Primeiramente é necessário despertá-lo,
vesti-lo e alimentá-lo
com as vitaminas próprias
da convivência com outros Heipos.
Assim como as flores, hortaliças,
verduras e plantas,
insetos e animais
alimentam-se e vivem
graças às assistências recebidas,
assim também há que se atender
às necessidades básicas do Heipo
para que ele se manifeste.
O Heipo manifesta-se
depois de um ato de generosidade.
O Heipo aparece transbordando alegria
logo depois de dar uma esmola
a um necessitado.
O Heipo está junto com as palavras
e com os gestos de perdão.
Aí está o Heipo,
após o esforço perseverante
em tentar subir mais um degrau
em busca de um ideal maior.
O Heipo manifesta-se
depois de um encontro com um amigo
ou com uma pessoa querida
que nos estendeu a mão.
O Heipo está junto,
na hora do diálogo gostoso
com os amigos.
O Heipo manifesta-se
após cada ato de bondade,
cada atitude de justiça
e cada ação caridosa.
O Heipo está na origem do carinho
dado à sua esposa e filhos.
O Heipo demonstra-se
no ato de atenção
a quem o procura.
O Heipo revela-se
quando há a procura
por momentos de interiorização.
O Heipo revela-se
como anjo na volta da Igreja
ou na volta das reuniões
com os cristãos engajados.
O Heipo revela-se
no abrir-se e entrar
na profundidade da própria alma,
onde está escondida,
a saudade eterna
do Criador que é o nosso Pai.
O Heipo revela todo o seu ser,
depois de entrar em contato
com o seu Pai, o Criador,
alimentando a consciência
da Presença Escondida.
É da própria essência do Heipo
a atitude voluntária de abrir-se
para
receber e de dar para realizar-se.
É da própria essência do Heipo ‘
ser para o outro’ uma resposta
a uma
expectativa.
O Heipo, uma vez repleto
dos ingredientes necessários
à manutenção da
sua própria essência,
retribui na mesma moeda
com o princípio franciscano
‘é
dando que se recebe’,
ensinado e vivido
por São Francisco de Assis.
O Heipo se realiza como humano,
sendo útil para os outros.
Esta é a sabedoria
que poucos livros ensinam.
Esta é a busca certa que dá retorno
a todo e qualquer investimento
na
dimensão do ser pessoa.
A sutil insatisfação
que sentimos de vez em quando,
e que faz brotar a
pergunta
pelo sentido da vida
ou pelo significado de tudo que existe,
só pode
ter uma explicação:
a saudade do nosso Pai e Criador.
A saudade, a sutil insatisfação,
a constante procura da pessoa
por aquilo que é essencial
manifesta um desconforto existencial.
O que será isso
ou que leitura podemos fazer
a partir destas
constatações?
É o Heipo ansiando em viver
e vibrar com todos os valores.
É o Heipo expressando
com autenticidade e coerência
os tesouros que já
possui.
Mesmo que,
ainda como semente,
deseja explodir.
O Heipo vem sempre se apresentando
como uma carência e às vezes,
como
recompensa.
Coitado do Heipo,
se vive fora da sua órbita.
Quando o Heipo é atrofiado,
sufocado,
desvirtuado
e, por isso, despersonalizado,
ele procura compensar o vazio,
no desvio.
Quando uma pessoa desconhece o Heipo,
ignora a natureza ideal de viver,
adapta-se com a rotina
e vai vivendo de qualquer jeito.
Acostuma-se com as
lamentações,
com as tristezas, com o pessimismo
e com o derrotismo.
E, amargurada,
amargura a vida dos outros.
Desconhecendo o Heipo que te habita
poderá se tornar uma pessoa insatisfeita,
com tudo e com todos.
A pessoa dividida,
esparrama-se para qualquer lado,
ou pesada, não sai do lugar.
Aquele ou aquela
que desconhece a companhia do Heipo,
não encontra companhia alguma
que
lhe satisfaça.
Insegura, vive como órfão,
sem pai nem mãe, sem irmãos,
sem companheiros
de caminhada.
Onde foi parar o encanto da vida?
Para onde mandaram o divertimento,
o passeio em família?
Porque a música clássica,
a orquestra, o violino,
o sax já soa tão
distante?
Em verdade vos digo:
se não mudardes e não voltardes
a cultivar as
qualidades próprias das crianças,
como a simplicidade e o encantamento,
de modo
algum entrarão
no reino dos Heipos realizados.
E não desfrutarás
das alegrias mais puras
e deixarás de
receber
os presentes mais desejados
e, portanto, perderás os maiores dons
que
lhe foram destinados.
Uma vez despertado,
o Heipo é a esperança
de que as coisas começam a melhorar,
para si, para os outros
e para toda a humanidade.
Onde existe um Heipo desperto
ali a história toma uma direção
definida e construtiva.
Quando o Heipo desperta,
tudo começa a andar nos trilhos.
Tudo recomeça
a dirigir-se naturalmente
para o seu fim:
a realização das potencialidades
em direção à perfeição.
Em todas as criaturas
existe um princípio de bondade,
de finalidade intrínseca,
como a força da semente
em querer explodir.
O Heipo manifesta
a tendência natural para a bondade.
O Heipo grita, como profeta,
para todos se porem a caminho,
conquistando e defendendo
a última verdade, a bondade
semeada em abundância
em toda a Terra boa.
O Heipo deixa-se encantar pela beleza
e se empenha para que ela apareça
e permaneça.
O Heipo briga e apanha
para defender a dignidade.
O Heipo se defende para manter limpa
a sacralidade do viver e existir.
Esta é a sugestão proposta pelo Heipo:
“Imortalize-te o quanto te for possível”
e o quanto antes.
O Heipo sabe-se destinado
para a perfeição da imortalidade.
As personalidades boas do passado
tornaram-se imortais
por suas boas
obras.
Nós somos eternos aprendizes,
isto é, possuímos capacidades
para
aprender e evoluir sempre.
O Heipo se apresenta na linha do ser.
O fazer é expressão do ser.
A casca, a parte de fora,
age manifestando as coisas boas,
hospedadas lá dentro.
A semente está para explodir.
A semente é o amor.
"O amor
é a única energia atômica,
que se explodir, salvará o mundo".
Pierre Teilhard de Chardin.
Tem coisa boa e grande lá dentro.
de cada semente, de cada pessoa.
Eneas Paulo Budel Bogucheski
eneaspb@gmail.com 41 98854 5166
Criado em 29/05/2015.
Atualizado em 30/01/2016
Atualizado em 22/04/2026

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